A melhor militância é a do corpo
Parece estranho comentar, mas o fato é que os modelos se
repetem. O grande atrativo da festa é sempre o sexo, o corpo esculpido, a beleza
e o "mexe mexe" dos quadris.
Um show "hetero" para que seja um sucesso de público precisa
de bailarinas dançando com garrafinhas ou dando tapinhas na bundinha. Do
contrário, está fadado ao fracasso de público e empolgação.
Na grande maioria dos eventos GLS, os eventos que entopem de
gente e que têm público garantido são os que pipocam e mesclam "go go boys",
shows de sexo ao vivo e strippers a cada 15 minutos. Nâo é preciso nem decorar a
casa.... (afinal quem liga para isto??).... O importante é o recheio de homens
bonitos, corpos bem definidos e sarados e pessoas com pouca ou nenhuma roupa.,
além de um quartinho escuro, onde se possa "conhecer" diversas pessoas ao mesmo
tempo... ou várias pessoas numa só noite... em uma espécie de competição, onde
se goza várias vezes e continua-se frustado buscando sempre a felicidade, que
parece estar longe disto tudo.
As casas noturnas já descobriram a fórmula da casa cheia e
do público sempre presente. Em contrapartida, o movimento homossexual brasileiro
continua implorando e ficando rouco de tanto chamar as pessoas para uma tomada
de consciência dos direitos individuais e de cidadania de todos e de todas.
Montam-se manifestos, organizam-se protestos e colhem-se assinaturas para
projetos importantes para um grupo que vive jogado na marginalidade por uma
sociedade que finge que gay não existe... ou que quando "aceita" a nossa
existência (como ato de benevolência) , estipula as normas que quer nos
impor.
Os pedidos de se organizar um movimento para a formação de
uma grande massa é complicado e difícil. Em se tratando de movimento
homossexual, a dificuldade aumenta demais, haja visto a problemática toda que
esta tão discutida e controversa sexualidade apresenta. Ser gay, lésbica,
transexual, travesti é até fácil, quando se aceita tudo o que querem que
sejamos, quando nos anulamos em função de vontade da maioria da sociedade. O
difícil mesmo é lutarmos para sermos o que somos, seres com vontade e
sentimentos próprios, pessoas que somente querem viver, da maneira que nasceram
e do modo como sentem.
A mídia muitas vezes não dá importância para atos que em sua
opinião são menores. Lógico que ela não quer mostrar o gay político, travestis
que trabalham sem necessitarem prostituir-se ou lésbicas que estam felizes com
suas companheiras em feliz matrimônio. Tudo isto não é interessante para a
mídia. Vai contra tudo o que ela sempre criou, contra os estereótipos que ela
definiu e impôs como verdade única e contra a própria essência da sua
existência: a de fazer "cordeirinhos" de uma única cor e com um modo de pensar
totalmente preso à realidade que ela cria.
O movimento homossexual evolui enquanto luta, desejos e
sentimentos, e movimento social. Hoje sabemos que não somos pecadores, que não
somos sujos ou indignos e que temos DIREITOS. Hoje temos a certeza de que
podemos existir sem culpa, pois não criamos nossa sexualidade. Simplesmente a
deixamos fluir, naturalmente, como tinha de ser.
Podemos não conseguir as assinaturas suficientes que
precisamos para fazer lobby para que um projeto seja aprovado. Podemos nâo
colocar numa praça pública o número de pessoas desejadas para unir a massa e
mostrar que o bem e a justiça são para todos, inclusive para nós. Podemos não
conseguir apoio da mídia sempre que precisamos de divulgação e nem de números de
gays, lésbicas, transexuais e travestis sem precisar colocar go go boys na
avenida. Podemos ser utópicos em acreditar que um mundo melhor existe e onde
chances e oportunidades serão iguais para todos.
Mas em verdade vos digo, a união está fazendo a força.
Os direitos constitucionais começam a ser válidos não somente no papel. Eles
ganham vida real e deixam viver pessoas que antes não tinham este direito. O
mundo está mudando e estamos fazendo parte desta mudança, somente precisamos de
um pouco mais de tempo e de consciência que somos mais do que carne e tesão:
somos sentimento e exigimos VIVER.
Maite Schneider
http://www.casadamaite.com
casadamaite@gmail.com







Enviar novo comentário