Entrevista para o Site No Minimo - 9 de janeiro de 2000
Boa de briga.com
Suzy Capó <
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[ 09.Jan ] A transexual Maitê Schneider está em todas. Conhecida por sua militância, ela vez por outra aparece nas páginas de jornais. Durante as eleições de São Paulo, apareceu ao lado da candidata Marta Suplicy, em cartazes colocados na cidade pela oposição. Maitê não é a primeira transexual brasileira a chamar atenção da mídia. Rogéria, por exemplo, há anos freqüenta revistas e programas de televisão e é tão conhecida pelos brasileiros quanto as atrizes globais. Talvez Maitê nunca venha a anunciar cartões de crédito, como faz Roberta Close. Isso porque ela de destaca pela militância. Há um mês, por exemplo, essa curitibana de 28 anos foi indicada por milhares de internautas para o Prêmio Nobel Gay da Internet, promovido pela versão latina do portal gay.com. Recebeu 95 mil votos, que representavam 82% do total.
Maitê se destaca não só pelo tipo de atividade que exerce e pela qual mereceu o prêmio e, assim, menção na grande imprensa. Diferente de uma boa parte dos transexuais, ela sempre teve apoio familiar e por isso não precisou se prostituir. Tampouco teve de tomar caminhos profissionais que não eram próprios à sua personalidade, em ambientes onde transexuais são mais tolerados, tais como o meio artístico. Apesar de ser constantemente discriminada, Maitê nunca viveu à margem da sociedade. “Só fui conhecer a violência por causa do meu trabalho”, diz a militante.
A vocação para o ativismo político vem desde a infância, quando ainda atendia pelo nome de Alexandre. “Sempre tomei as dores dos outros. Desde pequena eu buscava as pessoas que estavam mais isoladas e procurava trazê-las para o coletivo”, conta. Há cerca de quatro anos descobriu que a sua habilidade para “comprar brigas” poderia ser melhor aproveitada dentro um grupo organizado. Entusiasmada com a nova possibilidade de atuação, entrou para tudo quanto é tipo de ONG: de defesa dos direitos homossexuais, de negros, índios, crianças portadoras do HIV, entre outras.
Paralelamente, Maitê resolveu criar sua página pessoal na Internet. “Eu queria desmistificar os estereótipos de travestis e transexuais ligados à prostituição, mostrar que existem outras realidades que podem não ser aceitas mas têm de ser respeitadas”. O projeto foi crescendo, em termos de conteúdo e acesso, e hoje recebe cerca de 2.000 visitas diárias, com duração de 45 a 50 minutos cada. “Tem dias que passo de 15 a 16 horas em frente ao computador”, revela.
O diferencial de Maitê no uso da Internet como instrumento político é a forma absolutamente pessoal com que trata os internautas. Além de cuidar da atualização da página, ela participa ativamente de três ou quatro listas de discussão, tais como a lista GLS e a Gaylawyers, nas quais é idolatrada. Não é à toa: Maitê está atenta a tudo que se passa com cada um dos participantes e responde prontamente a todos os e-mails enviados. “Eu vejo as listas como uma coisa quente, não como um grupo de anônimos fugindo da realidade por meio de um computador”, diz.
Se a página na Internet é uma forma de ampliar o que Maitê chama de “catequização”, a sua atuação como vice-presidente do Instituto Paranaense 28 de junho de Direitos Humanos é uma forma de dar visibilidade ao seu trabalho, avançando na conquista do respeito e da cidadania. O grupo se dedica à defesa dos direitos humanos de um modo geral — sua última “briga” foi pela regularização dos documentos de um grupo de ciganos — mas é na luta pelos direitos dos homossexuais (aí incluindo os transexuais) que Maitê vem ganhando notoriedade.
Em meados de dezembro, ela esteve em Brasília para um encontro no Ministério da Justiça ao lado de lideranças na defesa dos direitos homossexuais como Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia, e Cláudio Nascimento, do Grupo Arco-Íris. A princípio, estava meio cética. “Tenho um pé atrás com qualquer tipo de apadrinhamento”, explica. Na época estava prestando vestibular para jornalismo (o resultado sai no início de janeiro) e não queria perder seu tempo com encenações que não resultassem em algo concreto.
Mas Maitê voltou satisfeita da capital. Entre as políticas de ação sugeridas e bem-aceitas pelos técnicos do ministério, ela cita o subsídio para a implantação do disque-denúncia em todo o Brasil, a alocação de verbas para o financiamento de projetos das ONGs, cursos de capacitação para professores da rede de ensino fundamental e campanhas televisivas de combate ao preconceito e à discriminação.
Ainda que dedique seu tempo e energia para ajudar os outros, Maitê afirma que não é nenhuma santa. “Não sou a Madre Teresa de Calcutá. Eu namoro, saio, danço e jogo buraco com minhas amigas como qualquer pessoa”. De sagrado, diz ela, só mesmo o almoço com o pai, diariamente às 13 horas.
Endereco da reportagem http://www.no.com.br/servlets/newstorm.notitia.apresentacao.
ServletDeNoticia?codigoDaNoticia=15218&dataDoJornal=979075890000







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