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Chuvas, choros e petróleo
Durante as últimas semanas do mês de março deste ano, o Estado do Rio de Janeiro sofreram com as intensas chuvas. Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e outras cidades tiveram muitos prejuízos materiais e humanos. Mais de 250 mortos; centenas de milhares desabrigados, sem nenhuma perspectiva de onde ir, que perderam todos seus pertences, aquilo que conseguiram conquistar com seu duro trabalho, sem qualquer garantia terão tudo de volta. O prefeito Eduardo Paes/PMDB culpa a natureza e sua tremenda força, eximindo-se de toda a responsabilidade; o governador Sergio Cabral/PMDB, de forma absolutamente desumana e descompromissada com as condições de vida da classe trabalhadora afirma que os moradores dos morros são “loucos, irresponsáveis e suicidas”.
Esse mesmo governador que pouco tempo atrás chorou pela possível perda dos royalties do petróleo das tão cobiçadas camadas do pré-sal, que ele argumenta sendo principal fonte de financiamento da copa do mundo de futebol de 2014 e das olimpíadas de 2016. O presidente Lula/PT seguiu a linha já traçada por seus grandes aliados no Rio de Janeiro. Concordando com Cabral, disse que se analisarmos “todas as enchentes brasileiras, elas atingem sempre as pessoas pobres, que moram em locais inadequados". Confirma, portanto, a tese de culpabilização das vítimas. Diz que “o mais importante nessa história é que precisamos conscientizar a população para que deixe as áreas de risco”. Ora, as coisas e a vida não são tão simples e naturais assim, como os donos do poder querem fazer parecer. Ou seja, é evidente que a chuva atinge as favelas bem como o Leblon, mas é tão mais evidente que a maioria dos que mais sofreram com o temporal é a parte dos mais pobres trabalhadores que moram nas favelas, mais especificamente nos locais que apresentam riscos de desabamento. O que sabemos é: moram nestes locais porque são a parte mais proletarizada da população, porque compõem o setor da classe trabalhadora mais afetado pelo desemprego e pela super-exploração do trabalho, porque seus salários não permitem mais que estabelecer a moradia em local tão arriscado!
Historicamente, a democracia representativa tem representado bem seu papel, de representar uma determinada classe em detrimento da outra. Não podemos ser inocentes em perceber que as políticas públicas desenvolvidas pelo poder público beneficiam e atendem sempre a uma determinada classe, que não é a classe trabalhadora, que sustenta todo o funcionamento da sociedade, apesar de algumas necessárias concessões feitas para amenizar certas contradições. Não há um trabalho conjunto entre população e poder público para a realização de políticas públicas que atendam aos interesses de moradia mais imediatos desses trabalhadores, como contenção de encostas, urbanização de favelas, sistema de drenagem etc. Não é demais lembra que as favelas no rio começaram com o processo racista de aparthaid social executado pelos governos anteriores, ainda no começo do século XX que se materializa hoje na imensa massa da população preta e pobre, por tanto não é de se surpreender, mas de se indignar com todo o descaso que a os governos tem ao conter investimentos em infra-estrutura, como moradia e saneamento, em áreas não turísticas e ricas do rio.
A única preocupação são os grandes eventos esportivos dos quais a cidade se comprometeu a sediar, Lula diz ainda que as chuvas não preocupem seus interesses nos eventos de 2014 e 2016, pois “não chove todo dia, quando acontece uma desgraça, acontece; normalmente, os meses de junho e julho são mais tranqüilos”. Portanto, contanto que em junho e julho de 2014 e 2016, a cidade esteja preparada para receber a Copa e a Olimpíada, não importa o sofrimento da população nos outros dias. Até mesmo o falso argumento do “legado dos grandes eventos esportivos” utilizado pelos governantes e pelo grande capital para justificar a importância desses eventos na vida do proletariado – que não usufruirá de seu verniz – cai por terra de vez. Tudo estará funcionando em junho e julho de 2014/2016, com todos os bilhões que serão transferidos pelo Estado (governos federal, estadual e municipal) à burguesia nacional e internacional, nessa relação íntima entre governos e capital que inclui, por exemplo, o financiamento das campanhas eleitorais de PT e PSDB, os partidos brasileiros que mantêm a força da ordem burguesa no país atualmente.
Portanto, não outros responsáveis senão todos os governos, que hoje são representados por Lula, Cabral e Paes que são os verdadeiros culpados pela amplitude dos desastres, visto que todos servem aos interesses burgueses e corruptos. Pouco ou nada fazem para melhorar estruturalmente as condições de vida e moradia do proletariado que vive em áreas que ameaçam sua própria sobrevivência e ainda culpam os mortos pela tragédia ocorrida. Não há como conciliar o interesse entre burguesia e proletariado, em específico ao que tange a questão da moradia, o primeiro quer a especulação imobiliária que desejam expulsar os favelados de seu local de moradia, motivados por diversos interesses (a que se relaciona a imagem da favela criminalizada e de fato alvo da violência policial, do tráfico e de milícias); o segundo exige a melhoria de suas condições de vida e moradia, mas que dever ter de maneira autônoma como objetivo final aquilo que possibilitará o fim das condições sociais que generalizam todas estas tragédias: o fim das condições sociais que causam sua miséria. Somente o povo auto-organizado, auto-gerido será capaz de ir para além da necessária melhoria imediata das condições de vida que habitam em regiões mais precárias, precisa ser o fim da sociedade de classes, sem pátria e sem patrão.
As vidas foram ceifadas ... a vida continua ... mas como continua?
Fale diretamente comigo pelo email estevaolg@yahoo.com.br
Estevão Garcia
LAPA - Laboratório de Estudos e Práticas de Autogestão
www.lapiano.blogspot.com







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