A "ditadura" do ativo e a "dita mole" do passivo
Todos sabem que ainda vivemos numa sociedade patriarcal, onde o "homem" -
sexo masculino - ainda quer reinar único e só. Sozinho não, junto com outros
"homens". Não é permitido ainda que fuja-se deste padrão. Será mesmo assim?
Sim, no começo, mulheres não votavam, até que queimando sutiãs e usando da
genitália como forma de empoderamento, perceberam que poderiam mais. Notaram que
poderiam mandar, ocupar espaços masculinos e serem donas de suas vontades e
desejos.
No mundo gay não foi diferente, dividimos tudo em ativo e passivo, e ficamos
iguais a "eles" - os heteros. O ativo ficou sendo o homenzinho e o passivo, a
mulherzinha. Como se os dois não fossem homens. Como se os dois não fossem
mulheres. Como se não fôssemos iguais a qualquer ser humano neste planeta, um
misto de masculino e de feminino.
Ativo, é tudo o que entra. Um vibrador, dinheiro no caixa e até um príncipe
encantado. Passivo é tudo que sai, ou no caso, que permite a entrada. Pode ser
um buraco na melancia, débito em conta corrente e até um príncipe encantado.
Sim, chegamos num ponto ótimo. O tal príncipe encantado pode ser ativo. Pode ser
também passivo e mais, ele pode ser reflexivo, e ser ativo e passivo ao mesmo
tempo. Incrível descoberta!
Confusão feita, eu vou complicar um pouco mais. Até quando ficaremos achando
que o ativo é o homem de antigamente, que manda e tem o poder? Até quando
ficaremos nos iludindo que o passivo é a mulherzinha que não vota e não tem
direitos, a não ser obedecer ordens e estar sempre sorrindo?
É certo que no caso dos homossexuais, não temos sutiãs para queimar , salvo
caso das maravilhosas travestis, que muitas vezes nem o usam, pois o bonito é
vê-lo firme e durinho mostrando uma estética perfeita. Mas mesmo sem sutiãs,
podemos usar da genitália como forma de empoderamento. Afinal, o que seriam dos
ativos, sem os passivos? A recíproca também é verdadeira.
Nesta vida, todos dependemos uns dos outros. Uns mais, outros menos.
Entretanto, ainda ficamos achando que temos que hierarquizar tudo. Que temos que
colocar o ativo no degrau mais alto do altar e o passivo, que muitas vezes já
está de quatro, tem que se alegrar em poder ter alguns momentos de prazer e ser
colocado numa escala inferior.
Continuamos reproduzindo estigmas do tempo das cavernas e que sabemos, por
experiência histórica, que não são válidos e nem fizeram bem à humanidade. Vamos
parar de achar que o cara com mais músculos é mais másculo? Que o afeminado e
delicado é sempre passivo e que o rapaz com cara de bad boy
, que não beija e ainda sai com meninas é sempre ativo?
Vamos começar uma nova história, onde passivos e ativos, sejam dois pólos de
uma mesma moeda. Uma moeda chamada felicidade, prazer, desejo e amor? Vamos
começar a tentar sermos nós mesmos e vivermos nossos desejos e experiências.
Chega de reproduzirmos padrões, tabús e preconceitos. Sabemos o quanto eles são
maléficos e cruéis.
Nesta vida, só conta o que fazemos, e o prazer que sentimos nos momentos que
nos foram ofertados. Seja sendo passivo, ativo ou reflexivo, pense maior, pense
grande e pense em VOCÊ. Todo momento é um novo momento e estamos aqui para
fazermos deste momento algo produtivo e que nos traga boas recordações. Ninguém
é mais, ninguém é menos, devido ao que faz na hora do sexo e do amor. Somos
piores e melhores, pelo caráter que temos e pelas ações construtivas que
realizamos. Esta é a verdadeira valoração da vida: o bem ao próximo.
E se depois disto tudo, você ainda fica achando que ser ativo é tudo de bom e
ser passivo é lixo, peço que pense em quantas vezes seu chefe te rebaixou,
quantas humilhações já passou por ser gay, ou gostar de um, e quantas vezes
conseguiu se olhar no espelho e ver alguém feliz.
Aposto que foram muitas as situações em que gente no poder te colocou para
baixo e poucas as vezes que conseguiu sentir-se verdadeiramente feliz e pleno.
Muito disto deve ter a ver com este teu padrão de comportamento que precisa
mudar. Comece por você e pela maneira como lidou com sua sexualidade e
convicções até os dias de hoje.
Para terminar, não seja convicto de nada. Aliás seja convicto somente de
querer ser feliz. Sendo ativo, sendo passivo, sendo reflexivo, não importa. O
importante é sendo VOCÊ, sem cobranças e sem desméritos.
Maite Schneider
http://www.casadamaite.com
casadamaite@gmail.com






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