Devo submeter meu filho a um exame antidoping?

 Muitos pais gostariam que quando seus filhos nascessem, viessem com manual de instrução, não só para educar, mas especialmente para a adolescência.

Na infância a relação entre pais e filhos é suave - intensa - doce e afetiva. Mas quando chega a adolescência, mudanças abruptas ocorrem até de um mês para o outro. Surgem rusgas e crises que se caracterizam por mudanças de humor. Esse tipo de descontrole gera o célebre "vá para o quarto", e o jovem ao adentrá-lo bate a porta com muita força.

Os pais, surpresos, não sabem se riem da cena, porque já passaram por isso, ou se entram no quarto e dão mais um castigo.

Claro que em geral os pais - junto com os filhos - vão encontrar um novo ponto de equilíbrio para continuar a educação, de tal forma que satisfaça a todos, pois a maioria dos jovens atravessa a adolescência e chega à idade adulta de uma forma satisfatória. Teremos uns mais adaptados e outros com pontos a concluir nos anos seguintes.

Mas haverão aqueles que se desgarrarão deste movimento e pegarão estradas paralelas, que podem levar à marginalidade e delinqüência com abuso de drogas e abandono progressivo dos estudos.

Neste caminho, muitas discussões, agressões, brigas e abandonos mútuos. Muitos perguntarão: 'Como um relacionamento tão intenso e amoroso chegou nesse ponto?' Muitas vezes filhos pensam em sair de casa e alguns pais pensam até mesmo em expulsá-los.

Enquanto o jovem mantém ativo o papel de estudante, os pais ainda conseguem manter certo diálogo. Mas quando a escola vai mal, o filho se tranca e surge um vazio muito angustiante e frustrante para os pais.

Se o filho começa a aparecer em casa com cheiros estranhos, surgirá uma tensão que evolui para a investigação. Os pais começam a revistar o quarto do filho, seguem-no, verificam com quem está andando, e pronto, temos o surgimento de um novo ambiente familiar com a desconfiança prévia.

Alguns pais diante da radical mudança propõem que o filho faça exame antidoping..

Situação terrível!!! essa quebra de desconfiança entre pais e filhos.

Se chegar neste ponto, a família deve procurar um psiquiatra ou então fazer uma psicoterapia individual ou de família. A questão não é submeter o filho a um exame, mas sim resgatar essa quebra de confiança.

Se ainda há confiança, sugiro que os pais se esforcem em re-incluir o filho na vida pessoal e social. Não será fácil, mas muito necessário. Muitas vezes o filho virá com seu grupo de amigos, o que poderá chocar os pais. Será necessário paciência e persistência.

É desejável que a família mantenha um bom diálogo, desde a entrada do jovem na adolescência. É preciso que haja diminuição da raiva por ambos os lados, embora não seja fácil.

Poder se lembrar de quem o filho já foi e procurar pensar no que está por trás disso tudo é fundamental.

Irany Ferreira
é psiquiatra especializado em adolescentes

 

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