Soneto da separação

Dizem que um dia tudo acaba. Mas porque não
podemos saber o que está errado para tentar consertar?

coluna4 Queria escrever algo diferente esta semana, mas vou continuar o que narrei na última crônica por causa de alguns desdobramentos que ocorreram desde o dia que escrevi. Se vocês se recordam (se não lembrarem basta dar uma olhada no link da coluna anterior) eu falava de uma menina que balançou e continua balançando meu coração. Dê como fui fisgado pelo jeitinho meigo dela, de como procuro estar próximo, conversar, manter uma relação que não seja exclusivamente de um cliente com uma prostituta.

Transo com ela e depois a pago pelo serviço prestado. OK, essa é a explicação fria que explica a maioria dos relacionamentos que homens, principalmente casados, mantém com outras mulheres. E aqui uso mulheres incluindo as travestis, porque é disso se trata. Mas,  no caso dela é diferente.

Há alguns dias havia ido pela primeira vez ao seu apartamento, onde agora ela também recebe seus clientes. Naturalmente me excitava estar no lugar onde ela vive, onde come, dorme, toma banho. E nada poderia ser mais excitante do que encontrá-la, como encontrei, embrulhada no cobertor em um dia frio, assistindo televisão. E, por baixo, vestindo apenas um shortinho de uma camisolinha e uma camiseta dessas que a gente usa para dormir.

Ela era a mesma pessoa linda que encontro produzida nas ruas, só que agora estava de cara lavada e a vontade em sua casa. Fomos para a cama que ainda estava desfeita e guardava aquele perfume de seu corpo. Cheguei de manhã e eu era o primeiro homem a deitar sobre aqueles lençóis brancos. Do meu lado da cama estava um grande urso de pelúcia e eu deitei minha cabeça nas pernas dele. Aquele clima caseiro, de invasão de intimidade, me deixou muito excitado. Só que, ao contrário das últimas vezes, eu estava um pouco tenso (alguns problemas profissionais estavam me atormentando nos últimos dias) e não consegui ter uma ereção rápida. Depois até contei para ela o que estava ocorrendo e ela demonstrou interesse e se mostrou solidária. Por mais que me esforçasse, não consegui penetrá-la. Teoricamente foi um programa péssimo, apesar de tê-la deixado bem excitada e com uma linda ereção. Mas só consegui gozar com a ajuda de suas mãos. Mesmo assim eu a acariciei muito, senti cada centímetro de seu corpo, a maciez de sua pele, acompanhei as curvas de seu bumbum, senti a quentura da parte interna de suas coxas.

Estranha sensação a que eu senti: estava frustrado por ter broxado, mas ao mesmo tempo feliz por poder tocá-la. Ela pode ter ficado frustrada também, porque sei que gosta de ser penetrada.

Poucos dias depois, estava próximo do Jockey e tentei encontrá-la. E ela estava lá. Fomos a um hotel próximo e, apesar de estará louco para transar com ela, senti dificuldades de ereção. Só que me parecia que recuperaria a potência logo, ao contrário da última vez. Bastava apenas um pouco de paciência da parte dela. Mas não foi o que ocorreu. Em menos de dez minutos ela virou para mim e perguntou: “Vamos embora?” Eu respondi: “Sério, você quer ir embora?” Ela confirmou e disse que estava cansada. Pouco antes ela havia reclamado que o dia estava fraco e não havia feito nenhum programa. Disse que por mim tudo bem. Ela me disse que naturalmente não precisaria pagar o programa.

Saímos e tentei saber o que estava acontecendo. Ela disse que não queria falar sobre o assunto. Ofereci para levá-la em casa e ela respondeu, contraditoriamente, que precisava voltar para a pista para fazer outros programas. Não disse, mas pensei: porque então não fez comigo? A partir daquele momento comecei a acreditar que o problema era eu, que talvez a forma de eu me relacionar com ela fosse responsável por isso. Perguntei se o problema era eu, ela disse que não, mas permaneceu muda. Insisti em levá-la para casa e ela concordou.

Passei a mão no cabelo dela, num gesto de carinho, e ela reagiu: “Detesto que tenham pena de mim!” Respondi que não era nada isso, que era apenas uma manifestação de carinho, mas ela nada respondeu e se calou. Pegamos um grande congestionamento e durante todo o trajeto ficamos calados. O silêncio podia ser cortado com uma faca, tão espesso estava.

A deixei em casa e fui embora, com mil minhocas se mexendo em minha cabeça. Até hoje não sei o que aconteceu. Não sei se ela estava com um problema que aflorou naquela hora, se começou a achar que a relação comigo estava fugindo demais do padrão serviço-cliente, se sou velho demais para ela, se sou esquisito. Não sei, confesso. Sinto que a perdi. Não sei se devo procurá-la novamente, se devo me afastar. Só sinto que mesmo que nos reencontremos e voltemos a nos relacionar não será a mesma coisa. Algo aconteceu naquele dia e mudou tudo. Hoje fico com as minhas lembranças e não sei se é melhor fechar esse álbum.

 

Para falar direto com Senhor Pinto - o email émailto:senhorpinto2000@yahoo.com.br

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