O paraíso tem as cores do arco-íris

Da semana que aconteceu em São Paulo
deste ano de 2001, dos dias 10 à 17 de junho, muita coisa mudou em termos de
respeito, cidadania e qualidade de vida. Foram uma série de eventos que
aconteceram na capital paulista e mostraram, a quem se deu a chance de crescer e
ampliar seus horizontes, que gays, lésbicas e transgêneros sabem mais do que
brilhar, amar e serem felizes. As pessoas puderam perceber a riqueza do mundo
"escondido" da grande mídia e da sociedade em geral: viram homossexuais e
transgêner@ envolvid@s em artes, cultura, informação, política, militância e
muita auto-estima e dignidade.

Tive o enorme prazer de poder estar presente e acompanhando esta
semana toda, e com certeza, conto que voltei diferente. Algo dentro de mim,
voltou a ficar mais forte e brilhante. Percebi que o mundo está mudando, SIM, e
as pessoas estão abertas a respeitarem as diferenças existentes. Uma injeção de
ânimo e fé na utopia que sempre acreditei; de um mundo onde todos tivessem
oportunidades iguais, mesmo mantendo suas diferenças; um mundo onde pudéssemos
todos nós, sermos nós mesmos sem o recurso de máscaras e enganações; um mundo
onde as pessoas valham pelo SER de sua essência e não pelo seu exterior. Este
mundo, acredite, tive a chance de conhecê-lo mais de perto, vivendo a Semana do
Orgulho Gay de São Paulo.

O trabalho foi grande para que esta semana acontecesse, foram
muitos voluntários e voluntárias, que não ganharam nada e que acreditaram no
sonho deste mundo melhor para tod@s nós, homos, heteros, bissexuais ou
transgêneros. Foram muitas horas de entrega de seu tempo com família, amores e
amigos. Horas que poderiam ter aproveitado em coisas para o bem estar de si
próprios, mas que foram trocadas por nós.

Nesta linda semana, o sol e o bom tempo acompanharam em cada
passo dado a trajetória proposta pela Associação da Parada de SP. Até mesmo
alguns contras de associações ditas "poderosas" e lobbys para a não realização
bem sucedida do evento, deram força para que nos fortalecessem mais ainda a
caminhada. Bravamente, mostramos que de excluíd@s nada temos, e mais uma vez a
diversidade foi enaltecida e os obstáculos vencidos.

Entre coquetéis, exposições, mostras de filmes, lançamentos de
livros, musicais, feiras e muita alegria, fomos demostrando, a quem quissesse
ver, que existimos de uma maneira linda e singular: EXISTIMOS SEM MENTIRAS.
Talvez isto dê algum medo, em algumas pessoas, pela ousadia de podermos ser o
que somos, sem nos sentirmos culpados ou pecadores. Entre famosos e anônimos,
fomos mostrando que temos todas as caras, profissões e cores. Fizemos nosso
melhor, sendo o que somos. E isto foi lindo demais, mesmo!!!

No dia de desfilar à luz do dia, em plena confraternização de
mais de 200 mil pessoas, num ensolarado domingo de 17 de junho de 2001, um
pensamento veio-me à cabeça e gostaria de dividir com vocês: "Somos todos anj@s
de uma asa só, e para levantarmos vôo, PRECISAMOS nos abraçar uns aos outros".
Senti que neste dia 17, éramos mais de 200 mil anj@s que se abraçavam de maneira
visível ou não. Tod@s que ali estavam, divertindo-se, pulando, beijando, quer
com camisetas e faixas de protesto, quer com maquiagem colorida ou muita
produção e até mesmo as famílias que se estendiam por todo o trajeto desta linda
confraternização uniam-se num BEM-QUERER único e levantávamos tod@s a mesma
bandeira: de um mundo sem fronteiras, mas com horizontes para tod@s . Um mundo
sem um rosto, mas com a cara de tod@s.

Tenho a certeza de que, em verdade, passamos dos milhões neste
dia em São Paulo. Haviam no trajeto da Paulista - Consolação, executiv@s que não
puderam comparecer; pais e mães que não tiveram como estarem lá; amig@s,
parentes e gente querida que não conseguiram ultrapassar as barreiras do
preconceito que a sociedade nos impõem no dia-a-dia; profissionais liberais,
doutor@s, religios@s, polític@s e personalidades que não puderam marchar o seu
orgulho em serem gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros. A todos estes
milhões que não puderam estar conosco, eu digo, que vocês estiveram lá sim; do
contrário, não teríamos vencido as dificuldades que foram apresentadas.

No dia 17, fomos tantos anjos abraçados e unidos, que tenho a
certeza de que conseguimos JUNTOS, arrastar para um pouco mais longe o
preconceito e a discriminação não somente dos que moram em São Paulo, mas também
dos que acreditam num mundo realmente melhor e mais humano.

Na segunda, dia 18 de junho, chove em São Paulo, creio que para
limpeza de mais um pouco da dificuldades que teremos ainda que enfrentar, e que
serão resolvidas com discussões, brigas, violências, mortes e muitas outras
tragédias. Mas a certeza de que estamos no caminho certo do paraíso que
acreditamos existir é real e hoje é mais concreta ainda depois de tudo que vi e
pude presenciar.

Quem faz o que nós OUSAMOS fazer, não podem ser chamados de
minorias, têm de ser chamados de LUTADORES, SOBREVIVENTES E VENCEDORES.

Com carinho,

Maite Schneider


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Frases que marcaram esta semana do Orgulho Gay:

* Uma mãe de 36 anos que levou seu filho de 12 anos ao Hopi Hari
no Gay day :

"Sabia que seria o dia gay, mas isso não me incomodou, ao
contrário. Não quero que meu filho seja criado num meio onde homosexuais de mãos
dadas sejam vistos como anormais".

* Marta Suplicy: Marta lançou a idéia de transformar a parada em
toda uma semana gay. "Um evento destes traz recursos, lota hotéis, restaurantes,
cria empregos. E é um orgulho ter uma cidade no Brasil que recebe os gays com
palmas."

* Como tolerância e simpatia são moedas correntes muito
apreciadas no mundo gay, a educadora Lucília Garcia, de 51 anos, saiu munida de
bandeira de arco-íris e muita animação pela avenida. Ela explicou que ela não é
homossexual, tinha deixado o marido em casa dormindo, mas veio apoiar a parada.
"Temos de acabar com todo tipo de preconceito."

* Um casal de senhoras chamou a atenção no meio da multidão.
Irene e Hélia, respectivamente 58 e 63 anos, dançavam animadas de mãos dadas por
entre muitos jovens, arrancando elogios de todos. "Temos orgulho do nosso amor.
Infelizmente não é todo dia e em todo lugar que podemos mostrar isso na rua",
disse Irene, aposentada que há 15 anos vive com Hélia.

* Um casal de mulheres, que não quis se identificar, disse que o
evento da parada é marcado como um dia de protesto, celebração, e para mostrar o
que os homossexuais são na verdae. "Nós estamos aqui para mostrar que somos
felizes assim e isso serve para mostra que queremos apenas levar amor às outras
pessoas. Ninguém está aqui para brigar. Não somos marginais", disse.

*. Muitos heterossexuais estiveram no evento, mas para eles o
objetivo parecia ser apenas aproveitar a festa. "Eu moro aqui pertinho e vim só
para ver a animação", contou Soares, de 40 anos, que estava acompanhado por
Aída, de 25. "Eu venho todo ano, acho muito bonito", disse Clô, de 64 anos. Já
Leonel, um professor titular da Universidade de São Paulo, optou por prestigiar
a Parada como uma forma de celebrar a cidadania. "Eu me sinto na obrigação de
apoiar as diferenças", afirmou.

* Paulo Teixeira, secretário municipal da Habitação, compareceu
à Parada do Orgulho Gay e mandou um recado em nome da prefeita de São Paulo
Marta Suplicy.

"Em nome da prefeita Marta Suplicy, queria dizer que essa é a
maior e mais bonita parada gay do mundo. Com esse evento, São Paulo mostra que é
a cidade da tolerância e da igualdade. Contra a falocracia, viva a democracia!
Em tempo de apagão, vocês trouxeram a luz para São Paulo", declarou.

* Entrevista de Boris Casoy para http://gowheresp.terra.com.br/26/26boris_casoy.html

Aonde vai parar a Parada Gay Anual de São Paulo?
Ela não vai
parar. Ela é, acima de tudo, pela liberdade e contra o preconceito!

 

Maite Schneider
http://www.casadamaite.com
casadamaite@gmail.com

 

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