Um ritual antropofágico - de Rubem Alves

Antropofagia é comer carne humana – coisa selvagem.

Mas os chamados selvagens não pensam assim. Uma tribo de índios brasileira que pratica a antropofagia assim se justifica: “Vocês, que se dizem civilizados, não amam os seus mortos. Fazem buracos profundos e os enterram, para serem comidos pelos vermes. Nós, ao contrário, amamos os nossos mortos. Não queremos que eles estejam mortos. Mas eles estão mortos! Só existe uma forma de mantê-los vivos: se nós os comermos.

Se nós os comermos, sua carne e o seu sangue continuarão vivos nos nossos próprios corpos.”A antropofagia não se faz por razões alimentares. Não se trata de um churrasco. É um cerimonial mágico. Acredita-se que, ao comer o morto, as suas virtudes são incorporadas naqueles que o comem.

A psicanálise concorda. Ela acredita que nossa personalidade é formada por sucessivas refeições antropofágicas, nas quais devoramos um pedaço de um, um pedaço de outro. Claro, ela não usa a palavra “antropofagia”. Usa a palavra “introjeção”, que significa “colocar dentro”. Mas “colocar dentro” é, precisamente, comer.A eucaristia é um ritual poético antropofágico: “Esse pão é o meu corpo: comei. Esse vinho é o meu sangue: bebei.”

O escritor mineiro Murilo Mendes, no seu livro A hora do serrote, diz algo mais ou menos assim: “No tempo em que eu não era antropófago – no tempo em que eu não devorava livros – pois os livros não são feitos com a carne e o sangue dos que escrevem?”

Há livros que são lidos e o seu conteúdo não passa da cabeça. Informações. Ciência. Há outros livros, entretanto, que são comidos, vão direto para as entranhas, coração. Saber “de cor” = saber com o coração. Nietzsche dizia amar somente os livros escritos com sangue. E Guimarães Rosa, que se dizia mágico e feiticeiro da palavra, esclarecia que na sua literatura se encontrava a “alquimia do sangue do coração humano”. Pois é isso que eu desejo: ser comido.

As coisas que você vai encontrar na minha casa são pedaços de mim. Não importa que seja livros, jardins, poemas, restaurante, fotos, músicas: todos são pedaços arrancados de mim. Como disse, o objetivo da antropofagia não é gastronômico, é mágico: fazer com que o corpo do que come fique parecido com o corpo do que é comido.

É isso que eu quero. De forma especial, desejo que você veja da forma como eu vejo. Gostaria de dar-lhe os meus olhos. Se você vir como eu vejo, então não precisarei mais falar e escrever… Nos sonhos freqüentemente a casa simboliza o corpo. Minha casa não é para ser visitada. É para ser comida.

Bom apetite!

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