Pensamentos do livro "O ator invisível" de Yoshi Oida

O ator invisível

Yoshi Oida

Tradução Marcelo Gomes

São Paulo – Via Lettera - 2007

 

Novos meios de observar-se a si mesmo e ao trabalho que desenvolvemos

Interpretar, para mim, não é algo que está ligado a me exibir ou exibir minha técnica. Em vez disto, é revelar, por meio da atuação, “algo a mais”, alguma coisa que o público não encontra na vida cotidiana. O ator não demonstra isso. Não é visivelmente físico, mas, através do comprometimento da imaginação do espectador, “algo mais” irá surgir na sua mente. Para que isso ocorra, o público não deve ter a mínima percepção do que o ator está fazendo. Os espectadores têm de esquecer o ator. O ator deve desaparecer. (pag 17)

O ator capaz de se tornar invisível.

Nosso trabalho, como atores, não é exibir virtuosismo técnico mas, ao contrário, fazer com que o palco ganhe vida. (pag 18)

Existem dois lados: o visível e o invisível. Quando lidamos com o material, só podemos observar isso como sendo material. Por outro lado, podemos tentar trabalhar o material como se houvesse uma outra dimensão ou significado, algo que está antes ou depois da forma material. (27)

Os atores em cena são marionetes sustentadas e manipuladas pelos “fios” da sua mente. Se o público vê os fios, a atuação não se torna interessante. Entretanto temos de manter o poder de concentração em todos os momentos, durante as ações e pausas, e isto nunca poderá ser visível. O público nunca deve ver nossa concentração. (39)

Qualquer exercício físico que fazemos deveria também ser um exercício para a imaginação, em vez de ser algo exclusivo para o corpo.(40)

É praticamente impossível ser natural no palco o tempo todo. Entretanto, é essencial parecer natural (do ponto de vista do público) a cada momento. Trabalhar num ritmo real, que se encaixe naquilo que se está fazendo, de alguma maneira facilita o surgimento espontâneo de sentimentos autênticos. Desse modo a ação se torna mais verdadeira tanto para o público quanto para os atores. (57)

É a atitude de repetir que nos faz mudar. (68)

Quando fazemos exercícios, devemos trabalhar mantendo nossa concentração fluida e aberta, em vez de tesa e estreita. O objetivo de todo este treinamento deve ser o de encorajar a liberdade do corpo e da mente, e tudo o que se opuser a isso deve ser evitado. (70)

Uma boa ação física é aquela que provoca alguma mudança ou nos leva a uma maior compreensão. (72)

Quando construímos um ser humano no palco, deveríamos nos lembrar de que ele está ligado a todos os fenômenos da natureza. Se esquecermos isso, uma dimensão mais ampla do que é o ser humano estará perdida. (74)

Um ator kabuqui disse uma vez: “Se você achar que alguém é um ator melhor do que você, ele é muito, muito superior a você. Se achar que vocês dois têm mais ou menos o mesmo nível, ele é nitidamente melhor do que você. Se você sente que ele é inferior, aí então ambos têm, na verdade, o mesmo nível”. (79)

Nos seres humanos existe uma superfície visível e uma grande porção escondida por dentro. Aquilo que vemos é sustentado por aquilo que não vemos. Por essa razão, não devemos cometer  o erro de treinar somente o que é visível na superfície. (83)

Quando estamos atuando, o objetivo não é mostrar o personagem que interpretamos. Para além do personagem, existe um ser humano mais fundamental, e é esse ser humano fundamental que faz com que o palco seja vivo. Apenas construir o personagem não é suficiente. (84)

Os atores tentam parecer “naturais” no palco. Isso é verdade para todos os tipos de teatro. Mesmo que o ator esteja trabalhando num produção estilizada, seu objetivo é estar naturalmente no palco. Por natural quero dizer humano: algo real é gerado pelo ator e sentido pelo público. (84)

A mente, o corpo e a emoção estão inextrincavelmente ligados uns aos outros. É muito difícil mudar nosso estado emocional só pela força de vontade. Mas se mudarmos aquilo que o corpo está fazendo, isso começa a afetar nossas emoções, facilitando a execução de uma atuação na qual se pode acreditar. (85)

Se cuidarmos demais da parte exterior da interpretação – os gestos, o figurino, a maquiagem, a expressão -, a dimensão interior ficará frouxa. É como se tivéssemos feito uma bela embalagem, mas sem nada dentro. Quando se abre, está vazia. O público não será mobilizado, uma vez que a embalagem não contém nada que interesse. Se, contudo, nos concentrarmos apenas na parte interna, teremos outro problema. Uma vez que não exista uma estrutura ou técnica (a embalagem) que contenha a vida interior, não se pode ver nada. Torna-se algo tedioso e desorganizado. É preciso fazer uma embalagem interessante e nos assegurarmos de que existe ali dentro algo igualmente interessante. (93)

Trabalhar com o corpo não é algo que os atores fazem só para a saúde ou para melhorar o desempenho. Se criarmos o hábito de explorar regularmente o corpo, de modo que ele se torne livre e desperto, nossos processos mentais se tornarão igualmente flexíveis. Além do mais, nossa vida emocional se tornará mais rica. (94)

CONSTRUIMOS OS DETALHES.. E QUEM MONTA O PERSONAGEM É A PLATEIA.

Quando estamos preparando um papel, é fácil caracterizar a pessoa que estamos interpretando e dizer: “Ele é cínico” ou “Ela é otimista”. Mas como podemos interpretar uma pessoa desse jeito? Não podemos interpretar uma descrição. O que podemos fazer é descobrir uma série de pequenos detalhes. Nesse instante nossa cabeça se levanta. Nesse momento nossa voz se torna mais possante. E, conforme esses detalhes se acumulam, o público terá a impressão do indivíduo. A platéia finalmente decide se o personagem é cínico ou otimista. É preciso começar com o desenvolvimento dos pequenos detalhes (95)

EXPLORACAO ENTRE ATORES – RELACAO E REACAO

Na vida cotidiana, estamos constantemente trocando palavras e ações com outras pessoas. Essa é a realidade humana, e precisamos incorporá-la em nossa atuação. É através deste intercâmbio vivo de som e movimento que a história e as emoções podem se tornam visíveis. (103)

Se quisermos que os elementos de uma platéia desfrutem não só em seu nível humano comum, mas também no intelectual, os atores devem encontrar meios de desfrutar do contato e da troca com seus colegas de palco. Ambos os níveis da interpretação precisam ser incorporados: precisão psicológica e desfrute dos atores. E isso tem de ser feito através do texto ou da estrutura da peça. Naturalmente, não se pode fazer qualquer coisa no palco. Precisamos ser muito claros sobre exatamente que tipo de história estamos contando para o público e respeitar a fábula e o universo da peça. Não podemos perder de vista a natureza essencial de nosso personagem ou nos esquecer da realidade de seu contexto. Apesar disso tudo, ainda podemos desfrutar da liberdade de troca com os outros atores. A vida real está cheia de acontecimentos inesperados e constantemente nos leva a direções incomuns. Nossa interpretação deve ter o mesmo frescor. (105)

De alguma forma, para ser um grande ator, é preciso desenvolver um equilíbrio entre nós mesmos e o mundo externo. Precisamos nos concentrar totalmente em nós mesmos e naquilo que estamos fazendo, mas, ao mesmo tempo, não devemos nos alienar do mundo que nos cerca. Precisamos desenvolver uma prontidão que vá além de nós mesmos. (109)

Quando estamos preparando um papel, em vez de nos preocuparmos em como falar o texto, ou para onde ir, é melhor imergirmos no universo da peça e do personagem. Tomemos o máximo de informação possível: não só ler livros, mas também conversar com as pessoas, olhar fotografias ou quadros, visitar o cenário (ou a paisagem) da peça, e assim por diante. Se trabalharmos isoladamente com o texto, isso não significa nada. As palavras do texto são apenas uma pequena parte do personagem que estamos fazendo ou da história que está sendo contada. O texto é como a ponta de um iceberg: vemos apenas a ponta, enquanto embaixo da superfície existe uma massa enorme que passa despercebida.  Precisamos descobrir todo o resto do material que não está disponível no texto. (136)

Na medida em que cada produção pede seu próprio método de atuação, fica difícil ensinar um método de interpretação como algo genérico. Além do mais, como artistas, temos de estar dispostos a destruir métodos anteriores de interpretação para criar o que é necessário que seja feito aqui e agora. Na verdade, quando estamos no palco, devemos esquecer toda e qualquer teoria, todas as filosofias, todas as técnicas interessantes. Devemos entrar e fazer. (152)

TRATA-SE DE PRONTIDÃO E NÃO DE RIGIDEZ

Divirta-se livremente, estude o caminho, e assim verá o vento. Esforço, treinamento, estudo e trabalho são as coisas nas quais devemos nos concentrar. Depois de um longo período de servidão, surge um tipo de liberdade. Não pensamos mais naquilo que estamos fazendo. O objetivo fundamental é praticar a liberdade. (156)

Havia um famoso ator de kabuqui, que morreu há cerca  de 50 anos, que dizia: “posso ensinar-lhe o padrão gestual que indica olhar para a lua. Posso ensinar-lhe como fazer o movimento da ponta do dedo que mostra a lua no céu. Mas, da ponta do seu dedo até a lua, a responsabilidade é inteira sua”. (158)

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