Mulheres hoje e sempre!
O que é ser mulher? Mulher para a sociedade, definida pelos seus dicionários, é a pessoa pertencente ao sexo feminino. Há algumas maneiras de designar se esta pessoa pertence ou não ao sexo feminino como os órgãos genitais, as combinações cromossômicas, os caracteres secundários corporais, seus aspectos ideais, culturais, comportamentais e políticos.
Há muitas mulheres que não reúnem todas as características supracitadas, afinal de contas, existem mulheres machistas, mulheres de comportamento dito masculino, mulheres com problemáticas cromossômicas, genitais, e mulheres que nunca sequer pararam para pensar o porquê de serem mulheres. De toda maneira, estas mulheres permanecem legitimas na nossa sociedade sem que ninguém questione suas sexualidades e sem precisarem expor, por exemplo, que nasceram sem útero, ou mesmo sem canal vaginal, a não ser para quem realmente interessa.
Nós sim, mulheres, ditas transexuais, travamos uma luta diária para provar que somos mulheres. Passamos inevitavelmente por um processo de descaracterização da nossa feminilidade desde a mais tenra infância, onde somos levadas a crer que pertencemos ao sexo masculino e que devemos corresponder aos seus padrões.
Para quem corresponde a este sentimento, há um verdadeiro desentendimento de si mesma, e do mundo, durante a infância e, ao chegar à adolescência, inicia-se um verdadeiro pesadelo com a mudança do corpo. Para quem tem informações e apoio familiar o sofrimento é menor e a transição pode começar cedo, evitando os estragos da testosterona - o hormônio sexual masculino que chega lascivo, acabando com sonhos e trazendo mais e mais conflitos. Mas, para quem não tem informação e apoio, o pesadelo pode durar até uma vida inteira, fazendo com que nossas escolhas nem sempre sejam as mais felizes para nós e para os que convivem conosco.
Há sempre uma pergunta que muitas se fazem, serei uma Transexual ou uma Travesti?
Quer gostem ou não, o que nos difere, as pessoas transexuais, das pessoas travestis, é justamente a questão de gênero: somos do sexo feminino e queremos nos legitimar como do sexo feminino.
Ouvi durante toda a minha jornada uma penca de chavões e um mesclado de baboseiras a respeito das diferenças entre travestis e transexuais, e numa capacitação com militantes do segmento, ouvi das próprias travestis presentes que elas não se consideravam nem pertencentes ao sexo masculino, nem ao sexo feminino, mas sim, a uma categoria única e especial, propondo a existência do sexo travesti, enquanto construção psíquica, corporal, cultural e ideológica.
Hoje no Brasil, estas nomenclaturas se confundem. Existem as Transexuais, as Travestis, as Transex, Drags, CDs, Transgêneros e uma série de classificações que dividem as pessoas e mascaram seus próprios sentimentos. Vamos nos focar nas Travestis e Transexuais e na sua busca pelo feminino.
Uma Mulher Transexual nada tem de especial em relação as Travestis na sua busca pelo reconhecimento da sua feminilidade. Quando dizemo-nos pertencentes ao sexo feminino, isso se dá em sua plenitude, por isso mesmo, a cirurgia de transgenitalização, por exemplo, torna-se uma adequação a “vagina mental” que se forma em nossa realidade psíquica durante toda vida. Agora falo por mim, como transexual, que a cirurgia que anseio me trará a paz em relação a minha constituição física e também melhorará a minha relação com a sociedade como um todo. Não por ter uma vagina, mas por me sentir adequada e plenificada na minha realidade de mulher.
Já ouvi muitas “transexuais” negarem a sua realidade colocando-se numa categoria especial ou a parte das demais mulheres do mundo, muitas vezes se dizendo únicas, exclusivas, autênticas ou especiais. É óbvio que cada indivíduo é diferente do outro, mas dentro de um grupo social, quem é mulher, sabe-se mulher. O mesmo não se dá na Travestilidade, quando acontece o reconhecimento da masculinidade e a diferenciação dos gêneros.
O sentimento observado nesta condição é de que houve uma transformação para Travesti, não para mulher. Em contrapartida, Transexuais afirmam sentir em sua transição, um reconhecimento da persona feminina que sempre teve dentro de si, não realizando uma transformação para mulher, mas adequando-se a mulher que ali estava sufocada num corpo incongruente.
E me perguntam: mas Transexual não é a que opera? Com dinheiro é possível operar no Brasil, inclusive sem laudos comprobatórios. A cirurgia de transgenitalização não define a sexualidade de ninguém e é um erro pensar que a pessoa só é transexual depois que opera. A pessoa é Transexual a partir do momento que se sabe, entende-se, admite-se e reconhece-se como pertencente a um gênero, masculino ou feminino, que não condiz com sua realidade corpórea. Quem é mulher e sabe-se mulher, faz uma vagina consciente de que é aquilo que ela deseja, afinal, mulheres têm vagina e é muito natural que almejemos ter a nossa também.
Ouvi coisas do tipo: “buceta é close” ou mesmo “buceta tá na moda” da boca de visíveis travestis, que buscavam construir uma neovagina num consultório médico especializado. É muito possível que elas façam a cirurgia pagando um valor bem acima da média e responsabilizando-se por eventuais danos pós-cirúrgicos. Mas é bem possível também que venham a sofrer danos psicológicos ou até mesmo se arrependerem posteriormente.
Não consigo imaginar alguém que faz uma vagina por que tá na moda. E quando a moda passar, ou você enjoar do “modelo”, não haverá mais retorno, como ficará a sua cabecinha?
Portanto, temo muito pelo “modismo” de ser Transexual. Vejo que no Brasil está virando moda dizer-se Transexual para apagar os estigmas criados pelo termo Travesti. Em minha opinião, como ativista, isso só demonstra o quanto somos preconceituosas com nós mesmas e o quanto ainda vamos nos arrepender e fazer muitas “burradas” na vida, apenas pelo medo de assumir o que realmente somos e sentimos.
Temo muito por falas como: “seremos transexuais pro resto da vida”, pois, já me sinto e me sei mulher, e se hoje carrego este termo classificatório é porque não realizei minha cirurgia e não troquei documentos, depois de feito não quero ser outra coisa senão mulher plena e feliz. Ou não fará sentido eu lutar pelo reconhecimento da minha pessoa feminina, se insisto em diferenciar a minha feminilidade. No mínimo estarei dando-a como ilegítima, e está longe de ser isto o que quero e pretendo para minha vida.
Portanto, me chamo Alessandra Saraiva e sou Mulher com muito orgulho. Não quero mudar de sexo, estou feliz com o sexo que tenho e sempre tive: o feminino. Se nego minha transexualidade? De modo algum, ela existe! Mas é mais uma característica da minha pessoa, como ser alta, magra, ter cabelos e olhos pretos, e não uma condenação mística instransponível, que durará pro resto da minha existência. Ao fim da minha transição, eu serei apenas o que já sou: eu mesma.
Vasculhe profundamente o seu ser e pergunte-se, com honestidade na resposta: você se sente verdadeiramente mulher?
Até a próxima!
Alessandra Saraiva tem 29 anos é Administradora de Empresas, Designer Gráfico, Estudiosa da Sexualidade Humana e da PNL, Ativista e Mulher.
Dúvidas, comentários, criticas e sugestões: alessandrasaraivapinheiro@gmail.com






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