Ale Saraiva conta sua vida em três capitulos - Mais uma transexual? - Parte 2

Ale Saraiva assina a coluna Trans-E.
Trans-e ("trans" de transexual, "e" de e-mail, transe de "mudança de estado" e transe de ter relações sexuais - transar).

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Quase igual às outras ... (parte 02)

De repente me vi imobilizada numa cama de hospital, não podia fazer escova, a barba, e permanecia pelada, para quem quisesse, levantar o lençol e ver meu corpo e tudo aquilo que eu detestava em mim. Perdi as vaidades e quase perdi os movimentos do braço direito. Não tinha garantias de voltar a mexer a mão, pois no acidente meu osso partiu atingindo o nervo radial responsável por estes movimentos. Vi-me limitada, incapacitada e assim permaneci por 7 meses, com o braço direito amarrado ao corpo e buscando, a todo custo, não me deixar vencer. Durante este período fui traída diversas vezes, minha família faliu, minha mãe me demitiu e a própria direção da faculdade me incentivou a desistir do curso. Não me entreguei e fui até o fim. Depois de tirar o gesso, adquiri uma vontade gigantesca de viver. Pensei em todos os dias que quis morrer e agora, depois de ter visto a morte de perto, e ter escapado dela praticamente ilesa, só queria saber de viver mais e mais, e superar meus limites.

 

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Alguns meses depois das cirurgias no braço.

 

Com o relacionamento frustrado acabado e a vontade de viver a mil, passei a me ocupar totalmente e vivenciar ao máximo tudo o que eu podia. Não conseguia me encaixar em nada na Homossexualidade e era completamente diferente dos meus amigos gays. Resolvi iniciar um estudo sobre o tema, e me tornar mais "masculina". Pulei de Bungee jump, entrei no teatro, me tornei vice-líder de turma, entrei na comissão de formatura, fui fazer biscuit e ainda dava aulas para adolescentes numa Fundação de caráter religioso.

Formei-me como administradora, voltei a trabalhar com minha família e também no teatro, seja como atriz, produtora ou escritora e não demorou para eu me ver cansada de tudo. Resolvi então vir para São Paulo estudar design na Panamericana. Na época havia me permitido me apaixonar por um carinha de São José do Rio Preto, mas infelizmente nossa relação não foi pra frente. Mais uma vez a minha posição de me colocar como homossexual não dava certo, e parti então para um estudo de campo e mergulhei de cabeça no mundo gay, buscando me "masculinizar" cada vez mais para poder caber no "padrão gay" e não ser discriminada por ser tão afeminada.

 

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Na minha formatura com meus amigos Luis e Ita.

 

Nestas pesquisas de campo, comecei minha vida sexualmente ativa e me deparei com uma realidade muito comum das transexuais: a rejeição pelo pênis. Não queria que meus parceiros tocassem nem chegassem perto. Tinha nojo daquilo. Mas como eu vou fazer? Os gays com quem eu tinha contato não tinham esta reação, muito pelo contrário compartilhavam o prazer e adoravam ser homens. Eu não. Mesmo assim, me permiti ser tocada, e fui permitindo me conhecer sexualmente. Tive diversas relações, com pessoas das mais variadas, até conhecer um bissexual e ficar noiva dele. Para se ter uma idéia da minha forte rejeição, meu noivo jamais me penetrou e na primeira noite que dormimos juntos, eu não tirei a camiseta pq não tinha seios. Ainda assim, achava que eu era um gay diferente, jamais passava pela minha cabeça que eu poderia ser uma transexual.

A relação envolvia muita paixão, mas eu tive de voltar para Manaus, deixando tudo que tinha pra trás. Cheguei em Manaus e tentei abrir minha própria Empresa, a Aresta Web. Meu noivado foi pro espaço com a distancia e o choque de idéias e planos. Mergulhei mais uma vez no trabalho chegando a virar uma workahoolic e assim fiquei por quase dois anos, tendo relações casuais, mas não me permitindo apaixonar-me novamente.

 

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De menino.

Mas eis que o destino pregou suas peças e reencontrei um antigo amor platônico do passado e passei a convidá-lo para sair como amigo. Estas saídas geravam relatórios em forma de novela para minha irmã, que morava em São Caetano, e eu enviava os capítulos por e-mail contando tudo o que havia rolado nos bastidores, a forma como eu estava apaixonada por ele e tudo que eu queria que ele tivesse me feito neste ou naquele momento. Numa destas novelinhas, que tinha o nome de "Starting Again", falei mal do melhor amigo dele e enviei o e-mail enganado para o meu grupo de amigos inclusive para o seu melhor amigo.

Foi inevitável não revelar o que eu sentira por ele, e acabou que ele ficou do meu lado e ficamos 1 ano juntos. A mesma situação de sempre vinha à tona: me apaixonara mais uma vez por um heterossexual e não me encaixava como gay. Já estava há 4 anos estudando sobre homossexualidade e mesmo assim não conseguia entender onde me encaixar, já que nem com os gays afeminados eu me parecia. Já tinha lido algo sobre transexualidade e me identificado profundamente com ela, mas não via a menor possibilidade de ser Trans. Deixei guardadinha a informação até eu receber a 1ra notícia que me fez pensar no caso de assumir: meu ex havia se casado com uma mulher biológica 3 meses depois da nossa separação.

A essa altura do campeonato, trabalhava em 6 projetos simultâneos, terminando a pós-graduação totalmente insatisfeita com o curso, e voltava ao hospital com crises de estresse. Minha empresa não foi pra frente e estava tendo problemas com a equipe de teatro onde era produtora. Na verdade estava tendo problemas em todas as áreas da vida. Financeiro, saúde, profissional, afetivo, familiar. Minha vida entrou em colapso e fui procurar uma terapeuta. Já na primeira sessão, descobri que meu problema era na minha auto-aceitação. Este tempo todo estava negando o que sempre esteve na minha frente: EU ERA UMA MULHER!

 

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1 mês de transição, meu primeiro ensaio.

 

Continua no próximo capitulo.

 

Ale Saraiva

São Paulo, 15 de Outubro de 2005

 

Dúvidas, críticas, comentários, depoimentos:

alessandrasaraivapinheiro@gmail.com

Ale Saraiva tem 26 anos, amazonense, mora em São Paulo, é Administradora de Empresas e trabalha como Designer Gráfico. Amante da Sexologia, Psicologia Transpessoal e da PNL, em 2000 iniciou um estudo sobre o comportamento homossexual e Continua se descobrindo como Transexual.

Para conhecer mais: http://www.ablogada2.theblog.com.br/

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