O tempo passa, o tempo voa e tudo continua uma bomba

Hoje deparei-me com uma cena que trouxe novamente o pouco que recordo de
minha infância ao presente. Estava passando do outro lado de um colégio classe
média alta, quando ouço um barulho grande vindo de um grupo de meninos e
meninas. Não dei muita importância ao fato, por achar que tratava-se de
brincadeiras de crianças em saída de colégio.

Qual não foi minha surpresa, chegando mais perto do amontoado formado e ouvir
todas a crianças gritando em bom e alto tom: "Viadinho, viadinho, viadinho..." .
Continuei achando se tratar tudo de uma brincadeira, mas a surpresa maior ainda
estava por vir. Uma criança, que também deveria pertencer (e que obviamente, não
pertence) ao grupo, chorava muito encolhida num dos postes do colégio.

Chegando mais perto desta criança, escutei ela sussurrando baixinho: "Não
sou, não sou viadinho, vou contar para os meus pais". Meu coração apertou demais
naquele momento. Um filme antigo de minha infância, vivida naquele mesmo
colégio, voltou à minha cabeça. Foi tudo muito rápido, mas pareceu que todo
aquele minuto, eram longos e duros anos que passei na juventude dos meus 8
anos.

Nenhum dos pais que por ali passou para pegar seus filhos e filhas falou
nada. Parecia mais um fato comum que acontecia com uma certa freqüência e que
passava desapercebido.

Minutos depois, chega a mãe da criança e vê ela chorando. De longe eu percebo
que ela pergunta o que aconteceu. Creio que deva ter perguntado se ele tinha se
machucado ou coisa do tipo. Ele acho que conta o que realmente aconteceu, sem
inventar uma história qualquer (eu também já fiz isto!!). No mesmo instante, a
mãe arrasta com força, e com a expressão do rosto nitidamente furiosa, o filho
pelo braço e sai discutindo como que culpando-o por alguma coisa. O menino volta
a chorar, desta vez não mais pelas crianças que fazem de alguma característica
sua, motivo de chacota e zombaria.

Fiquei parada algum tempo mais ali na calçada. Dura. Petrificada. Pensando o
que aquela mãe teria dito para seu filho. O que ela fará? Contará para o pai? E
a criança? Como fica a cabecinha dela? O que ela pensa do mundo e das pessoas
que a cercam? Que medos criará na vida? Quanta culpa trará para o resto de sua
existência?

Sei que não deveria estar falando tanto sobre algo que não faz parte da vida
da maioria das pessoas. Sei que não deveria estar colocando um (?) fato
específico, como regra geral. Sei de tudo isto sim, mas quando eu tinha 8 anos
eu também sofri por isso na escola. Meus pais também brigaram comigo pelo meu
jeito (Mas que jeito?? É o meu jeito....) . Também sofri calada com as piadinhas
que sempre colocavam-me como tema principal. E hoje percebo, através das muitas
amizades que tenho, que o problema na infância e na adolescência de crianças e
jovens com comportamentos fora da padronagem exigida, é quase sempre sofrido e
muito tortuoso.

Uma pena ver em pleno novo milênio que estes exemplos continuam acontecendo,
que preconceitos continuam sendo difundidos no colégio, na família e na
sociedade e que crianças continuam achando-se erradas, pecadoras e malditas por
serem de um jeito que lhes é natural, mas que lhes traz um grande
sofrimento.

Professores, educadores e pais, espero que vocês leiam sobre isto que
aconteceu no dia de hoje. Uma sexta feira qualquer, de uma semana comum. Não
aconteceu somente hoje, lamento informar. Todos os dias, crianças sofrem por
serem diferentes do comum estipulado e adolescentes entram em crise por não
terem uma noção correta e lúcida do que realmente seja a diversidade sexual.

Temos que parar de moralismos e dogmas bíblicos de sujeira e de
pecaminosidade. Está na hora de nos basearmos em princípios de respeito, carinho
e amor.

 

Maite Schneider
http://www.casadamaite.com
casadamaite@gmail.com 

 

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