Por que a indústria da moda aposta na fusão de gêneros?

Famosa por seus machões, a Itália seria o lugar mais improvável para servir de palco para tamanha quebra de padrões. Mas em um recente desfile da Gucci, em Milão, charmosos rapazes de cabelos compridos tomaram a passarela vestidos com peças de chiffon e renda, blusas com laços enormes na gola e calças boca-de-sino com cintura alta.

Foi uma fusão de gêneros jamais vista nas coleções da adorada grife italiana - empreitada do novo diretor criativo da marca, Alessandro Michele. E essa não foi a única surpresa: a mulher Gucci apareceu na passarela com um look masculino e um tanto geek.

A Gucci não está sozinha. As grifes britânicas JW Anderson e Meadham Kirchhoff também demonstraram um interesse pela moda unissex, enquanto Saint Laurent, Prada e Givenchy são apenas alguns dos nomes da alta-costura cujas coleções masculinas recentemente incluíram saias, botas de salto alto e uma prevalência do rosa.

E as fronteiras estão sendo derrubadas de outras maneiras, como, por exemplo, com a presença cada vez maior de modelos transgêneros nas passarelas e nos editoriais de moda.

 

Sinais de mudança

Se no passado batizamos de "look boyfriend" os jeans masculinizados e os blazers e camisas de tamanho grande usados por garotas, como se tivessem sido surrupiados do armário do namorado, agora chegou o momento do "look girlfriend" – pelo menos nos círculos do mundo da moda.

Enquanto isso, a moda feminina está notadamente masculinizada, com as lançadoras de tendência sentadas nas primeiras filas dos desfiles usando sapatos rasteiros e peças de alfaiataria.

Há vários anos, a estilista britânica Phoebe Philo, da Céline, vem se especializando em uma moda sutil e masculinizada para as mulheres, e agora o resto da indústria a acompanha.

Anúncios recentes refletem esse clima, com a modelo Cara Delevingne posando para a DKNY de paletó e gravata no meio de um grupo de rapazes ou a atriz Julia Roberts posando para a Givenchy com um terno preto de corte impecável.

E se alguma prova a mais desta tendência ainda é necessária, basta olhar para a descoladíssima loja de departamentos Selfridges, em Londres, que acaba de abrir a seção Agender, dedicada à moda exclusivamente unissex de 15 grifes.

 

Desafiador de gêneros

Com o setor tão imerso nesta onda, parece que este também é o momento propício para encerrar com chave de ouro a turnê mundial de uma exposição dedicada a um dos pioneiros da androginia moderna: o estilista Jean Paul Gaultier.

A mostra chegou em março ao Grand Palais, em Paris, e faz uma retrospectiva do trabalho do francês que, por quase 40 anos, foi uma das maiores forças criativas do mundo da moda.

A fascinação de Gaultier pela transformação e pela transgressão fez suas roupas cruzarem – e apagarem – as fronteiras entre culturas, subculturas e gêneros. Suas saias masculinas, por exemplo, surtiram uma enorme polêmica quando surgiram, em 1985.

Ao lado de Ann Demeulemeester, Martin Margiela, Comme des Garçons e Helmut Lang, Gaultier fez da androginia uma das características que definiram a moda dos anos 80 e 90.

 

Trajes de ultraje

É claro que se vestir com roupas típicas do outro sexo não é nada novo. Oriole Cullen, curadora do Museu Victoria e Albert, em Londres, cita como exemplo o Chevalier d’Eon, diplomata e soldado francês do século 18 que viveu a maior parte de sua vida como mulher.

Já no início do século 20, a fotógrafa surrealista francesa Claude Cahun se definia como "sem gênero".

Mas quando e por que a androginia virou mainstream?

Segundo Cullen, os anos 20 foram particularmente decisivos. "O look feminino passou a ser bem neutro, com cabelos curtos e roupas íntimas desenhadas para achatar os seios e manter uma silhueta reta", lembra. "Era um visual mais afinado com uma época em que muitas mulheres estavam se juntando à força de trabalho e se tornando independentes."

Durante a Segunda Guerra Mundial, calças, botinas e tricôs masculinizados e funcionais se tornaram trajes populares entre as British Land Girls, como ficaram conhecidas as mulheres que substituíram os homens na agricultura.

Os anos 60 viram outro auge da moda andrógina, com a chegada da contracultura, do movimento feminista e de novas mudanças sociais. Quando os Rolling Stones se apresentaram no Hyde Park, em Londres, Mick Jagger usou um "vestido de homem" desenhado pelo estilista britânico Mr Fish.

Enquanto isso, o "Le Smoking", criado em 1966 por Yves Saint Laurent para mulheres, se tornou um ícone da elegância masculinizada.

Mas ainda assim se tratava de um look ousado. O sofisticado restaurante Le Côte Basque, em Manhattan, barrou a entrada da socialite nova-iorquina Nan Kempner porque ela usava o traje de Saint Laurent. O caso ficou famoso porque ela, então, tirou a calça e foi admitida vestindo apenas o paletó, re-estilizado como um vestido curto.

Já nos anos 70, a atriz Diane Keaton e a cantora Patti Smith ajudaram a popularizar o look andrógino entre as mulheres, enquanto Marc Bolan e David Bowie flertavam com um visual mais feminino.

 

Liberdade de expressão

Então por que estamos vivendo uma nova onda desse estilo fluido e sem gêneros definidos?

"Tem muito a ver com uma nova geração querendo derrubar fronteiras, mas também um reflexo de onde estamos hoje", explica Oriole Cullen. "Há um interesse renovado no feminismo e isso alimenta a moda. Há mais interesse também pela comunidade trans. E a sexualidade não é mais um assunto tão tabu quanto antes."

Pioneiros da moda masculina feminizada, os estilistas da Edward Meadham e Ben Kirchhoff refletem essa sensação de idealismo. "Queremos inspirar as pessoas a se expressarem", contam, em entrevista à BBC Culture. "Que elas falem o que pensam, se rebelem, criem seus próprios mundos alternativos e maneiras de manifestarem a si mesmos, seus interesses, suas opiniões e suas frustrações."

Falemos a verdade: o "look girlfriend" não é facilmente digerível pelo homem comum. Mas está essencialmente relacionado a uma questão de atitude – assim como foi para as gerações passadas.

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