Brincando com os Deuses

Ale Saraiva assina a coluna Trans-E. 
Trans-e ("trans" de transexual, "e" de e-mail,
transe de "mudança de estado" e transe de ter relações sexuais - transar).

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São eles que decidem por nós.

 

A maior dificuldade que tenho enquanto transexual é ter de aceitar que minha vida está nas mãos de outras pessoas. Me dá calafrios intensos quando leio que para fazer a minha cirurgia, ou mesmo, ter meu sexo e minha identidade reconhecida civicamente, sou obrigada a estar nas mãos de um psicólogo e um juiz, que acabam fazendo o papel de representantes de Deus na Terra, e decidindo os rumos daquilo que posso sentir, a hora que posso ser eu mesma, ou mesmo se eu sou homem ou mulher, se eu posso ou não casar, ou mesmo se tenho condições ou não para ter filhos.

Não sou a única desse mundo. Qualquer um que tenha diferenças corre o risco de ter sua vida decidida por uma pessoa estranha, que não sabe o que eu sinto, o que eu penso, e muito menos pelo que passo. Não posso também negar que muitas pessoas precisam que alguém guie suas vidas, mas isto lhes tira a responsabilidade que têm sob si mesmas.

 

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E é com este argumento que se orgulham os deuses e enchem suas bocas para dizer: “é uma grande responsabilidade para nossas mãos”. Mas sob que critérios você avalia a minha vida e escolhe por mim? Como você pode dizer em plena certeza se estou preparada ou não para fazer a cirurgia, um tratamento hormonal, definir se sou mulher, homem ou mesmo saber o que pode melhorar minha vida?

Penso que, ao nos fazer pensar que somos doentes, adquirimos uma falsa impressão de conforto e uma ótima desculpa para dar aos preconceituosos: “não temos culpa, somos doentes”. Na verdade, não temos culpa, somos normais! E tentando curar uma doença que talvez não exista, conseguimos alguns direitos que não nos deveria ser negado sob nenhuma hipótese, simplesmente por sermos pessoas trans e termos necessidades específicas de saúde e cidadania.

E voltando aos deuses, cada uma faz seu “teatro” para se enquadrar nas normas redigidas no Código Internacional de Doenças. Normas que são para doentes e acabam gerando doenças outras tanto psíquicas como somatizadas. Ficamos num ponto tal que chegamos a fazer loucuras para provar que precisamos da cirurgia, que precisamos da troca do nome, da terapia hormonal, “virando” os homens e as mulheres que eles querem que sejamos, tudo para que os deuses se compadeçam da nossa dor e nos liberem o direito que sempre foi nosso de sermos nós mesmos e nós mesmas.

Mas os deuses só atendem quem eles entendem que precisam deles. Travestis não são dignas de apoio e ajuda, mesmo precisando tanto quanto nós transexuais. É, precisam, mas não se enquadram nos “moldes”  e assim são rejeitadas. Para os deuses da medicina, elas e eles não existem, são apenas homens e mulheres com um comportamento estranho e com senso estético exagerado. E o pior, transexuais que não estão ao ponto da automutilação, que tem consciência de si mesmas, que fazem sexo com seus parceiros ou parceiras, aplicaram silicones, fizeram ou fazem programas, são portadoras do HIV, que vivem em equilíbrio com seu órgão, mesmo que o desejo intimo de mudá-lo permaneça constante, acabam sendo rejeitadas por não estarem de acordo com os deuses. É muita responsabilidade para suas mãos, assim dizem.

E estão aí, os deuses da família, mães e pais, nos expulsando de casa, chamando-nos de aberração, desviados, pecadores. Os deuses das empresas, que não nos deixam trabalhar, por que nos vestimos em desacordo com as suas regras, que acreditam que nossa identidade interfere na capacidade de produzir e que só servimos para trabalhar em algumas pouquíssimas áreas. Enfrentamos ainda os deuses da política, nos negando direitos constitucionais, direitos básicos a qualquer cidadão nascido neste país. Deuses da policia que massacram meninas que trabalham nas ruas. Deuses das igrejas que pregam aos quatro ventos a condenação, alimentando a ignorância, a discriminação, o sentimento de culpa, e muitos suicídios. Deuses dos Hospitais Universitários, que decidem se somos mulheres ou homens segundo seus moldes sociais de padronização da sexualidade. Deuses da Justiça, que ao recorrermos para diminuir nosso constrangimento, nos fazem passar por mais e mais terrorismo e humilhação.

Não é fácil agradar os deuses.

Mas esta realidade tem de mudar, e pode mudar sim, a partir do momento que começarmos a nos conscientizar que também somos deuses e deusas, e podemos tomar para nós as responsabilidades que nós cabem. Exigir direitos que são nossos. Todas as pessoas trans, sejam travestis, sejam transexuais, masculinos ou femininos, tem direito a moradia, a educação, ao amparo da justiça e principalmente a saúde. Temos o direito de mudarmos nosso corpo, causa maior das nossas inconveniências, sem precisar que alguém decida por nós. O corpo é nosso, a vida também.

O dia que pudermos entender que temos esta autonomia, que precisamos de apoio sim, mas que a ultima palavra tem de partir de nós e que não podemos de jeito nenhum deixar que nos tomem esta liberdade, poderemos viver plenamente nossa cidadania, sem preconceitos, sem discriminações, por que deixaremos de ser homens doentes que querem trocar de sexo, e passaremos a ser mulheres normais, que buscam apenas aquilo que lhes é de direito: se olhar no espelho e reconhecer-se no reflexo.

Pensemos nisso!

E você? Já teve sua vida nas mãos de pessoas estranhas? Consegue entender a angústia de uma pessoa transexual? Vamos começar agora a pensar diferente, nos ver como pessoas normais e merecedoras dos nossos direitos?

 

Ale Saraiva
São Paulo, 15 de Fevereiro de 2006.

Dúvidas, críticas, comentários, depoimentos:
mande um e-mail:   alessandrasaraivapinheiro@gmail.com


Ale Saraiva tem 27 anos, é amazonense, mora em São Paulo, é Administradora de Empresas e trabalha como Designer Gráfico. Amante da Sexologia, Psicologia Transpessoal e da PNL, em 2000 iniciou um estudo sobre o comportamento homossexual e Continua se descobrindo como Transexual.
Para conhecer mais: http://www.ablogada2.theblog.com.br/   

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