Tem certeza de que você não é um assassino?
Morena, linda, jovem, alta, inteligente, com quadro na mídia televisiva e até
um pretenso futuro na rede de TV. Além de tudo isto, Camilla de Castro era uma
travesti. Era, Camilla morreu, não é mais. Ela faleceu ontem. Segundo a notícia,
dada pela Internet e amplamente comentada no Programa Luciana Gimenez, na Rede
TV, ela jogou-se da janela do seu prédio, no centro de São Paulo, do alto do
sétimo andar. Jogou-se nua, sem roupa nenhuma, às 5:30 da manhã.
Segundo amigos, amigas, vizinhos e familiares, Camilla vinha tendo crises
psiquiátricas, psicológicas e seu humor variava e era inconstante. Algumas
pessoas disseram que possivelmente Camilla fazia o uso de tóxicos e estava com o
vírus HIV há mais de 7 anos. Ela estava passando momentos de depresão, tentando
inclusive semanas antes cortar os pulsos. Na tentativa de cortar os pulsos,
comentou com sua cabelereira e amiga Dica, que não saiu sangue e julgava ser
Jesus. Falou para esta mesma amiga que tinha medo da janela do quarto dela e que
iria se jogar da mesma.
Jogou-se mesmo!! Matou-se!! Acabou com sua vida. Morena, linda, jovem, alta,
inteligente, com quadro na mídia televisiva e até um pretenso futuro na rede de
TV.
Agora pensemos outros fatos, venha comigo....
Será que somos tão inocentes em todos os casos de mortes que nos cercam???
Será que realmente é tão distante de nós o que aconteceu?? Será que não temos
culpa e somos um pouco agentes em tragédias que acontecem como esta???
Sei que é difícil pensar assim. Sinto isto dentro de mim também. Mas quantas
vezes somos cruéis em nossos julgamentos de quem passa em nossa frente? Quantas
vezes fazemos chacotas e tiramos sarro de alguém que é diferente do que
acreditamos ser correto?? Quantas vezes apedrejamos com risinhos pessoas que são
colocadas à margem de nossa sociedade pelas diferenças que possuem??
E no fundo? Quem não possui diferença alguma? Quem é igual ao modelo que foi
construído como correto? Que modelo é este? Onde foi construído?
São tantas perguntas que tenho dentro de mim neste momento e que não querem
calar. Confesso que tenho respostas para várias destas perguntas, pois já passei
por muitas situações em que me senti acuada e até com medo de encarar o dia
seguinte. Mas tive do meu lado o amor de uma família que sempre foi mais forte
que tudo. Sempre tive amizades que foram sólidas e me mostraram o verdadeiro
amor na essência das ações e no carinho que tinham para comigo. E se eu não
tivesse tudo isto ao meu favor? E se eu fosse sozinha, mesmo no meio de uma
multidão? E se eu fosse linda e meu espelho dissesse o contrário, devido à
estima baixa que era minha companheira freqüente?
E se Camilla estivesse viva, o que ela falaria para a gente? Falaria ou
choraria?
Quem chega onde Camilla chegou, chega no seu limite. Mas na verdade, este
limite foi colocado por nós. Por uma sociedade que insiste em colocar rótulos,
como se fôssemos produtos de supermercado. Por uma sociedade que nos dá uma
identidade civil quando nascemos, mas que não respeita nossa identidade social e
de vida. Nos trata como coisas e esquece de nossa individualidade.
Camilla morreu. Volta, para quem acredita em vida após morte e no lado
espiritual da vida. Mas que esta morte sirva de reflexão, para que o lado
assassino que temos dentro da gente, deixe de existir. Somos assassinos em
potencial - eu, você e nossa sociedade hipócrita e farsante.
Matamos diariamente várias Camillas e outras tantas que morrem muitas vezes
como indigentes em valetas, com espingardinhas de chumbo de filhinhos de papai e
até em seus quartos de dormir, sufocadas por suas hemorragias internas e feridas
causadas por nós, e que rasgam a alma, o coração e sufocam a vontade de
viver.
Viver e não ter a vergonha de ser feliz. No caso de Camilla, sobreviver,
tendo a vergonha de não conseguir ser o que quis.
Chega uma hora que a dor é tão grande que nossa força é pouca para suportar o
corte profundo.
Camilla estava triste, deprimida e não estava feliz, isto é fato comentado
por todos que a conheciam. Ao mesmo tempo, teve um momento que foi a gota d'agua
que faltava para que a bela Camilla não mais suportasse estar viva. Esta gota
d'agua pode ter sido VOCÊ. Pode ter sido uma gracinha sofrida, uma discriminação
passada e até um carinho que ela não teve num momento que precisava.
Sei que pode parecer pouco, para quem vive equilibrado e consegue viver nesta
sociedade que sufoca as diferenças e a diversidade, e que é cruel com quem OUSA
ser do jeito que é em sua essência. Mas para quem vive e sente esta diferença,
isto é tão grande em alguns momentos, que a piada feita com nossa cara torna-se
punhal; que a chacota que você faz da travesti que passa ao seu lado na rua,
enquanto está com seus amigos na mesa de um bar, torna-se uma guilhotina; e a
discriminação que passamos constantemente nas ruas que andamos, no supermercado
onde compramos nosso pão e na fila que pegamos para andar no ônibus que nos leva
até nossa casa, torna-se a arma que atira ou até mesmo a mão "invisível" que
empurra-nos da janela. Camilla morreu, que arma "invisível" a matou e até quando
permitiremos que isto continue acontecendo? Deixe de ser invisível e insensível
com seu próximo. Desarme-se e não mate mais!!!!
Maite Schneider
http://www.casadamaite.com
casadamaite@gmail.com






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