Pessoas que chutam para o alto uma carreira já começada e às vezes estabelecida para tentar a sorte

Sem fazer roupa de vanguarda, e sim peças bem cortadas e usáveis, e sem participar de um único desfile, a estilista Giuliana Romano, de 30 anos, estourou de repente. Hoje, passado um ano do lançamento de sua primeira coleção, feito sem estardalhaço em seu ateliê, suas criações freqüentam os editoriais das revistas nacionais, são vendidas em lojas multimarcas de vários estados brasileiros e até de Nova York. Além disso, a estilista abriu loja própria no bairro do Itaim, em São Paulo. Seu sucesso rápido é de deixar muita gente se mordendo de inveja no disputado mercado da moda, tão repleto de egos inflados. Mais ainda se o invejoso conhecer a vida profissional pregressa da estilista. Giuliana conseguiu realizar o que a maioria apenas sonha: transformar uma paixão em carreira e mudar de profissão.

Formada em economia, ela trabalhou nove anos em bancos de investimentos. Era profissional bem paga, que ganhava entre R$ 6 mil e R$ 10 mil, mas diz que não sentia o menor prazer. "Estava completamente desmotivada e cansada de fazer sempre a mesma coisa." Era por isso que dedicava parte de seu tempo no escritório a fazer pesquisas de moda. Segundo conta, os colegas viam, o chefe via, e ela acabou demitida. "Por incrível que pareça, isso foi um alívio para mim." Foi a chance de dar partida na carreira dos seus sonhos. Em 15 dias, ela já estava trabalhando com uma consultora de moda. Daí a virar estilista foi questão de dedicação. Giuliana chegou a entrar em um curso de moda, mas tudo andou tão rápido que agora falta tempo para estudar.

50 % dos executivos têm um projeto novo, que pode ser
transformar um hobby em ocupação profissional

Um levantamento do Instituto H2R Pesquisas Avançadas, de São Paulo, feito em março de 2005, mostra que o desejo de jogar tudo para o alto e apostar em outra carreira povoa a fantasia de uma boa parcela das pessoas. Entre os 140 executivos entrevistados, metade revelou ter um projeto novo na manga - que tanto pode ser transformar um hobby em ocupação profissional como montar o próprio negócio ou virar consultor em sua área de atuação. A questão é: como e quando mudar de rumo?

Se, como no caso de Giuliana, acontecimentos imprevistos tratam de criar a ocasião perfeita, essa é a hora. "Se já existe uma inquietação em relação aos rumos da atual profissão, uma demissão pode ser o impulso que faltava para partir para outra", diz Helena Coelho, consultora da Career Center, empresa de gestão de carreira. "Ainda mais se vier acompanhada de uma verba de rescisão que sustente a empreitada." Ter uma reserva de dinheiro para os momentos difíceis (que certamente virão) é indispensável para implantar o plano B. Pode ser o valor recebido na demissão ou uma poupança já iniciada com a intenção de financiar a guinada. Mudar de profissão, afinal, implica aceitar ganhar menos por um tempo e quase sempre significa também voltar a estudar - ou fazendo um curso técnico, ou outra graduação, uma pós ou uma especialização.

Em 2004, depois de dez anos de carreira em agências de propaganda, período em que passou de estagiária a diretora de arte, a publicitária Luciana Reis decidiu largar seu emprego para virar advogada. O primeiro passo foi voltar para a faculdade, dessa vez de direito - curso que, segundo a Fuvest (a fundação responsável pelos exames de admissão à Universidade de São Paulo, além de outras escolas superiores), está entre os 15 mais procurados por gente que resolve fazer uma segunda graduação. Ainda de acordo com a Fuvest, 2,4% dos inscritos no vestibular de 2006 já tinham concluído um curso superior.

Quando tomou essa atitude, Luciana se dispôs a recomeçar de baixo. Hoje, aos 29 anos, ela está trabalhando novamente como estagiária, agora no setor jurídico de um grupo internacional de fornecimento de energia. Ganha um sexto de seu salário anterior. "Mas me programei para mudar e economizei", diz. "Ainda assim, tenho de passar privações", diz ela, contando que hoje compra menos, vai pouco a restaurantes e controla as finanças pessoais com rédea curta. Apesar de tudo, diz que está feliz, pois sonhava com uma profissão que lhe permitisse ter horários mais regrados e estabilidade. "Gostava do meu trabalho na publicidade, mas tinha virado escrava dele", diz. "Não adianta ganhar dinheiro quando não se tem tempo para gastá-lo."

 

A busca por qualidade de vida é a principal razão para pôr em prática um plano B de carreira, segundo o levantamento da H2R Pesquisas Avançadas. Foi exatamente isso que motivou a agora paisagista Gica Mesiara, de 32 anos, a montar uma estratégia de virada. Por 11 anos, ela trabalhou em bancos, chegando ao cargo de gerente de investimentos. Nos dois anos e meio finais, Gica se dividiu entre o mercado financeiro e a criação e implantação de jardins. "Lembro de fechar operação de ações com Nova York de um canteiro de obras", diz. A fase de dupla jornada foi tão estressante que seus cabelos começaram a cair. "No dia em que pedi demissão para me dedicar só ao paisagismo, entrei em um salão e mandei passar máquina 2."

Na nova carreira, os fios voltaram a crescer. Aos 28 anos, Gica finalmente abriu sua empresa de paisagismo. No começo, diz que precisou apertar o cinto, porque todo dinheiro que ganhava era reinvestido no negócio. Mas hoje garante que recuperou o padrão de vida que tinha antes. Pela capacidade empreendedora, chegou a receber um prêmio do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Mas nem todos têm a mesma sorte. Segundo o próprio Sebrae, 29% das empresas paulistas não sobrevivem ao primeiro ano de atividade. Gica afirma ter levado da antiga para a nova ocupação conhecimentos que a ajudam a tocar sua empresa, além de relacionamentos que facilitaram montar uma carteira de clientes.

Segundo Jaqueline Giordano, que gerencia um serviço de coaching(aconselhamento de carreiras) para alunos do Ibmec, instituição de ensino superior, em São Paulo, a experiência da atividade anterior deve ser aproveitada na nova. Ela diz que atualmente existem múltiplas possibilidades para quem está insatisfeito com a carreira e quer mudar - e às vezes nem é preciso encarar uma guinada radical. Um funcionário que se especializou em determinado assunto, por exemplo, pode mais tarde tornar-se consultor da empresa em que trabalhava e de outras. "Não é para pensar em mudar toda vez que aparecer uma pedra no caminho, porque no trabalho sempre haverá momentos de dissabor e de dúvidas que são importantes para o crescimento", diz. "Mas não dá para ser infeliz na profissão."

"Não deixo o tédio chegar", diz o francês Olivier Anquier, que hoje, aos 47 anos, é empresário, padeiro chique e apresentador de programas de gastronomia na TV e na internet. Para chegar aonde chegou, decidiu abandonar em 1989 - quando, segundo ele, ainda ganhava bem - uma carreira de modelo na França, para abrir um restaurante em Jericoacoara, no Ceará, seu primeiro negócio no Brasil. Dois anos depois, ele já inaugurava outro em Florianópolis, seguido de uma padaria em São Paulo. "Uma coisa que eu não tenho é medo de empreender", diz.

Os especialistas dizem que, para mudar, é preciso mesmo ter peito. "Largar tudo é um ato de coragem, mas também de auto-respeito", diz a consultora Helena. A hoje fotógrafa Beth Porto, de 37 anos, sabe bem disso. Há sete anos, ela abriu mão da estabilidade de seu emprego como fonoaudióloga no Hospital das Clínicas de São Paulo para começar de novo. "A paixão por meu trabalho já tinha acabado." Para aprender o novo ofício, Helena fez cursos e atuou como assistente de um profissional. Passou dez meses sem ganhar nada, vivendo de economias. Precisou até trocar o apartamento de três quartos que alugava por uma quitinete. "Passei o maior sufoco, baixou demais meu padrão de vida", conta. Aos poucos, a carreira de fotógrafa decolou. "Ainda moro na mesma quitinete. Só que antes era alugada e agora é minha." Mas sua maior recompensa é o clima de romance que ela diz viver hoje com seu trabalho.

10 PASSOS PARA MUDAR
1 Antes de mais nada, investigue se o problema é mesmo a carreira. Às vezes o que incomoda são outros fatores, como o local de trabalho ou os colegas.

2 Descubra seus desejos e seus talentos escondidos e veja como eles podem se encaixar no mercado. "Vale até lembrar das brincadeiras de que gostava na infância",
diz a psicóloga Rosângela Casseano, consultora do site "Sucesso e Carreira".

3 Pense em um trabalho que lhe dê motivação, não apenas boa remuneração.

4 Pese antes prós e contras. Mudar envolve riscos e esforço. Segundo Rosângela, uma idéia é deixar uma porta aberta na antiga profissão.

5 Pesquise a área em que pretende atuar antes de arregaçar as mangas. Converse com profissionais da carreira que quer seguir, faça buscas na internet, entre em grupos de discussão ou procure orientação vocacional. Tudo isso ajuda a evitar frustrações futuras.

6 Estude. Adquira os conhecimentos necessários para exercer a nova função.

7 Prepare-se. Faça as contas de quanto precisará enquanto a nova profissão não engata. Veja o que pode ser cortado e crie um jeito de ter o suficiente para viver. "Talvez seja preciso ficar um tempo dividida entre duas carreiras", afirma Rosângela.

8 Trace metas. Defina aonde quer ir e ficará mais fácil decidir que caminho tomar.
9 Esteja disposta a lutar. Não abandone os sonhos só porque é difícil realizá-los.

10 Dê um tempo para se adaptar à mudança.

ANTES DA FAMA
Algumas celebridades nacionais e internacionais já tiveram outras atividades profissionais no passado

  CAROLINA FERRAZ
O que já foi: professora de dança.
Quando mudou: fez um teste e foi chamada pelo diretor Jayme Monjardim para apresentar programas na TV Manchete. Foi ele que a lançou como atriz na novela "Pantanal", de 1990.

  CLÁUDIA JIMENEZ
O que já foi: professora de jardim-de-infância.
Quando mudou: já fazia teatro amador quando batalhou papel na peça "Ópera do Malandro", de 1978.Lá foi vista por um produtor da Globo, que a levou para o programa de Chico Anysio.

  EDSON CELULARI
O que já foi: corretor de imóveis e professor particular de matemática.
Quando mudou: Quando mudou: estudou arte dramática e, em 1979, estreou na TV Tupi, na novela "Salário Mínimo".

  WAGNER MOURA
O que já foi: jornalista.
Quando mudou: dividia-se entre o trabalho de assessor de imprensa e os palcos baianos quando o diretor João Falcão o convidou para integrar o elenco da peça "A Máquina", de 2000.

 

  ZEZÉ POLESSA
O que já foi: médica.
Quando mudou: fazia teatro amador. Em 1979, quando terminava um curso de medicina social e encenava "O Despertar da Primavera", diz ter notado que sua vocação era ser atriz.

  BRAD PITT
O que já foi: motorista, entregador de móveis e, fantasiado de frango, promotor de vendas de uma lanchonete.
Quando mudou: em 1987, fez pontas. A fama veio em 1991, com o filme "Thelma & Louise".

  PAULO AUTRAN
O que já foi: advogado.
Quando mudou: sua primeira peça foi "Esquina Perigosa", de 1947, no teatro amador. Dois anos mais tarde, fez seu primeiro trabalho profissional, "Um Deus Dormiu Lá em Casa".

  MICHELLE PFEIFFER
O que já foi: vendedora de roupas e caixa de supermercado.
Quando mudou: fez uma ponta na série de TV "Ilha da Fantasia", em 1978, e depois outras, até ganhar bom papel no filme "Grease 2", de 1982.

 

http://revistacriativa.globo.com/Criativa/0,19125,ETT1254037-5458-1,00.html

  

Opções de exibição de comentários

Escolha seu modo de exibição preferido e clique em "Salvar configurações" para ativar.

Troca de carreira

Olá, gostei muito da matéria sobre pessoas que trocam de profissão. Tenho 28 anos e larguei meu antigo trabalho como advogada em um escritório, para trabalhar com alguma coisa que me dê maior satisfação. Ainda não encontrei o meu caminho, mas não me arrependo. Estou em contato com várias áreas que gosto e vejo que há muitas opções, basta dedicar-se. Ouvir histórias de pessoas que fizeram a mesma coisa é realmente motivador.
Abr.,

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido publicamente.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Linhas e parágrafos quebram automaticamente.

Mais informações sobre opções de formatação

ANTISPAM
Usamos este sistema para evitar spam dentro do Casa da Maite.
1 + 0 =
Resolva a simples operação matemática de soma acima e coloque o resultado. Por exemplo 1+ 3, digite 4