Acho sublime aquela que vejo, cheiro, toco ou desejo

Acho o feminino  sublime. Não apenas a feminilidade que levo dentro de minha alma, mas toda aquela que vejo, cheiro, toco ou desejo. Personalidade é algo que não construímos intencionalmente, que se forma por si sem qualquer controle de quem quer que seja.

Orientação sexual e identidade de gênero são características individuais que fazem parte de nossa personalidade, como tantas outras características formadas por uma mescla de influências genéticas e experienciais de cada um, tão variáveis e únicas como as digitais humanas.

Por que desejo uma mulher que passa? Por que tocar a sua boca, seus cabelos ou sua pele parecem ser essenciais à minha existência? Que impulsos irresistíveis são esses e, mais incompreensível ainda, por que quero e preciso ser exatamente como ela, mesmo sabendo que a satisfação desse desejo tornará o outro quase impossível de ser realizado?

Como um negro à época da escravatura dificilmente poderia fugir a seu destino, vejo-me atada aos grilhões todas as noites, vivendo de uma esperança tola de liberdade que talvez alguma luta possa um dia trazer.

Ex-mulher

No último fim de semana, minha ex-mulher, o grande amor da minha vida,  se casou com um homem “normal”. Ela queria um marido “normal”, uma família “normal”, uma vida “normal” e agora conseguiu, deixando em meu peito um vazio imenso que só consigo suportar ocupando minha vida, meu tempo e minha mente de forma absoluta.

Ciente de que não posso parar para pensar, apenas sigo no caminho que a vida me reservou, me obrigando a levantar da cama a cada dia e enfrentar os risos, os olhares curiosos, e por vezes espantados dos transeuntes, com a única companhia do meu espelho, da sensação dos saltos altos nos pés e da falta dela a meu lado. Tenho que seguir vivendo, pois a alternativa é de uma covardia que não aceito vestir, arcando com todo o peso da única escolha que fiz, de ser quem realmente sou e parar de fingir.

Como um peixe fora d’água, sinto que me debato desesperadamente nessa luta por uma vida verdadeiramente minha. Se eu conseguirei voltar a nadar um dia ou se me afogarei nesse ar sufocante que ora me envolve, só o tempo poderá dizer.

*Márcia Rocha é advogada, militante e travesti. Livre como poucas, vive sua vida o mais intensamente possível, criando suas próprias regras da mesma forma como criou seu corpo escultural. Uma mulher especial com algo a mais, que vive para ser e fazer feliz.

http://www.paupraqualquerobra.com.br/2013/05/03/acho-sublime-aquela-que-vejo-cheiro-toco/

 

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