Entrevista para o Supersite em 2/7/2000

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Orgulho de ser o que é

Maite Schneider
Por Vitor Angelo

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Conheci Maite em uma lista de assuntos referentes a homossexualidade, a lista gls. Diversos assuntos sco discutidos: polmtica de minorias, auto-estima, notmcias de interesse para os homossexuais, entre outros. E nesse espago sempre escreve Maite, com seu jeito todo especial. Ela torna aquele ambiente mais quente e humano, contrariando os que vjem a Internet como o lugar da impessoalidade. Vocj logo percebe que i Maite que esta escrevendo. Parodiando a poeta moderna Gertrude Stein: uma mensagem de Maite i uma mensagem de Maite. E de mais ninguim. Logo me chamou a atengco tambim o respeito e carinho que todos os participantes da lista tjm por ela. Maite i sinal de dignidade. Montou sua homepage pessoal onde divulga sua histsria, suas poesias, sua luta contra o preconceito; abriu uma empresa de assessoria e marketing, a MH Marketing. Maite i sinal de orgulho. Tornou-se vice-presidente da INPAR 28 de junho, grupo de defesa dos direitos humanos; entrou na justiga para reclamar o direito de suas amigas travestis entrarem onde quiserem sem ser discriminadas. Maite i viva. Eu nunca a vi pessoalmente, mas tenho a impressco de que somos amigos de longa data.

Nesta entrevista feita por e-mail, Maite fala de sua trajetsria, dos preconceitos e como lidar com eles, do apoio do pai, relembra a amiga que lhe ajudou a encontrar seu gjnero feminino e de como ser livre na diferenga. Salve Maite!!!

Rótulos

Supersite: Infelizmente, o mundo é cheio de rótulos ou nomes. Temos que nomear tudo para até podermos identificar e compreendê-lo. Como você se define: travesti, transexual, transgênero, ou nenhum desses termos faz muito sentido para você?

Maite Schneider: Realmente, rótulos é o que não falta em nossa sociedade. Eles tentam nos enquadrar, como se fôssemos produtos ou mercadorias de supermercado. Como se já não bastasse sermos conhecidos por números de RGs e CPFs....

Sou, sempre fui e sempre serei... (nossa, ataquei de Mãe Dináh agora, não é mesmo?????: ))) contra qualquer espécie de rotulação do ser humano. Creio que todos somos diferentes e não há como se colocar uma tipificação desse gênero em uma categoria tão ampla como a nossa.

Inclusive, esse preconceito todo que vemos espalhado nos quatro cantos do nosso planetinha, e que tantas vidas mata, é fruto sem dúvida desta diferenciação e rotulação toda. A partir do momento que você cria uma distinção entre "um alguém" e "outro alguém", necessariamente criará também uma disputa entre "esses alguéns", para que se saiba quem é melhor... quem é mais forte... quem é normal.... quem manda no pedaço...

O preconceito, que é o verdadeiro mal do nosso século, não terá nunca fim enquanto ficarmos criando e dividindo os seres humanos.

Há uma necessidade de união e não divisão em castas.... Isso tem que fazer parte do passado, para que consigamos um futuro com pessoas felizes de serem o que são e o que forem.

S.: Existe diferença entre esses termos: travesti, transexual, transgênero?

M.S.: Não sou especialista em sexualidade, mas com minha vivência dentro do contexto "GLS" e do contato com grupos minoritários de sexualidades existentes, seja através do meu cotidiano ou através do trabalho que desenvolvo há mais de dois anos em meu site, percebo uma diferença sim entre travestis e transexuais.

Travestis são seres humanos que buscam uma identificação próxima ao contrário de seu sexo de nascimento, sem quererem alcançar o seu resultado final. Ou seja, são pessoas que buscam através de trejeitos, mudanças do corpo, modos de se vestir e se portar, uma identificação com o sexo contrário do seu sexo biológico. Querem parecer, embora não sejam...

 
S.: E os transexuais? pf_300600_rotulos

M.S.:Transexuais são seres humanos que possuem uma contrastante diferença entre o sexo biológico e o sexo psicológico. Portanto, nascem com um sexo anatômico tido como característica principal de um sexo, mas pertencem fundamentalmente a outro. São mulheres que nascem com um pênis, ou homens que nascem com uma vagina. Os transexuais são pessoas que buscam adequar sempre ao máximo o seu corpo à sua maneira de pensar. Eles não querem mudar o sexo... Eles têm o sexo bem definido em suas cabeças... Querem simplesmente a adequação dessa disparidade.

Transgêneros é a nomenclarura mais coerente com a evolução dos conceitos relativos à sexualidade "transgender". Lá fora, esse conceito é visto como uma unificação do grupo de travestis e transexuais. Tanto que muitas vezes entramos em sites de "transexuais" e o que percebemos são travestis. Muitas vezes, usa-se o termo transexual para travestis, como atrativo para atrair clientes, haja visto que o termo 'travesti" está infelizmente muito associado à marginalidade.

Acaba-se, portanto, criando essa confusão na cabeça de um grande número de pessoas, que entende que travestis e transexuais são a mesma coisa.

Literalmente, temos "transexuais", como "além sexo"... e como você já deve ter percebido em minha explanação acima sobre o verdadeiro sentido do que se é ser transexual, percebe-se que vai muiiiiiitooo além do próprio sexo... Afinal, a sexualidade é somente uma das muuiiitas partes que compõem a essência de um ser humano. No caso dos transexuais, isto não está ligado somente ao sexo, mas a um conjunto desses fatores, sejam eles, emocionais, psíquicos, sociais e outros tantos.

Em minha visão holística da situação, vejo que o certo seria alterarmos a nomenclatura de "transexuais" para "transgêneros", (literalmente, além gênero), o que fica muito mais completo e condizente com a realidade.

 

A descoberta da sexualidade

S.: Como se deu a descoberta de sua homossexualidade?

M.S.: Bem, eu nunca me senti homossexual, em momento nenhum de minha vida. Eu sabia e sentia que era diferente dos amigos que eu tinha... nada mais...: ))))

Na minha época, a infância era mais prolongada... [as crianças] não eram tão precoces como nos dias de hoje. Quando eu tinha mais ou menos 15 anos começou a bater a necessidade de descobertas dessas diferenças que eu sentia.

Aliás, não exatamente por mim é que começaram essas buscas, mas por imposições externas. Meus amigos e amigas estavam começando a namorar, paquerar e a "ficar". Eu estava me sentindo meio perdida no meio de uns grupinhos formados quase que somente de casais.

Eu não sentia vontade de sexo, inclusive por um tempo fiquei achando que eu era meio "assexuada'....eheheeh... imagina só.. uma escorpiana, assexuada....: ))) Era só o que faltava....: ))))

Quando eu comecei a estudar em livros sobre homossexualidade, transexualismo e travesti, aprendi essas diferenças todas, entende???

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[Mas] eu nunca me senti homossexual, porque eu nunca me via atraída por homem nenhum e havia visto que homossexual é uma pessoa que tem atração por pessoas do mesmo sexo... (sendo que hoje sei que ser homossexual é muuiiito mais que isso..: )))) que bela descoberta..: ))) Mas voltando ao papo sério, eu não tinha atração nem por homem, nem por mulher... nem por nada.

Depois dos 16 anos, com minhas várias descobertas teóricas e e minhas "pesquisas de campo" feitas em boates e bares GLS, fui percebendo quem eu era... e o que eu era. Fui descobrindo a Maite que já morava em mim. Daí, logicamente, com ela vieram os desejos de mulher, a atração por homens, os sonhos eróticos... e tudo o mais..: )))

S.: Na sua homepage, você conta sobre a vontade de entrar em uma boate gay e a dificuldade de conseguir se expor lá dentro, ficando sempre escondido. Como você venceu esse medo?

M.S.: Realmente, a visão que eu tinha de uma boate gay era assustadora... Eu já achei que "eles" (os gays), atacavam a gente desde a entrada, que tinha um corredor estreito sem chance de volta e que a boate era escura e com saída difícil de ser encontrada.

O povo, até hoje - [embora] um pouco menos que antes, lógico -, tem uma visão errada sobre os bares e boates gays. Assim como tem um visão estereotipada de gays, lésbicas, travestis e transexuais.

O medo foi quebrado quando eu comecei a ver com meus próprios olhos as atitudes das pessoas que freqüentavam os ambientes GLS. Não havia nada de diferente... a não ser homem se beijando com homem, mulher com mulher, travesti com garotos de programas... Enfim... nada que minha ignorância à respeito do assunto não me levasse a desmistificar.

S.: Você teve uma grande amiga, a Lu, que te "ensinou a transformar". Conte um pouco mais sobre ela, como você a conheceu e o que realmente aprendeu com ela.

M.S.: Eheheehehe... A Lú...: )))) Grande Lú... Grande amiga... Grande pessoa....: ))))) Uma das pessoas mais importantes que eu conheci, pela coragem que tinha em se assumir, pelas posições e atitudes que tinha perante a vida e a maneira como resolvia os problemas e enfrentava os preconceitos: com dignidade e respeito à si própria...

 

 

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Conheci a Lú numa dessas noites, numa danceteria GLS... Logo ela me chamou a atenção pela sua postura e maneira como se portava... Via nela a mulher que eu queria exteriorizar em mim... O jeito dela caminhar, a maneira como ria, o cruzar de suas pernas, a gestuação perfeita de seus movimentos, o sincronizado do seu quadril com seu andar - enfim, tudinho mesmo que eu queria colocar para fora e não sabia como e nem por onde...: )))))

Mal sabia eu naquela época, que o caminho da minha felicidade estaria diretamente ligado a essa fase de aprendizado com a Lú.

Ela me ensinou quase tudo, não como uma professora que corrige e aperfeiçoa uma aluna em sua lição, mas como um espelho lindo que reflete a imagem sempre perfeita do sonho de se sentir feliz consigo mesma.

Das coisas que aprendi com ela posso passar a importância de se ter alguém amigo, um apoio, um porto seguro, numa hora difícil como essa da exteriorização de mim mesma.

Com ela aprendi também que somente dando é que criamos espaço para que possamos receber. E que ajudando os outros, ajudamos a nós mesmos em escala muito maior. Com a Lú aprendi a força de um agradecimento e a importância de um sorriso.... Enfim, com a Lú aprendi coisas muito importantes mesmo....

S.: Em que momento você sentiu que gostaria de não mais se vestir como homem?

M.S.: Eu nunca gostei de roupas de homem... Sempre preferi os shorts e camisetas, o visual mais unissex possível... Não gostava das chuteiras e nem dos terninhos com gravatas. Ai, como eu odiava ir a casamentos. E sempre me escolhiam como pajem da cerimônia... Diziam que eu parecia um príncipe... Heheheheh... Príncipe este que procuro até hoje, diga-se de passagem...: )))))

Com minhas saídas e meus conhecimentos aumentando, e mesmo através da Lú. Fui usando as roupas dela... saindo à noite com ela... Ela me pintava todas as vezes. E eram nesses momentos que eu me sentia realmente eu..... Eu, que ainda não tinha nome..... Eu, mas feliz.......: ))))

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S.: Quando você se vestia com roupas masculinas, você teve algum caso com homens?

M.S.: Sim tive sim...: )))) Cada gatinho que nem te conto...: )))) Fazia parte da minha busca. Mas eram somente beijos e abraços... nada mais caliente, pois eu queria somente provar. Em minha mente tinha sempre uma frase que meu pai disse quando conversamos pela primeira vez sobre minha sexualidade. Ele me disse: "estude, reflita e pense bem, antes de tomar qualquer atitude em sua vida... Tem coisas que marcam a vida da gente, e delas não temos como fugir... ficarão nos atormentando para o resto de nossas vidas, caso não sejam o que desejamos." Sempre segui mais este sábio conselho de meu pai Cláudio.

Eu ia somente até onde achava que era o suficiente... E não gostava dessa coisa meio direta dos homens que conheci naquela época em que eu me vestia de homem. Eu sou uma pessoa muuuiiito romantica... que acredita em príncipe encantado e tudo, pode???: ))))

Não que todos os gays sejam assim... Lógico que não... [mas] os que eu conheci nesse período eram... ou vai ver que eu que era muuuiiiito irrestivel mesmo.. eheheheheheeh: )))) tô brincando... sei que propaganda enganosa dá procon...: )))

 

 

Discriminação

S.: Você teve dificuldades de deixar de ser Alexandre e ser Maitê?

M.S.: Não houve dificuldade nenhuma nesse ponto não, pois todo o processo de exteriorização da Maitê , foi muuuiiito natural.... Nada foi imposto com o dever de ser aceito, entende????

Tudo o que é imposto, de algum modo fica agressivo e meio arbitrário. A Maitê floresceu de mim, no seu tempo e no seu momento....

Creio que, por isso, as coisas sempre aconteceram para mim de certa maneira um pouco mais "fáceis" do que para a maioria do pessoal. Pela naturalidade da fluidez é que acredito que não houveram tantas dificuldades quanto as que eram previstas.

S.: Você sofreu discriminação no início?

M.S.: Discriminação há sempre, lógico. Não podemos contar historinha de contos de fadas e de "era uma vez" e fingirmos que tudo é lindo e formoso. Que todos nos aceitam, que todos vivem e deixam você viver... Isso não existe, infelizmente, ainda... Embora eu tenha uma visão positiva de um futuro nesse sentido..: ))))

Mas a pior discriminação mesmo era a que eu tinha comigo mesma. Eu não entendia, não aceitava, não admitia aquela feminilidade e diferença em mim. Havia uma repulsa de algo que me parecia natural, que sempre me pareceu natural, mas que entrava em confronto com os padrões de normalidade que me foram passados através da minha educação. Seja por familiares, seja pelos meus professores de colégio franciscano...

Essa luta contra a não aceitação e discriminação de mim mesma, é que foi a mais doída e difícil de minhas lutas. Depois de vencida essa etapa, consegui finalmente descobrir e saborear o que é felicidade.

S.: Também na sua home-page você conta de um namorado que, no início, achava que você era mulher e pediu você em namoro para o seu pai. Como ele reagiu quando soube que você não era mulher?

M.S.: Antes de me pedir em namoro para meu pai, o Márcio já sabia que eu não era uma mulher biológica. Mas ele me via como tal... e era muuiito certinho em tudo o que fazia. Eu não sabia que ele faria isso, mas quando chego na sala, lá estão os dois sentados, conversando... E meu pai dizendo como tratar uma mulher de família... ele dizia: "Já que Maite seguiu a vida que quis e se sente mulher... então, eu quero que ela seja tratada com o respeito que sempre desejei para a irmã dela... nada de agarros mais calientes na sala... ficar em casa até meia noite... essas norminhas básicaasss..: ))))

Mas voltando ao caso do Márcio, nós nos conhecemos num ritual espírita. Uma amiga havia me convidado para conhecer esse culto religioso... Curiosa como sempre fui... fui até lá.....: ))))

De cara olhei para o Márcio... e ele para mim. Foi à primeira vista mesmo. Ele estava com a mãe e um dos irmãos dele... Ficamos o tempo inteiro nos paquerando a distância...: ))) nem os atabaques eu escutava...: ))))

  Ele pediu meu telefone na saída do culto... e roubou um selinho de mim. Meu coração dava pulos dentro do peito...: )))

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No dia seguinte, ele já me ligou, combinamos de nos encontrar em casa. Como eu morava com minha mãe e minha irmã, ficamos os quatro assistindo televisão... Isso foi por dois finais de semana. Minha irmã e minha mãe iam para o quarto cedo e daí ficávamos somente eu e ele nos abraçando e tudo o mais... Um super clima... Até que ele falou que queria casar um dia comigo e ter muitos filhos, que nossos filhos iam ser lindos, que eu seria a mãe mais linda deste mundo e que estava começando a juntar dinheiro para construir uma "meia- água para a gente"...

Era tudo o que eu sempre quis ouvir... e de um homem maravilhoso que me tratava como uma princesa. Mas ele estava enganado. Eu não poderia dar os filhos que ele tanto queria, ser a esposa ideal que ele sonhava e projetava em minha pessoa. Me senti mal por não poder ser essa pessoa... e por achar que eu estava enganando ele...

No dia seguinte... quando ele me ligou dizendo que havia sonhado comigo... nem esperei ele terminar de contar seus sonhos... e falei: Márcio, preciso te falar uma coisa: meu nome não é Maite, é Alexandre e eu nasci homem.

Houve um silêncio de segundos que pareciam horas intermináveis...

Depois do silêncio, o toque do telefone desligado... Durante mais de uma semana o telefone não tocou. Eu não desgrudava do lado do telefone, almoçava com a mão no gancho do telefone... e nada. Nunca era ele...

Já estava perdendo as esperanças quando, depois de uma semana, toca o telefone e era ele... Na hora, quem emudeceu fui eu... Eu não sabia o que dizer, o que falar... Somente meu coração falava em silêncio com o dele eu acho. Nesse mesmo momento em que eu pensava no que dizer, Márcio me convida para ir jantar [dizendo] que estava morrendo de saudades de mim.

Saímos, conversamos, fomos ao cinema e depois jantar... Conversamos mais e mais... a noite toda... Ele falou que sofreu muuiito, mas que ele sempre me veria como mulher... Que filhos não eram importantes, se ele não poderia tê-los com a mulher que sempre quis ter... E que era eu... isso mesmo: euzinha...: ))))

S.: Isso já aconteceu com você outras vezes, de te confundirem com uma mulher?

M.S.: Acontece sim, embora eu não goste. Prefiro que as pessoas saibam que sou uma mulher com experiência transexual... me sinto melhor...

Não que eu ande com uma placa no pescoço avisando a todos de minha condiçao, mas quando me interesso por um homem e sinto que houve recíproca... pergunto logo se ele se importa de eu ter nascido homem... E daí começo a contar minha história...

Isso se ele não caiu de costas ou me chamou de viadão e foi embora....: )))) Acontece de tudo..: )))

 

 

Família

S.: Você teve um grande incentivo de seu pai. Comente um pouco sobre ele e como ele te ajudou?

M.S.: Sim... : ) Até hoje meu pai é presente em minha vida. É o meu exemplo de vida. Quando imagino um ideal de ser humano para minha vida imagino o meu pai... Não imagino uma mulher, um sexo, mas meu pai.

Dentro todos os ensinamentos que tive com meu pai... e olha que não poucos ... e que continuo aprendendo hoje, o que mais marcou e que trago marcado em meu coração para sempre lembrar, é que meu pai conseguiu me mostrar na prática o que eu somente conhecia na teoria.

Meu pai mostrou para mim o que livros já haviam relatado, o que pessoas já haviam dito que sentiam, o que palavras já disseram aos ventos que passavam... Meu pai me ensinou na prática o que é o amor... E creio que este é o maior ensinamento e presente que um pai pode dar a um filho(a). Ele não disse que me amava somente, ele me mostrou o que é amor, que ele existe... E isso foi muuuiiiito mágico em minha vida...

S: Você acha que um dos fatores da marginalização daquelas pessoas que se sentem melhor em outro gênero é decorrente da falta de apoio da família?

M.S.: Sem dúvida nenhuma. Para mim, a família é o ingrediente principal para a conquista da felicidade de alguém. A família é nosso porto seguro, para onde podemos voltar sempre, haja o que houver... Não conheço ninguém que seja bem estruturado se não se dá com sua família, ou não desenvolve um relacionamento satisfatório de troca com ela... Quem, em algum momento, tem esse elo (família) interrompido de maneira brusca, fica sensibilizado e vai trazer essas marcas para sua vida.

  A família, ao "rejeitar" ou "não aceitar" o seu filho ou filha, coloca de maneira muito forte e negativa essa marca na vida dessa pessoa. É uma marca que nunca será apagada. E lembrem-se que um relacionamento, seja ele qual for, é como café: pode ser requentado, mas não tem o mesmo sabor do original...

Lógico que muitos atritos podem surgir do relacionamento com a família... Isso é mais que normal... Os relacionamentos unem pessoas diferentes e suas diferenças, e a família ainda traz em seu bojo as aspirações, desejos ou sonhos que ela tinha para você, desde o seu nascimento... Então, os choques são mais que freqüentes e comuns.

É para isso que se faz necessário o diálogo, e não a imposição de idéias. Um retrato de família é lindo, mas uma vida em família com harmonia é muuiiiiito mais lindo e importante, sem dúvida nenhuma.

Lide sempre, e eu disse sempre mesmo... com a verdade... Sei que muitas vezes é difícil. Eu muitas vezes também usei o joguinho do "finge que eu não sou, e vocês fingem que não sabem"... [Isso] desestrutura a união entre familiares... pois eles se sentem "traídos" de alguma maneira quando "descobrem" o que já sabiam.

Enfrentar de frente e sem meias verdades é o caminho para a aceitação na família... ou, no mínimo, para que haja um respeito [para com] sua pessoa sobre qualquer assunto... e também sobre sua sexualidade. Pense nisso...

 

 

Internet

S.: Como nasceu a idéia de fazer uma homepage?

M.S.: A idéia de fazer uma homepage foi para mostrar para o maior número possível de pessoas... e dos mais variados tipos... que eu, Maite... um transgênero... um transexual, um travesti, um gay, uma lésbica, um veado, ou seja lá como queiram me chamar ou denominar, era uma pessoa comum... Com família, amigos e amigas, estudos, problemas, dificuldades, alegrias...(que bom que são muuiiitas..: ))))e tudo de "normal" numa pessoa.

Eu tinha a intenção de mostrar que eu não era o que a maioria achava que era... Todos já tinham e ainda têm protótipos do "ser diferente"... Mas tenho que te comunicar que nem sempre esses estereótipos são verdadeiros... Desculpe, aqui, exterminar com uma certeza sua...

As pessoas são diferentes sim... [não dá para] generalizar. Isso não é direito de ninguém... Para os que tanto gostam de usar termos bíblicos, por que não usam as maiores verdades de cristo... 1- de que somos imagem e semelhança de nosso senhor. 2- amar aos outros como a si mesmo. ... se têm ensinamentos para serem seguidos? Esses são os principais e os mais esquecidos [ensinamentos] para os "inquisidores" de plantão.

Com o tempo, a homepage foi crescendo e fui sentindo a necessidade das pessoas, através dos inúmeros contatos e emails que eu recebia diariamente. Eu fui sentindo na pele mesmo... as dúvidas mais freqüentes... fui conhecendo os desejos e sonhos mais íntimos de quem me procurava, me aprofundando mais e mais... e acrescentando cada vez mais coisas.

A homepage Maite Schneider hoje em dia é visitada por muita gente mesmo, que usa a página para referência, entretenimento, solucionar dúvidas ou para ter uma amiga... ou seja, euzinha..: ))))) básicaaaa..: ))) sempre rindo, porque assim é o meu jeitinho mesmo....: )))))

Antes era um público específico, interessado em assuntos de travestismo e transexualismo, que procurava com mais freqüência o meu site. Isso também é uma coisa que me deixa muito feliz.

 

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Hoje o público que acessa a hp é muito variado e eclético. Tem o pessoal glts, tem interessados em sexualidade humana (mesmo que digam que somos aberrações...: ))))), tem senhoras um pouco mais velhas que procuram para ajudar a apoiar seus netos e netas no entendimento da sexualidade, tem maes preocupadas em ajudar seus filhos amados... tem adolescentes que estão experimentando na teoria sua descoberta da sexualidade... Enfim, é tanta gente diferente... Eu fico muuiito contente por conseguir atingir essa diversidade que eu sempre quis... e jamais imaginei conquistar.

No espaço que chamo de minha homepage... mas onde eu não sou mais o foco de atenção... estou conseguindo criar um mundo com o qual sempre sonhei: um mundo sem limites e fronteiras, com horizontes e perspectivas. Estou muitoo feliz e realizada com esse trabalho, que para mim é um prazer mesmo.

S.: Você participa de diversas listas na Internet?

M.S.: Sim, participo de muuuiiitas listas... sou "list- maníaca". Vivo criando vocabulários ehehehe...: ))))) Adorooooo participar de listas de discussão das mais variadas -- gays, trans, judeus, poesias, cotidiano, informática -- devido à diversidade das pessoas que constituem uma lista e também das idéias que são ali emitidas. Eu posso perceber com clareza a maravilha que é este mundão aí fora... Eu vejo como o ser humano é grande em sua essência... e o quanto maior ele pode se tornar...

Se você ainda não participou de uma dessas listas, participe mesmo... Nem que seja para ficar "urubuservando"....: )))) Você vai ver que vai refrescar suas idéias e certos pontos de vista seus que o impedem de avançar.

Eu tenho certeza de que você não conseguirá ficar quietinho somente lendo as mensagens... e, logo, logo, vai descobrir mais do que conhecimentos... vai descobrir amigos...: ))))

 

 

Religião

S: Como é a sua religiosidade? quais são suas crenças?

M.S.: Eu sou católica, batizada e crismada... mas o que acredito mesmo é num deus vivo que está um pouquinho dentro de cada um. Acredito nesse ser de luz superior... que ilumina e aquece todos os seus filhos...

Rezo todos os dias, mas minhas "rezas" não são esses discursos prontos... Até os faço... quando vou na igreja... mas na minha "reza" diária eu converso com deus... Sou filha dele e tenho certeza de seu amor por mim.

 

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Devido a essa certeza sou uma pessoa muito simplista e sem nove horas... Sou guiada pelo amor ao próximo e a mim mesma... Portanto, se me faz bem e não prejudica outra pessoa... sigo em frente... com a certeza de ser feliz e escolher o caminho certo.

Para mim, deus está em tudo, sim, mas principalmente dentro da gente, do nosso coração... Se assim não for, não faz sentido toda essa história de religião ou religiosidade.

 

 

Justiça

S.: Recentemente você entrou na justiça contra uma casa noturna que impediu a entrada de suas amigas. Conte um pouco mais sobre o caso.

M.S.: É um caso que vem de longa data. Aconteceu em novembro de 1999, numa casa noturna de estilo country, chamada vaqueiro, que proibiu a entrada de amigas minhas. Era um lugar que eu já tinha freqüentado, [mas] foram barradas, com ticket de entrada na mão, e não havia nada que desabonasse a conduta delas nesse referido bar. Elas estavam bem trajadas, sem partes íntimas à mostra, não eram usuárias de drogas e nunca haviam aprontado lá dentro.

Os seguranças foram grossos e estúpidos... usando até de violência física... Todas elas foram alvo de chacota da imensa fila que estava do lado de fora esperando para entrar... bom... você já pode imaginar o tamanho do "king kong", não é mesmo?

Fui imediatamente com elas ao distrito da região para formalizar uma queixa, pois fiquei extremamente revoltada com tal situação de cerceamento de um direito meu de ir e vir, em plena cidade modelo do país.

Não se podia fazer um b.o. [porque não podiam] enquadrar o crime que eu delatava naquele momento ao delegado plantonista. Certas normas constitucionais não se aplicam em casos específicos... Temos uma constituição lindíssima, mas que necessitava de leis e mais leis complementares para funcionar... uma contradição mesmo...

Consegui uma advogada, que se tornou minha amiga, que se indignou com o fato, a Dra. Monica Buy, e entramos com uma representação na delegacia.

Daí até conseguirem intimar o proprietário da casa, o seu Odilon Sthepes, foram mais cinco meses... Fomos para o tribunal de pequenas causas... onde o referido proprietário compareceu somente na terceira audiência, não comparecendo nem ele, nem seu advogado em sessões anteriores que haviam sido marcadas.

Até que no dia 5 de julho de 2000... oito meses após a instauração do processo e do fato ocorrido, ficou-se estipulado um acordo entre as partes... com um pedido formal e por escrito do proprietário do estabelecimento... em que ele reconhecia o erro de seus funcionários... e o seu próprio, por não dar instruções de como tratar as pessoas decentemente.

Ficou estipulado também que o proprietário, reconhecendo os excessos de seus funcionários, oferece os serviços de sua casa e assegura que tais incidentes não mais acontecerão... Se for infringido uma destas condições... o proprietário e a casa sofrerão as devidas penalidades...

 

 

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Homologaram esse acordo o juiz de direito Dr. José Laurindo de Souza Neto e o promotor de justiça, Dr. Luiz do Amaral.

Como não há lei específica... e mesmo esse acordo não servindo de jurisprudência... é um caso à parte e inédito na justiça curitibana... haja visto que até os dias de hoje não há nada sentenciado e nem acordado nesse sentido...

Creio inclusive que meu caso possa ser usado como respaldo e embasamento em casos futuros de mesma natureza...

Mesmo com a demora do processo... e a morosidade de nossa justiça... o que eu tirei disso tudo... é que a luta nossa é constante... Mas que os direitos existem sim... e para que eles sejam respeitados é necessário somente que não baixemos as nossa cabeças e que tenhamos um pouquinho de paciência... porque que é lerdo.. é lerdo... Mas que funciona, de vez em quando, funciona sim...: ))))

S.: Como surgiu o grupo Instituto Paranaense 28 de junho de Conscientização e Direitos Humanos do qual você poderá vir a ser a vice-presidente? Quais as primeiras metas e projetos?

M.S.: O cargo de vice presidente já foi aceito sim... com muuito prazer, digo de passagem... acho que vocês aqui são os primeiro que estão recebendo a novidade...

Acabo de acertar os detalhes sobre o estatuto do Instituto Paranaense 28 de junho, que está sendo carinhosamente denominado de " INPAR 28/06".

A finalidade e o objetivo do instituto que se forma sob a presidência de Roberto Kaiser e mais uma equipe muito competente ... inclusive euzinha aqui....: )))) é a luta e a conscientização dos direitos humanos... Nossa luta não é somente ajudar juridicamente, socialmente, moralmente e em todos os sentidos que se façam necessários... como [também] patrocinar campanhas no sentido de que danos futuros não venham a acontecer novamente... é formar uma consciência mesmo na prática... não somente na teoria.

Direitos humanos aqui entendidos como direitos do ser humano... portanto o direito de todos. sem distinção mesmo... seguindo aqui o critério que já mencionei acima... de não rotular ninguém e não tipificar pessoa nenhuma...

Estaremos também engajados em campanhas mútuas com grupos atuantes nas diversas áreas que se relacionam com nosso objetivo... e também atuaremos com o trabalho da erradicação e transmissão de conhecimento e informação sobre DST/AIDS.

 

 

Dicas

S.: Que dicas que você daria para os usuários do Supersite?

M.S.: Hummmmm, eu adororro dicassss.....: ))) Principalmente quando é de bolo, pois gosto muuuito de limpar o restinho que fica no fundo...: ))))

Mas dicas de vida... olhem bem gentem... falarei de dicas gerais.. pois dicas específicas podem servir para mim... e podem não ser de utilidade para vocês... cada ser humano é único e exclusivo e não há dicas que englobem a todos. Portanto, aqui vão dicas que eu acho valiosas:

1- Seja você mesmo... sempre... Seja autêntico, sincero e sempre use a verdade... por mais que ache a mentira é o melhor caminho. Nunca é.

2 - Seja egoísta... Pense sempre em você em primeiro lugar... Somente estando bem consigo mesmo é que se consegue fazer algum bem para outro alguém que se quer bem.

3 - Sorria muuiiiito... Problemas todos temos... tenha certeza disso. O que diferencia uma pessoa feliz e realizada de uma pessoa triste e frustada é a maneira positiva com que a primeira delas resolve os seus problemas. Use seus problemas como trampolim para uma piscina deliciosa que o espera em dia de calor... e na pior das hipóteses... se tiver jacaré dentro da água... esteja preparada para a batalha... pode ser que o prato do dia seja o teu próprio problema.

 

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4 - Não se importe com o comentário alheio... Todo mundo sempre vai estar falando mal de alguem ou de alguma coisa.. é natural do povo subdesenvolvido... ( e que infelizmente é a maioria que diz que pensa em nosso país). Se importe com o que pensam as pessoas que gostam de você e que te conhecem... no mais... aquela história... entra por um ouvido.. sai pelo outro....: )))

5 - Acredite em você e no seu potencial de ser feliz... Basta conversar com você mesmo e saber onde está sua felicidade... Não coloque por isso sua felicidade nas mão de uma pessoa... ou nos braços de alguma coisa... a pessoa pode partir... a coisa pode se perder... e daí????: )))) Sua felicidade somente você sabe... mas está dentro de você....: ))))

6 - Em último lugar, viva e deixe viver... pois nesta vida, ninguém fica para semente... a não ser através de atitudes... e ações concretas em prol de um mundo melhor e mais humano.

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1 + 2 =
Resolva a simples operação matemática de soma acima e coloque o resultado. Por exemplo 1+ 3, digite 4