Aspectos libertários da educação e sexualidade

limitações de tempo e espaço, trataremos aqui de aspectos e não da profundidade que o tema sugere, mas deixando como tarefa a toda juventude uma discussão mais ampla sobre todas temáticas aqui expostas. Procuramos perceber o universo de conhecimento a respeito da sexualidade e sua conexão com aspectos educativos e sociais pela discussão da educação e da escola e os desdobramentos que as relações dos indivíduos tem com seu corpo, para consigo mesmos, para com outros indivíduos e para a sociedade como um todo. É importante destacar a importância da individualidade na construção das relações amorosas bem como a importância da sexualidade na formação psicológica dos jovens. Importa-nos repensar o amor e a sexualidade sobre novas bases como nos diz Kollontai (2000, p.23) “ [...]fundados na igualdade, no respeito mútuo, no companheirismo, na liberdade absoluta, por um lado, e igualdade e verdadeira solidariedade como entre companheiros [...] ”. Muitas vezes deixamos de perceber a relevância dessasreflexões e discussões por se tratar de uma demanda dos jovens, reduzindo sua importância, e isso é um aspecto determinante nos possíveis desfechos para a vida social.

 

Amodernidade centrou grande percentual das questões educacionais na instituição escola. Esse processo de formalização, institucionalização e, de certo modo, organização do conhecimento, articulado ao desenvolvimento dos meios de produção da existência sob a perspectiva do capital, consolida um movimento de cisão entre o logos e a pólis enquanto possibilidade de horizontepara os que tem acesso à educação, ao passo que conhecimento e política deixam de ter uma articulação durante o ensino e na produção. Essa divisão faz com que a educação, acompanhando as mudanças sociais do processo produtivo, perca sua dimesão totalizante como elemento emancipador dos indivíduos. Com a massificação da educação sob monopólio do fomento por parte da escola, na busca do desenvolvimento da razão, dá a educação um status de legitmação dasdiferenciações sociais e ocupacionais sob as quais o desenvolvimento capitalista se apóia, rementendo a discussão política para o âmbito dos especialistas. Essas breves considerações se fazem necessárias para estimular uma reflexão nos leitores que, não é possível discutir educação nem sexualidade apenas no interior da escola por suas manifestações formais ou relacionais. É preciso transcender aos muros da instituição e trazer toda a materialidade dos que compõem a escola, para que tanto o debate, como as possíveis mudanças concretas possam ser mais efetivas. Será que, dentro desta conjuntura, a escola tem
possibilidades de responder aos anseios objetivos e subjetivos, criados pelas contradições materiais dessa forma de organizar a sociedade?

Comofiz um movimento de articulação da discussão entre educação e sexualidade para produção deste texto, com a contribuição de Freud e Reich, cabe mostrar também a relação entre a psicanálise e a educação para entender, inclusive como dar direcionamento as pulsões e construir uma melhor profilaxia das neuroses, onde:

                                      “Os métodos educacionais empregados,quaisquer que sejam eles, parecem ter pouca importância frente à parte incontrolável que está sob influencia do inconsciente. Isto justifica a aspiração de Freud de que os educadores recebam uma formação analítica que lhes permita, por um lado, compreender melhor a criança, e, por outro, exercer uma ação corretiva sobre seu desenvolvimento psíquico mediante o método psicanalítico (Millot, apud Matthiesen, p. 74)”.

 

Umaprimeira questão nos importa para orientar os pensamentos: há ligação entre a ordem social capitalista e a maneira como é tratado a sexualidade da juventude? Os princípios da sociedade capitalista sob a ideologia burguesa pautado nos princípios do individualismo e da concorrência desenfreada, demonstram um aspecto importânte da realidade, e importa deixar claro que desde os tempos imemoriais que a humanidade estabelece regras que regulam não somente as questões sexuais, mas também os sentimentos amorosos.

                                     “Reich via na repressão dasexualidade a maior arma da opressão política, enquanto o recalque sexual oferecia a melhor garantia da submissão das massas [...] preconizou, como remédio para o mal-estar na civilização uma revolução política e sexual que deveria retirar todos os obstáculos à eclosão do desenvolvimento individual e coletivo (Millot, apud Matthiesen, 2003, p.64)”.

                        O princípio do prazer,feito de desejos, apetites e impulsos de natureza sobretudo sexual, localizado no inconsciênte pode, segundo Freud, entrar facilmente em conflito com as atividades consciêntes da mente, que estão interessadas em evitar os perigos e em se adaptar à realidade e a um comportamento civilizado. Baseando-se no pressuposto psicanalítico de que as doênças mentais resultavam do conflito entre sexualidade e cultura sempre que a segunda impedisse o curso da primeira e de que a privação da satisfação sexual direta, individualmente variável, poderia acarretar fenômenos considerados patológicos (MATTHIESEN – 2003, p. 52). Compreender essa idéia aponta para que, uma mudança na mentalidade, a diminuição dos rigores da moral, a mudança dos costumes e da educação poderiam remediar e até prevenir patologias. As idéias primárias de satisfação do desejo que dominam o inconsciênte são impulsivas, desorganizadas e não obedecem a nenhuma lógica. Para tanto, o princípio da realidade, ou pré-consciência opera um processo secundário de organização do pensamento e modo de agir, mostrando que todo o pensamento humano é um parte uma conflito e em parte um compromisso entre os sistemas pré-consciênte e inconsciênte. A sexualidade na infância e o desenvolvimento da libído, da qual todos nós temos, durante as fases de desenvolvimento psicosexual (fase oral, fase anal, fase genital), podem ocorrer com resistências a determinados impulsos de desejos considerados perversos. A repressão em alguma dessas fases e, somado a dificuldade de liberar todo potencial orgástico pode, com o acúmulo de energia, causar neuroses, transtornos e compulsões, que afetarão o indivíduo e a sociedade de uma forma ou de outra, em maior ou
menor grau.   Para Freud, no que tange ao desenvolvimento sexual, ambos os sexos temuma natureza bilateral (bisexualidade), não existindo nos seres humanos a masculinidade ou a feminilidade puras, num sentido psicológico ou biológico. É certo que essa afirmação faz emergir burburinhos entre os jovens que, em fase de afirmação de sua sexualidade, tende a negar qualquer vínculo que o ligue a uma característica socialmente construída de seu sexo. Nesse sentido, notamos que as práticas sociais como a divisão social do trabalho, forçam, por exemplo, as mulheres a papéis mais passívos. A curiosidade sexual é distintamente humana, e somos psicologicamente saudáveis quando nossas buscas pelo conhecimento é desinibida. São os neuróticos que tem inibições inconsciêntes que os impedem de conhecerem a causa de sua infelicidade. A realidade oferece aos seres humanos muito mais oportunidades de experimentarem a dor do que o prazer, com isso a maioria das pessoas sacrificará seu prazer à civilização se esta, em troca, lhe proporcionar um sofrimento menor. (ZARATE; APPIGNANESI – 1982, p. 72).

                        Todos nós temos não somentea libído, mas também um fluxo libidinal sexual do afeto que, quando interrompido geram neuroses [1], e nestecaso, pelo foco da nossa exposição, devemos deixar claro o papel do capitalismo na construção das subjetividades pelas determinações materiais, inclusive no surgimento, desenvolvimento e agravamento das neuroses.

                                     “[...] o que interessa de fato é aprofilaxia das neuroses, objetivo para cuja realização prática, no moderno sistema social, flatam todas as condições prévias; que, em suma, só a mudança radical das instituições e ideologias sociais (mudanças que dependem do êxito das lutas políticas de nosso século) criará condições necessárias a uma ampla profilaxia das neuroses (REICH – 1986, p. 117)”.

                        Para Reich (1986, p.61)a libído e o soma, tem uma relação dialética somato-psíquica, manifestada nos sistemas muscular e nos nervos parasimpático. Ou seja, não é só corpo, nem só mente e sim a interação de ambos. A libído sexual deve ser encarada como qualidade humana normal, quando expressa em liberdade. Esse exercício livre da sexualidade tem, na expressão clínica de Reich, um potencial orgástico [2]que possibilita ao ser humano a manifestação do prazer pleno, para além do simples gozo, que pode ser mecanicamente conseguido.

                        Kollontai nos diz que, “Oato sexual transformou-se num fim em si mesmo, num meio para alcançar maior voluptuosidade, numa depravação exacerbada pelos excessos, as peversões e as aguilhoadas doentias da carne (2000, p.146)”. Para tratar da questão dasopções sexuais (hetero, homo, bi, trans, pan, etc.) além da forma de vínculo entre as pessoas (monogamia ou poligamia) é necessário que tenhamos claro a diferença entre individualidade e individualismo, para respeitarmos ao ser e à suas criações de toda ordem. A juventude, em qualquer parte do orbe, acompanha de uma forma ou de outra, as manifestações prós e contras a respeito da diversidade das opções sexuais e afetivas, e o quanto ainda a sociedade é intolerante e repressora quanto a essas orientações no dia a dia, e ainda mais conservadora quanto se trata de o Estado mediar a questão colocando na ordem do dia a legalização da união civil homo-afetiva.

                        Temos que estar atentospois, s abido é que aideologia dominante burguesa é cuidadosamente cultivada, a psicologia individualista apresenta-se como parte da conformação social, o que equivale afirmar que a mudança psiquica individual e coletiva depende também da reorganização das relações econômicas sobre outras bases. Kollontai (2000, p.64) nos apresenta três fatores fundamentais que deformam a psicologia humana que são o egocentrismo extremado, a idéia do direito de propriedade dos esposos entre si e o conceito da desigualdade entre os sexos no aspecto psicofisiológico.

                        Percebendo criticamenteo conservadorismo da sociedade capitalista no que tange as relações afetivas e, apontando para sua superação, é necssário não somente compreender as possibilidades de solubilidade das relações como também compreender e reconhecer todas as formas de união entre os sexos, mesmo que estas se apresentem diante de nós com contornos novos e desconhecidos. A defesa da heterosexualidade e também da monogamia, é essencial dentro de uma ótica burguesa porque, segundo Kollontai (2000, p.140)                                   

    “O amor não podia ser consideradocomo um sentimento legítimo fora do matrimonio. Sem o matrimonio, o amor era considerado imoral. Esse ideal correspondia a
considerações de ordem economica: impedir que o capital acumulado se dispersasse com os filhos nascidos fora de uma união matrimonial”. Este é um elemento importante para compreender sob qualmaterialidade se manifesta os sentimentos e as relações, mas também para que possamos notar que o amor se manifestando como união livre ou adultério, ambos condenados pela moral burguesa, são, na realidade cultivados pela burguesia. Segundo Briganti (1987, p. 79), a família ocidental é regida pela repressão sexual, e a manutenção do grupo familiar é instaurada através de leis moralistas: a monogamia é lei básica. Até que a morte separe o casal, cada um somente poderá vir a manter relações sexuais somente e sempre como o mesmo parceiro. A propósito de uma relação simétrica entre homens e mulheres. Sem duplas mensagens. Sem malhas de hipocrisia. Desta forma, se surgisse a monogamia, seria autêntica, espontânea, livre, madura, orgástica (Reich, apud Briganti – 1987, p. 83). SegundoMatthisen (2003, p. 22) a obra de reichiana, embora aparentemente demonstre uma preocupação primeira com questões terapêuticas – teóricas e técnicas – acerca da neurose, é atravessada por questões sociais e políticas que revelam que, no conflito entre o indivíduo e a cultura, na formação do caráter da criança, a educação – portanto, a ação dos pais e educadores – é essencial para o equilíbrio emocional e energético do indivíduo, cuja base assenta-se na dinâmica da energia sexual.

                       Acompanhando essadiscussão, temos o corpo como unidade mais próxima de nós onde pode-se manifestar ou não essa cultura, e o que temos visto nessa sociedade é a relação quase que inalienável do corpo com a beleza estética. As preocupações com o corpo do cidadão só podem ser compreendidas no entrecruzamento dos elementos econômicos, políticos e culturais de uma determinada sociedade. Ao anunciar produtos relacionados à busca da beleza estética, sempre ligados à saúde do corpo, a mídia reforça os sistemas hierárquicos de valores, tornando a beleza o ponto alto dessa hierarquia, o que pode ocasionar uma competição estéril na busca de ascensão social, profissional ou mesmo afetiva, pois suas armas correm o risco de ficarem restritas à aparencia física de seus corpos. Essa idéia tem um forte implicativo também sobre a liberdade sexual, que só se torna possível enquanto discurso de poder sobre o próprio corpo. Deixamos de perceber a estética enquanto experiência sensível de um indivíduo com outro, com um objeto e até mesmo com o meio em que vive. Vivemos declaradamente na ditadura da estética, e a construção da noção estética para Briganti é, “[...]construídana sociedade de consumo, que torna o corpo enquanto objeto de consumo,
e que constrói padrões que sugerem mais ou menos possibilidades de prazer ou afeto (1987, p. 54)”.

                        Emendando a discussão docorpo, ninguém sofre mais historicamente com essa ditadura estética consumista que a mulher. O papel da mulher na família que no capitalismo é um polo de reprodução da ideologia patriarcal mais retrógrada, dos costume e tradições mais conservadores. “Para a plena emancipação da mulher, para sua igualdadeefetiva em relação ao homem era necessária uma economia que a libertasse do trabalho doméstico e na qual ela participasse de forma igualitária ao homem (KOLLONTAI – 2000, p.20)”. Temos uma mostra de maneira clara o quanto aopressão pesa sobre elas, onde por uma outra perspectiva, a questão deveria   passar pela igualdade nasrelações mútua, reconhecimento recíproco dos direitos e sensibilidade fraternal. Segundo Kollontai (2000, p. 26) “[...] chegará o tempo em que umamulher será julgada pelos mesmos padrões morais utilizados para os homens [...]” .

                        Uma outra questãolatente e que não poderia ficar de fora é a questão do aborto que foi pauta do debate eleitoral, feito de maneira superficial e apologética, que desconsidera estado de miséria, a condição de saúde da mãe e o direito sobre o próprio corpo da mulher. Há no capitalismo uma contradição na negação do aborto pelo fato de, com isso, criar um    exército industrialde reserva o que dá ao a ele o trunfo da redução do salário dos empregados e maior exploração de seu trabalho para produzir mais em menos tempo, mas ao mesmo tempo não garante condições míminas de existência dignas para essa grande massa. Para que as mulheres de novo tipo, nos termos de Kollontai, possam romper com os dogmas que as escravizam, é necessário criar valores morais e sexuais que “[...] destróem os velhos princípios na alma das mulheres queainda não se aventuraram a empreender a marcha pelo novo caminho (KOLLONTAI, 2000 – p.24)”. Uma das questões mais marcantes da relação da mulher com asexualidade está ligado com uma miséria social que vem unida aos sofrimentos físicos, psicológicos e às enfermidades, que é a prostituição, que ao mesmo tempo tem forte influência sobre a psicologia humana, pela venda forçada da intimidade e compra de carícias de um ser por outro. A postura ativa perante as questões sociais, à medida que a mulher intervém no movimento da vida social, à medida que se converte em mola ativa do
mecanismo da vida econômica, seu horizonte se alarga, e com isso também suas possibilidades emancipatórias. Para Kollontai (2000, p. 37) “[…] meu ponto de vista marxista apontava com umaclareza iluminadora que a libertação feminina somente poderia dar-se como resultado da vitória de uma nova ordem social e um sistema econômico diferente”.

Toda essa discussão proposta, em todos seus desdobramentos e conexões, deve ser objeto de análise crítica dentro da escola, para que esta, possa de maneira mais efetiva cumprir um papel relevante para com a juventude e, consequentemente para com toda a sociedade, uma vez que, com isso, a vida fora dela poderá se manifestar através da mudança da postura da prática cotidiana.

Entendemos que não há possibilidade de reconstrução total da psicologia humana dissociada do problema sexual. Tanto em Freud com em Reich, há a preocupação de analisar criticamente as relações sociais deste momento histórico e pautar um projeto de sociedade menos repressora, mais afeita às singularidades e suas vicissitudes, mais atenta em educar seus educadores e em aprender com seus supostos educandos. Uma sociedade que procure, sempre, diminuir a distância e a contradição entre indivíduo e sociedade, natureza e cultura, razão e emoção, corpo e psique. Segundo Kollontai (2000, p.47) “ A deprimente crise sexualnão poderá resolver-se de uma vez só, não poderá deixar o caminho livre à moral do futuro, sem luta”. Luta é também compreender e agir sobre a realidade complexa e
contraditória em que vivemos. “A linha fundamental definitiva dapolítica sexual da juventude deve ser elaborada pela própria juventude (REICH - 1986, p. 144)”.

 

Bibliografia

 

BRIGANTI, CarlosRosário. Corpo Virtual – reflexões sobre a clínica psicoterápica. SãoPaulo, 1987. Summus Editorial

 

KOLLONTAI,Alexandra. Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emanciapada.São Paulo, 2007. Editora Sundermann.

 

___________. A nova mulher e a moral sexual . São Paulo, 2000. Expressão Popular.

 

MATTHIESEN,Sara Quenzer. A educação em Wilhem Reich – da psicanálise à pedagogia econômico-sexual .São Paulo, 2003. Editora Unesp.

 

REICH, Wilhem. Ocombate sexual da juventude . São Paulo, 1986. Edições Epopeia.

 

ZARATE, Oscar;APPIGNANESI, Richard. Freud para principiantes. Lisboa, 1982 – segundaedição. Publicações Dom Quixote.

 

[1]              Expressão resultante do conflitoentre o impulso sexual e o temor à punição.

[2]              O potencial orgástico eraentendido como uma “descarga orgástica total”, capaz de descarregar completamente “a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo”.

 

 

Fraternalmente,

Fale diretamente comigo pelo email estevaolg@yahoo.com.br

Estevão Garcia
LAPA - Laboratório de Estudos e Práticas de Autogestão
www.lapiano.blogspot.com

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