Ale Saraiva conta sua vida em três capitulos - Mais uma transexual? - Parte 1

Ale Saraiva assina a coluna Trans-E. 
Trans-e ("trans" de transexual, "e" de e-mail, transe de "mudança de estado" e transe de ter relações sexuais - transar).

logotranse  

 

 Ale Saraiva conta sua vida em três capitulos - Mais uma transexual? - Parte 1

 

transe32_clip_image002

  Quase igual às outras ... (parte 01)

Nasci em Manaus, em 11 de agosto de 1978, e sou uma leonina típica. Minha infância foi agradável apesar de que não entendia nada. Eu sabia que era diferente de todos aqueles meninos, só não sabia por que eu não podia ser igual as minhas amiguinhas.

Meus pais sempre buscaram lidar da melhor maneira possível com a minha feminilidade que gritava estampada no meu corpo e nos meus gestos. Entrei para o Salesiano Colégio Dom Bosco de Manaus e já naquela época ia buscar as meninas para dividir as Barbies e óbvio, era cerceada pelas minhas professoras.

 

transe32_clip_image003

Eu e meus pais aos 6 anos.

Sempre me senti inferior a minha irmã que podia fazer o que ela quisesse e eu sempre tinha de impor limites para expressar minha feminilidade. Os bloqueios já vieram dessa época. Ainda assim, meus pais têm uma noção e um coração imenso, o que de bom senso, resolveram me presentear com bonecas e fazer acordos comigo no tocante as roupas que queria usar, sempre me orientando que havia um preconceito na sociedade e que se caso eu quisesse fazer algo contra ela, eu deveria estar preparada para receber a resposta.

No demais, eu me sentia muito feliz quando era confundida com menina, mas minha mãe fazia questão de eu desfazer a confusão. Tudo bem. Ainda assim, não deixei de brincar de bonecas e sempre tive com minhas primas e vizinhas uma liberdade enorme para juntar-se a elas e fazer parte do grupo. Acredito que isso me ajudou demais a fortalecer minha personalidade feminina, afinal de contas eu cresci entre mulheres e não entre homens.

 

transe32_clip_image004

Eu com 6 anos no Salesiano, festa junina.

A Adoletrânscia veio moendo meus sonhos e detonando com minha auto-estima. Meus sonhos de menina de ser uma Barbie: bonita, independente, realizada profissionalmente e afetivamente, foram parar no campo da imaginação e da utopia. Nisso me transformei numa garota cheia de espinhas, depressiva, melancólica, que pensava na morte e que não acreditava no Ser Humano.

Minhas primas se tornavam garotas lindas e eu era muito inteligente. Vali-me disso para continuar no grupo, mas sempre me sentia menor, fora de contexto e limitada. Os carinhas começavam a paquerar minhas primas e eu tinha de ficar quietinha se não quisesse ser taxada de "viado". Coloquei meus sonhos no baú, e me conformei em ser só uma garota estranha numa situação estranha. Talvez uma sacanagem de Deus. Bem que ele poderia me tirar mais cedo deste pesadelo que eu vivia - pensava na época.,

Sem ter muito pra onde ir eu mergulhei nos estudos. Achava de verdade que a única qualidade que tinha era a minha inteligência, já que beleza eu não ia ter nunca, pois era aquele "monstro" e tinha aquele "tentáculo" saindo no meio das minhas pernas me diferenciando das minhas primas, amigas e irmã.

Os anos iam passando e eu era a "travesti" do colégio, a "bichinha", e por aí vai. Não queria mais ir pra aula e me isolava de todos. Rezava para Deus todo dia de manhã para sair de casa e contava regressivamente as horas para acabar a aula e isolar-me no meu quarto ou no quintal junto com meus cachorros, coelhos, tartarugas e outros animais que, na minha cabeça, eram os únicos que me entendiam. O trajeto do portão da escola para o ponto de ônibus era uma humilhação diária, de camelôs, transeuntes e grupos de estudantes nos ônibus. Só Deus sabe o quanto sofri para segurar essa onda.

 

transe32_clip_image005

Eu aos 19 anos, androginia.

Em casa vestia-me com as roupas da minha mãe escondida e sonhava que eu era uma princesa. Vivia num mundo de fantasia e tudo que me acontecia no mundo real eu reprogramava para o feminino. E assim fui levando até ter coragem de comprar um pacote de batata fritas na escola e ir oferecer num grupo que se isolava nos fundos do colégio. Aceitaram então a "bichinha" e eu passei a fazer parte da turma de Nerds e Excluídos da escola que passavam o intervalo na oficina, afastados de todos.

Comecei a ter amigos e compartilhar experiências. Foi aí que as paixões começaram a despertar. Na primeira já levei o primeiro baque. O cara por quem eu me apaixonei namorava a menina mais bonita da escola e peguei os dois num puta beijão na frente da cantina. Comecei a perceber que não podia competir com meninas biológicas. Mesmo assim, com muita cautela, me apaixonei pelo menino mais estranho que havia no colégio na esperança que ele me desse bola. A paixão permaneceu platônica por 3 anos e num belo dia, minha melhor amiga me dá a noticia: O carinha por quem eu era apaixonada em segredo havia se declarado à ela. Aquilo foi uma punhalada no meu peito.

Ela não deu chance a ele e eu sabia que era preconceito da parte dela por ele ser um tanto "estranho". Calado, uma mistura de nerd com roqueiro, complexado e cheio de manias. A verdade nisso tudo, é que depois do fora ele chegou mais perto de mim. Eu não tinha coragem de me declarar pra ele acabei consolando-o dizendo que ele podia ter uma chance. E realmente ele acreditou em mim e fez uma mudança radical. O patinho feio virou um cisne e acabou sendo um dos caras mais cobiçados do Colégio. E no ano seguinte tentou de novo e conseguiu. Minha melhor amiga passou a namorar com ele e cheguei a segurar vela para não ter de revelar esta paixão.

Já estava com 19 anos e eram 6 de amor Platônico. Fazia faculdade de Administração e Arquitetura e me sentia um lixo total. Decidi esquecê-lo e me preparei para fazer um intercambio em Londres. Foi no exterior que assumi o fato de gostar de homens. Assumi publicamente e arrisquei ficar com alguns, sempre me colocando como gay. Não fui muito feliz e acabei me apaixonando pelo meu professor de inglês, supostamente hetero. Foram 3 meses na Inglaterra que além de me ensinar inglês, me fortificou para vida. De repente, a menina que vivia isolada pensando em morte tornou-se uma das mais populares da escola inglesa, conhecida ficou como Pocahontas, e acabou dormindo com um dos professores mais cobiçados de lá. - apesar de não saber muito bem o que fazer na cama por falta de experiências.

 

transe32_clip_image006

No teatro com 21.

Voltei pra Manaus com a consciência de que eu era Gay. Havia esquecido o meu amor platônico da adolescência e estava disposta a viver um romance sério e duradouro, mas para isso, acreditava que tinha de assumir para meus pais, ou melhor, no meu caso, confirmar aquilo que eles sempre souberam. Anunciei ao meu pai que gostava de homens, na véspera do meu aniversário de 20 anos, em lágrimas, e pedi que para mim houvesse os mesmos direitos que para minha irmã de trazer o namorado em casa e dormir com ele no meu quarto. Meu pai e minha mãe entenderam e respeitaram a minha posição e a partir desse dia eu me tornei uma nova pessoa muito mais fiel e honesta ao que eu sentia.

Desisti da faculdade de Arquitetura e continuei com a faculdade de Administração, por uma promessa que havia feito ao meu pai de me formar quando voltasse de Londres. Arrumei meu primeiro namorado e o levei em casa para apresentar aos meus pais. Tudo foi entendido como realmente deveria ser, e o problema não foi com minha família, mas com meu namorado. Eu já havia me assumido como gay, apesar de saber que eu era muito diferente, mas meu namorado não concebia essa idéia. Ficamos ainda 1 ano e 2 meses juntos quando, depois de muito sofrimento resolvi terminar de vez aquela relação sofrível.

Neste meio tempo, sofri um acidente de carro que mudou a minha forma de pensar a vida. Acordei sem saber o que acontecia no hospital e depois vim descobrir que um caminhão passara por cima do meu carro, reduzindo-o ao magazine de Cds que ficava no porta-malas.

 

Continua no próximo capitulo.

Ale Saraiva

São Paulo, 03 de Outubro de 2005

Dúvidas, críticas, comentários, depoimentos:

alessandrasaraivapinheiro@gmail.com

Ale Saraiva tem 26 anos, amazonense, mora em São Paulo, é Administradora de Empresas e trabalha como Designer Gráfico. Amante da Sexologia, Psicologia Transpessoal e da PNL, em 2000 iniciou um estudo sobre o comportamento homossexual e Continua se descobrindo como Transexual.

Para conhecer mais: http://www.ablogada2.theblog.com.br/

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido publicamente.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Linhas e parágrafos quebram automaticamente.

Mais informações sobre opções de formatação

ANTISPAM
Usamos este sistema para evitar spam dentro do Casa da Maite.
19 + 0 =
Resolva a simples operação matemática de soma acima e coloque o resultado. Por exemplo 1+ 3, digite 4