A primeira vez a gente não esquece

Não tenho do que me orgulhar do meu primeiro
encontro com uma tgata. Ao contrário, me envergonho

Outro dia recebi no meu grupo As Bonecas que Amamos um carinhoso e-mail de Paty Cortezzi comentando uma crônica publicada aqui há duas semanas, na qual ela me deu várias sugestões de temas que eu poderia abordar neste espaço. Eu não conheço a Paty pessoalmente, mas sei que é uma menina muito batalhadora, que está estudando medicina no Rio de Janeiro, distante e saudosa de sua família que vive no interior de São Paulo. Entre os assuntos que ela me sugeriu, tem um que vira e mexe me perguntam: como foi minha primeira vez com uma t-gata.

coluna5 Não preciso vasculhar tanto assim as gavetas empoeiradas de meu cérebro para lembrar com vergonha de minha primeira vez. Vergonha de mim, de como me portei mal com uma menina incrível que estava comigo e que eu desrespeitei. Eu não tinha mais do que 21, 22 anos (quase 30 anos atrás), quando sai com uma menina linda de morrer, que estava num ponto de prostituição sozinha. Eu ainda era meio desajeitado com as mulheres e sempre ficava tenso quando parava o carro (meu primeiro carro) para abordar uma garota. Depois de uma rápida conversa, ela entrou no carro e fomos para um hotel. Nos beijamos (coisa rara, porque as garotas de programa não gostam de beijar seus clientes) e começamos a tirar nossas roupas. Ela ainda estava de calcinha e sutiã e eu muito excitado, como convém a um rapaz de vinte e poucos anos. Ela ficou de costas para mim e comecei a roçar meu pau em sua bunda. Ela se desvencilhou da calcinha e conduziu meu pau para onde ela queria. Comecei a penetrá-la por trás mas não percebi que estava fazendo sexo anal. Tentei virá-la de frente para mudar a posição, mas não consegui. Ela se enrabixava de tal forma que eu não conseguia. Comecei a achar aquilo tudo muito estranho e passei a desconfiar. A puxei repentinamente, mas não consegui ver nada pois ela escondia delicadamente o púbis com as mãos, de uma forma até ingênua e recatada. Tive certeza de que ela não era mulher, mesmo sem ter comprovado com os olhos.

Me levantei aos berros e disse para ela se vestir que iríamos embora. Ela ficou amedrontada e parecia não entender nada. Me vesti rapidamente e ela também. Sai gritando pelos corredores do hotel e o porteiro, um senhor gordo demonstrava claramente que estava apiedado da menina, que saia de olhos baixos. Ele também não suspeitava que ela não fosse mulher e que, por esse motivo, eu estava tão transtornado.
Entramos no carro, mudos, e eu a deixei no mesmo local em que a peguei.

Se passaram mais de 20 anos até que eu tomasse coragem e saísse com uma t-gata. No caminho para meu trabalho, passava diariamente pela avenida Indianópolis, tradicional reduto das mais belas travestis da cidade. E eu sempre as olhava com o canto dos olhos, com algo dentro de mim me impelindo a buscar um prazer desconhecido (e perigoso, acreditava eu). Só conseguia rodar e rodar vezes seguidas apenas para olhar aqueles corpos deslumbrantes se oferecendo nas esquinas.

Foram meses de vontade reprimida, de desejo que lutava contra a parte mais racional de meu cérebro. Eu me sentia atraído por aquelas lindas mulheres mas também preocupado com o que estava se passando comigo. Afinal eu era gay por sentir tal atração? Depois de muito tempo, tomei coragem e permiti que uma travesti bem experiente entrasse no meu carro. E, muito desajeitadamente, a toquei. E gostei do que senti. Nós não transamos, apesar dela ter insistido muito. Só fui transar tempos depois quando conheci uma menina de Curitiba (olha que coincidência Maitê!!) que fazia pista na Indianópolis. Era uma bela garota que me excitava muito com sua saia curta e grossas coxas à mostra. Sai com ela pela primeira vez e gostei tanto que virei habituê. Ficamos amigos e conversávamos muito. Ela foi a primeira tgata que gozou em um programa comigo e isso me deixou muito satisfeito. Continuamos saindo durante uns dois anos e só paramos porque ela foi para a Espanha, onde se encontra até hoje. Saudades dessa curitibana de coração imenso. Ela cuidava dos filhos pequenos de uma amiga dela que foi fazer a vida na Europa. Era uma verdadeira mãezona.

Hoje, já se passaram vários anos da minha primeira experiência bem sucedida e tento não lembrar da experiência negativa do passado. Só lamento que tenha demorado tanto tempo para decidir me aventurar nesse mundo em que estou até hoje. E quanto àquela linda garota que eu maltratei, espero que ela tenha me perdoado e que tenha tido um belo futuro, como ela merecia.

Para falar direto com Senhor Pinto - o email é senhorpinto2000@yahoo.com.br

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