Decida-se

Ale Saraiva assina a coluna Trans-E.
Trans-e ("trans" de transexual, "e" de e-mail, transe de "mudança de estado" e transe de ter relações sexuais - transar).

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Ninguém nunca disse que seria fácil. Na verdade ninguém nunca disse nada, mas mesmo assim, com todo o topete de uma menina ingênua da classe média querendo ser Barbie, eu me lancei no mundo trans e resolvi assumir minha identidade feminina pra sempre e de uma vez por todas.

Ninguém disse que ia ser fácil. Também tinha família, amigos, sócios, um escritório que dependia de clientes, vizinhos, morava numa cidade de quase 2 milhões de habitantes, onde era conhecida pela sociedade, pois estudei nos mesmos colégios tradicionais e freqüentava os mesmos barzinhos e restaurantes que a galera descolada.

É fato que não comecei do zero. Não era um homenzinho padrão sociedade heteronormativa como mamãe queria. Não precisei comer todas as menininhas, e nem me casar com aquela garota, cara de assexuada virgem que me deu um filho. Mas até que eu a amava. Como irmã, ou como lésbica. E apesar de ela não saber disso, eu precisava fantasiar para sobreviver.

Minha família não era Evangélica, nem meu pai era um homofóbico que vivia repetindo que gay bom é gay morto. Imagina se ele descobre que eu sou mulher. Melhor esperar ele morrer. E o tempo passou e você ficou careca, barrigudo e peludo. Tudo bem, você não podia arriscar, agora é tarde. Será que ainda tem chance? Melhor acreditar em reencarnação... Ai, ai... Não era bem assim que sonhei a vida pra mim. – Mas e aquele general do exército de algum país europeu se operou com 70 anos. Será mesmo tarde demais pra começar algo?

 

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Ninguém disse que ia ser fácil, mas mesmo assim eu decidi. Aonde isso vai dar? Não sei. Mas eu morria de medo de ser ridícula. Um travecão, daqueles bem feios que levavam porrada só por que saiam na rua. – isso existe? Que mundo cruel, né? E fazemos parte do mundo e somos tão cruéis quanto o mundo. E mesmo assim, eu coloquei um sutiã com bojo e fui pro show da Sandy. Minha mãe dizia: se você tem coragem, vá. E eu fui mesmo... 10 mil pessoas. Eita coragem! “Seja você, mesmo que seja estranho, seja você, mesmo que seja bizarro (...) Se mostre e eu descubro se eu gosto do seu verdadeiro jeito de ser” *.

Ninguém disse que ia ser fácil, e quando chegava em casa eu desmontava e ficava muito pra baixo, por que não queria que aquilo acabasse. Por mais ridícula que pudesse parecer a idéia, aquela era eu. E por mais insano que pudesse ser eu entrei no quarto onde estavam deitados meu pai e minha mãe e os chamei para uma conversa e disse que a partir daquele dia eu estava assumindo que era uma mulher transexual.

Ninguém dizia que ia ser fácil e tive uma crise gástrica por que não sabia o que fazer. Eu era uma mulher transexual, essa era a informação, mas o que faz uma mulher transexual? E a primeira pergunta que me fiz foi: por onde começo? E eu fui buscar terapia, pq era informação demais pra digerir sozinha. Sinceramente, as que conseguem sozinhas têm seu mérito, mas não tem coisa mais interessante que achar um bom terapeuta pra dividir essa carga. Se você não sabe pra onde ir, vá pro divã.

E sabe de uma coisa, ninguém disse que ia ser fácil, mas agora era bem tarde. Eu resolvi contar pros meus sócios que eu estava me assumindo como mulher. Incrivelmente, “virei” prostituta. Como eu ia fazer aquilo? Abandonar um projeto de quase 3 anos que mais me deu dor de cabeça que lucros, e essa era a verdade. Eu não pensava nos meus pais? Meu pai, um funcionário público conhecido na minha cidade, como ia ficar sua honra de ter “um filho” travesti. Não, eu fui bem egoísta, eu nem pensava nos meus sócios, eu pensava em mim, morta, de terno e gravata, num caixão. Morreu de que? Infelicidade! E morre disso? Mais do que você imagina.

Sei lá se meus peitos de espuma incomodavam minha empregada evangélica, mas eu almoçava com todo mundo na mesma mesa. Eu tive sorte, mas não sei se acredito na sorte. O que vocês chamam de sorte eu chamo de decisão. Meus pais podiam fazer da minha vida um inferno ou dar um refresco e eles optaram pela segunda opção. Isso foi uma escolha feliz, decidiram certo e com certeza por que evitou muita dor de cabeça pra todo mundo. Acredite, aceitar seu filho transexual funciona. (transexuais masculinos FTM existem!).

Atravessei a rua justo naquele dia em que meus vizinhos estavam todos de olho na vida alheia e meu vestido florido deu um sorriso pra eles. Juro que me senti super independente ao olhar aquelas criancinhas com olhares esbugalhados e aqueles velhinhos fingindo que não tinha nada de diferente, por que jamais contrariariam meu pai na frente dele. Mesmo assim, eu sabia que no virar das costas as tesouras afiadas fariam seu papel com muito prazer, como só os mais maledicentes conseguem fazer.

Quer saber, ninguém havia dito que seria fácil. E de repente uma porta se abriu. Consegui um trabalho do outro lado do Brasil. Como era competente, o telefone tocou: “preciso de um projeto você faz?”. Claro que faço, mas hoje sou Alessandra Saraiva. Tanto faz, tanto fez. E os clientes continuaram pedindo serviço. Sorte! Escolheram bem, o serviço era de qualidade e o preço baixo. Tornei-me competitiva e parece que fazia efeito, mesmo em termos práticos, sendo a Alessandra Saraiva, uma transexual, ela era com certeza alguém que fazia um bom trabalho. – e ainda faz!

O trabalho evoluiu e vim parar em São Paulo. A vida deu uma reviravolta e tudo foi acontecendo. A partir da minha decisão de me assumir, corri todos os riscos de perder família, amigos, clientes. Podia difamar meu nome – qual deles? – minha família, meus parentes, ser a humilhação da minha vida. Podia ficar sem chances de trabalho, ficar desempregada e ir parar nas calçadas, virar prostituta e em conseqüência me transformar em uma usuária de drogas e acabar me jogando do meu prédio. Semelhanças, mas não meras coincidências, pois é mais comum do que se pensa. Não só famosas se jogam de prédios.

Mas não foi isso que aconteceu. Hoje tenho dois trabalhos importantes, trabalho numa Ong renomada, estudo numa escola conceituada e sou respeitada como a mulher que sou. Tenho um grande amor, meus amigos são os mesmos e conquistei outros tantos. Minha família me ama, e estão todos me ajudando nessa. Minha identidade feminina está a cada dia mais fortalecida e hoje é uma realidade que não pode ser negada, muito menos ignorada. Alessandra Saraiva existe, pensa, produz, sente e vive. Não sou uma personagem que o Alessandro inventou. O Alessandro nem existiu na verdade, era apenas um recurso da Alessandra para sobreviver na tal sociedade. Mas quem disse que ela precisava sobreviver? Ela precisava era viver.

Sorte? Não acho que Deus me escolheu. Prefiro acreditar que fiz escolhas felizes, tomei decisões na melhor hora, encontrei as pessoas certas e agi. Procurei ser honesta com meus sentimentos e buscar o meu lugar, sem muito exigir, mas sem deixar que me pisassem. Fórmula não tem, mas quando a gente monta uma empresa, também não tem certeza que ela vai dar certo. O importante é que eu arrisquei e vou morrer feliz só por ter tentado.

E se sua vida não permite, tudo bem, não estou aqui fazendo propaganda. Cada pessoa vai escrever sua própria história, não vim aqui dizer que minha vida é melhor que a sua, ou mesmo garantir que assumindo sua transexualidade você vai ser feliz. Tem gente que morre depois disso. Mas tem gente que morre antes. E tem gente que morre com 17 anos correndo no carro que roubou do pai. Ninguém merece viver, se for pra viver mal. E eu demorei muito tempo pra entender o que era viver bem, pra poder não viver mal. Azar? Algumas escolhas insensatas. Mas tudo mudou depois que eu decidi ser melhor.

E sabe de uma coisa? Não vai ser fácil. Ninguém disse que ia ser.

 

E você, já se decidiu?
Feliz 2006!

 

* Trecho da música “Máscara” da Pitty.

Ale Saraiva
São Paulo, 1º de Janeiro de 2006.
Dúvidas, críticas, comentários, depoimentos:
mande um e-mail: colunatranse@yahoo.com.br

Ale Saraiva tem 27 anos, é amazonense, mora em São Paulo, é Administradora de Empresas e trabalha como Designer Gráfico. Amante da Sexologia, Psicologia Transpessoal e da PNL, em 2000 iniciou um estudo sobre o comportamento homossexual e Continua se descobrindo como Transexual.

Para conhecer mais: http://www.ablogada2.theblog.com.br/

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