‘Quem sou, afinal, senão eu mesma?’

Quem sou eu? Sou homem, sou hétero e gay. Sou mulher, sou hétero e lésbica. Sou bissexual. Quem sou, afinal, senão eu mesma?

Ser travesti é ser homem e é ser mulher, tanto quanto é não ser uma coisa nem outra. Engano a um homem por não ser uma mulher, a uma mulher por não ser um homem ou na verdade enganava a todos enquanto negava quem realmente sou ao desempenhar o papel do modelo perfeito que era de enquadramento social?

Já escutei de um gay que eu não precisava virar uma mulher para conseguir homens, e já escutei de uma lésbica que sou homem demais para ela gostar de mim, como se minha existência pudesse depender do desejo do outro, da forma como ele me vê ou gostaria que eu fosse. Pai, mãe ou irmão: afinal de contas, quem é você? Você que me aponta é sincero com o mundo? O é consigo mesmo? O que esconde sob esse manto?

Amor

Ficar só ou reencontrar o amor é um acontecimento de meu futuro, tão fortuito e incerto quanto para qualquer pessoa, e o que decidi ao me assumir não foi tornar minha vida amorosa mais difícil, porém torná-la totalmente verdadeira, ainda que inexistente. Fingimos identidades, fidelidades, negamos nossos desejos, mascaramo-nos constantemente em busca do enquadramento a modelos arcaicos de conduta que sequer compreendemos ou questionamos, desesperando-nos quando as coisas dão “errado”. Como se houvesse uma culpa a ser imputada por tudo que acontece, seja o morro que desaba, o meteoro que cai ou o desejo que se tem.

Pode a água abandonar sua fluidez ou evitar descer pelos sulcos da terra? Somos aquilo que somos, nada mais que isso, e todo o resto é mera valoração humana, tentativas desesperadas e provavelmente vãs de racionalizar a existência e buscar algum controle sobre nosso destino terreno ou espiritual.

Como uma catarata que surge no caminho e nos arrebata, a vida acontece simplesmente com ou sem nossa resignação, tantas vezes nos deixando perplexos diante de nossa própria natureza, da gravidade inexorável que nos puxa, da obrigação de cair. “Ser ou não ser” nunca foi a questão e, sim, a aceitação de nossa própria essência que nada mais pode fazer do que seguir seu curso sem represas, que apenas retardam nosso caminho, mas como um regato trêmulo e singelo em seu curso de vida fortuita.

*Márcia Rocha é advogada, militante e travesti. Livre como poucas, vive sua vida o mais intensamente possível, criando suas próprias regras da mesma forma como criou seu corpo escultural. Uma mulher especial com algo a mais, que vive para ser e fazer feliz.

http://www.paupraqualquerobra.com.br/2013/04/19/quem-sou-eu-afinal/

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