Jornal O Diário de Maringá de 01/12/2000
Jornal O Diário de Maringá ( 01/12/2000) página 2
Travestis, transexuais e o mercado de trabalho
Maite Schneider
Tudo pode acontecer, quando o assunto abordado é travestis e transgêneros e sua inserção e exclusão no mercado de trabalho.
Com minha experiência e vivência nesta área, aprendi a ser mais humana e não julgar somente um fato em si, mas sim, olhar um pouco para trás e refletir na história passada por esta transgênero.
Cada pessoa é um histórico cumulativo de alegrias, tristezas, vitórias, decepções, ilusões, conquistas e tantas outras prerrogativas que as fazem ser do jeito que são e agirem do modo que agem.
Quando falamos em transexuais, travestis e transgêneros, devemos aqui observar uma carga extra, que é o preconceito com a exteriozação de sua conduta e de sua sexualidade. Somos tidas muitas vezes como anomalias, "bichos de circo" para o divertimento de clientes, objetos de uma vitrine de prostituição ou até mesmo como aberrações.
Não é fácil o preconceito e a discriminação, bem sei disto. O que não podemos fazer é cruzar os braços e achar que as coisas mudarão num simples "plim-plim", ou que, as pessoas "tem" que nos engolir da forma que somos e desejamos.
Tudo faz parte de um processo. E como todo o processo, este fenômeno é lento e gradual. Temos que, aos poucos, ir mudando os valores arraigados em nossa cultura machista. Temos que neste momento ir fazendo parcerias, encontrando pessoas acessíveis e propensas a nos ouvir e escutar nossa história. Temos que nos unir mais, coisa que infelizmente não ocorre, haja visto que o nosso mundo está cada vez mais voltado para a impessoalidade.
É triste ver que os seres humanos não se enxergam, nem dentro de suas próprias segmentações. O Brasil dividiu-se, procurando encontrar seus iguais, e perdeu-se neste emaranhado todo. Nossa diversidade é o que temos de mais belo, mas a separação e desunião é o que temos de mais triste e lamentável.
Vivemos numa época de mudança de valores e conceitos, e é nesta época que devemos nos fazer ouvir, mostrando que as travestis, transexuais e transgê-neros realmente existem, sofrem, riem, ficam tristes, sentem, choram, se divertem... e querem viver. Precisamos viver, pois a cada dia que passa a situação da violência e da discriminação negativa, nos consomem e muitas vidas são ceifadas e tiradas do nosso convívio diário.
Ao se falar em transgêneros e mercado de trabalho, temos que analisar que somos as pessoas que mais sofrem no que tange este aspecto importante da vida. O trabalho além de servir de válvula de escape para a pessoa, a dignifica e a torna parte de uma sociedade. Isto é muito mais importante, para nós transgêneros, haja visto, que na maioria das vezes somos excluídas da sociedade e da inserção em seu bojo. A não ser em raros casos que nos chamam e convidam para servirmos de atração e merchandising, como no caso de eventos televi-sivos e carnavais da vida.
Isto tem que mudar e está mudando. Aqui em Curitiba, estive participando de um seminário da Delegacia Regional do Trabalho, e o tema debatido foi justamente a Promoção da igualdade de oportunidades de Trabalho; a implementação da convenção nº 111 da OIT (leia-se Organização Internacional do Trabalho) no Paraná.
Esta convenção 111, versa exatamente sobre a não discriminação de quem quer que seja no trabalho, e da oportunidade igual e chances idem para todos os indivíduos, independente de sua idade, sexo, orientação sexual, cor, credo, vínculo político, nacionalidade, gênero, e deficiências em geral.
Neste projeto, foi firmada uma parceria com todos os grupos presentes, entre eles o Instituto Paranaense 28 de junho, a qual eu sou vice presidente. Isto mesmo, você leu bem, sou uma transexual e que luto para que as coisas mudem. E luto, não por vaidade ou por algum status, pois eu estaria muito bem levando minha vidinha, sem precisar me envolver em causa alguma. Seria mais simples. Luto por acreditar nas mudanças e por ter a certeza de que elas devam partir de nós, que nos sentimos minorias e excluídos.
A ponte está sendo feita, e todos são chamados a participar de sua construção em prol de um mundo melhor e mais humano. Através de atitudes como estas, feitas no Paraná e de outras tantas que são anônimas, mas também importantes, estamos mudando nossa realidade social.
Este projeto de cidadania e justiça no trabalho, já foi instaurado em diversos outros Estados, como Ceará, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, e outros tantos. Em cada um destes locais, a população já dispõe dos Núcleos de Combate à discriminação no trabalho. E tenho que afirmar para vocês que o trabalho destes núcleos é lindo e muito bem feito. Tanto a nível organizacional, quanto a nível de respostas para os casos que chegam até ele. Falo em número de porcentagens e casos resolvidos.
Vários casos de preconceito e discriminação, baseados em orientação sexual, foram golpeados e levados à lona. Fez-se valer o indivíduo e não sua condição. As coisas estão mudando, eu sei e vejo que estão. Mas temos que fazer a nossa parte.
É fácil para os ditos "normais" e de padronagem aceita, nos criticarem e julgarem sempre, quer seja pela prostituição, marginalidade ou afetação estereotípica. É fácil para nós, transgêneros, dizermos que somos injustiçadas e que somos vítimas. Mas aqui pergunto a todos vocês: "O que as pessoas fazem para nos entender???? O que procuram saber de nós, antes de nos julgarem e massacrarem???" "O que nós, transgêneros, estamos fazendo para mudar esta triste realidade que se apresenta??"
Nada é a resposta certa???? Eu creio que num primeiro momento sim, pois são muito poucos os interessados em mudança. É mais fácil e mais cômodo criticar, ao invés de buscar-se soluções para que as coisas fiquem bem para todos. Existem grupos organizados em todos os cantos do país. Grupos sérios que lutam cotidianamente, mas são muito poucos os que realmente compram e vão à luta.
Os transgêneros carregam no seu corpo, no seu rosto, na sua maquiagem diária, mesmo que seja somente um rímel, a bandeira da diversidade e da luta, mas isto não está mais bastando. Temos que não somente mostrar "os peitos", mas mostrar nossas idéias para construção de um mundo melhor. Se realmente acreditamos nisto.
Encontro sempre diversas pessoas querendo mudar o mundo, e pouquíssimas querendo mudar a si mesmas. A mudança somente ocorre quando mudamos a nós próprias e os nossos conceitos. Não somos 100% certas, mas também não somos 100% erradas. Vamos chegar a um denominador comum... e o caminho é o diálogo e a união, sem dúvida nenhuma.
Eu poderia ficar aqui falando, horas, das pessoas que já vi se matarem na minha frente, das que foram mortas por tiros, apedrejamentos e espancamentos diversos. Poderia eu ficar aqui durante horas, falando de minha luta diária, e do preconceito que sofro como transexual, todos os dias e em todos os momentos.
Em contrapartida, já que posso estar aqui falando prefiro falar para vocês que as coisas estão mudando, mas que para mudarem ainda mais temos que ser parte desta mudança toda. Não ser carregada pela maré, mas ser parte dela, envolver-se, manifestar-se, enfim, as formas de participação são várias.
A luta é árdua e difícil sim, mas a população transgênero está começando a refletir e tomar consciência de seu potencial. Somos muitas... e somos corajosas. Somos vencedoras por natureza e em essência.
Façamos desta força nossa aliada. Juntas, pois somente assim realmente seremos ouvidas e nos faremos respeitar.
P.S - Se por algum acaso do destino, algum empresário ler este texto e chegar até aqui, creio que as mudanças realmente já começaram. Espero que você chegue mais longe, senhor empresário, e comece a refletir na pessoa transgênero, como uma pessoa extremamente capaz para o trabalho e para o pleno emprego. Veja-nos como bons olhos e verá que além do retorno de uma vaga ocupada com capacidade, você estará desenvolvendo um trabalho social e de construção de um mundo melhor.
Um porém, não nos veja como "deficientes"... pois muitas vezes as aparências enganam, e este é um caso típico.
Somos, ousamos e queremos existir.
Sim para a oportunidade igualitária de trabalho para todos.
Não para a discriminação.
Chega de sermos vítimas, somos gente.
Maite Schneider
Instituto Paranaense 28 de junho de Direitos Humanos






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