Uma vida de luta contra o preconceito - Jornal Folha de Londrina - 19-10-2007

Conheça a história da Maite Schneider, de 34 anos, que nasceu Alexandre e, há um ano, fez cirurgia para mudar de sexo

José Suassuna
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Maite Schneider: ‘‘Já aconteceu de estar andando na rua e jogarem saco de lixo nas minhas costas, de me jogarem ovo, de apanhar na rua, as pessoas são cruéis’’
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Quem olha para Maite Schneider, de 34 anos, não imagina quanta história existe por trás do seu rosto bonito. Maite, na verdade, nasceu Alexandre, filho do meio de uma família de classe média curitibana, mas que desde pequeno nunca sentiu-se ''menino como o irmão mais velho'', preferindo juntar-se às brincadeiras de casinha e boneca com sua irmã. Era um transexual, ou seja, nasceu com as características físicas de homem mas se sentia e queria ser identificada por todos como uma mulher.

Na Curitiba dos anos 80, não foi fácil vencer os preconceitos dessa situação, seja no colégio, nas ruas e junto à família, o que lhe rendeu 10 anos sem falar com a mãe. Na luta para ser mulher, usou muito hormônio, quase morreu ao tentar sozinha extrair seus testículos, até que, há um ano, fez a cirurgia para mudança de sexo.

Hoje ela está feliz. Tem um site na internet (www.casademaite.com), possui uma clínica de estética masculina, namora, faz teatro, virou tema de um documentário e, principalmente, atua em ONGs de defesa dos direitos humanos e da comunidade transgênero, onde organiza, todo ano, a parada da diversidade de Curitiba.

Folha de Londrina - Como foi a tua infância?

Maite Schneider - Quando criança, foi tranquilo. As brincadeiras eram bem parecidas, de esconde-esconde, jogar caçador no meio da rua, não tinha diferenciações. O problema começou quando entrou a sexualidade, lá por 12, 13 anos, quando todo mundo começou a aparecer com a primeira namoradinha e eu sem a mínima vontade.

Folha - No colégio você teve problemas?

Maite - Uma vez no recreio, os meninos fizeram uma rodinha em volta de mim e começaram a dizer: mariquinha, mariquinha, e batendo palmas. E eu achando que isso era um título. No fim do dia, meu pai sempre perguntava como foi nosso dia. Eu, toda feliz, contei para ele. Ficou aquele silêncio mórbido no carro. Depois em casa, ele me explicou o que era e disse: não dá mais para deixar esse menino usar esse tipo de roupa, tem que cortar o cabelo. A partir desse dia não quis mais amizade, não quis mais sair para o recreio, não fiz mais educação física, e foi assim até o final do científico. Entrei no judô, no escotismo e vi que se não quisesse mais ser judiada pelas pessoas, tinha que imitar meu irmão. Aos 16 anos, comecei uma carreira como modelo, e daí eu tive que decidir sobre minha vida, porque surgiu um convite para eu desfilar no Japão, e nessa época eu também fui na primeira boate gay de Curitiba, o Época.

Folha - Como foi a experiência de entrar no mundo gay?

Maite - Eu fui morrendo de medo de entrar, fiquei dois meses só na frente, até que entrei. Lá, fiquei assustada no começo, mas por sorte ou azar, encontrei uma amiga do meu irmão, que contou para ele, que contou para meu pai. De novo nós conversamos, e ele me perguntou se eu topava ir a um psiquiatra, não para me mudar, mas para ele poder entender. Fomos em uma psicóloga, que explicou que era uma disfunção, que eu nasci assim, que não tinha como mudar minha estrutura cerebral e disse que o único jeito era a cirurgia, para adequar meu corpo. Daí meu pai viu que não era uma sem-vergonhice minha, que tinha uma coisa médica por trás e que a gente devia procurar ver isso.

Folha - E a relação com a tua mãe?

Maite - A partir daí nossa relação começou a ficar insuportável. Meu pai acabou alugando um lugar para mim, mas ele me fez prometer duas coisas: para não me prostituir e não usar drogas. Ele também disse que eu teria que seguir as mesmas regras que a minha irmã, que eram bem diferentes das do meu irmão. Daí voltei a fazer faculdade, ele fez um plano de saúde para mim para ir a um médico e começar a tomar hormônios.

Folha - E o resto da tua família, como reagiu?

Maite - A família caiu matando meu pai, sem entender como é que ele apoiava uma sem-vergonhice dessas, minha mãe se sentindo culpada. Eu fiquei sem falar com ela dez anos. Nessa época comecei a trabalhar com militância, em ONGs de direitos humanos, a promover a parada da diversidade em Curitiba, comecei a trabalhar com teatro e com o meu site na internet. Foi aí que minha mãe me procurou. Depois vi que foi imaturidade dos dois lados, eu também devia ter tentado me aproximar dela, até que consegui perdoar de coração. Hoje nós nos damos super bem.

Folha - E quando você decidiu fazer a cirurgia de mudança de sexo?

Maite - Eu sempre queria fazer, tinha um laudo médico, mas era muito caro. A cirurgia e remédios sairia uns R$ 50 mil. Nessa época comecei a ter problema com hormônios, de tireóide, tive início de trombose. Eu não queria reduzir porque não queria perder as caraterísticas físicas femininas. O jeito era fazer a cirurgia, tirar os testículos que produzem a testosterona. Decidi fazer sozinha. Estudei na internet como tirar, comprei bisturi, anestesia, soro, antes pedi a um amigo que me ligasse em 40 minutos, se eu não atendesse, que ele fosse até minha casa. Me entupi de anestesia, fiz o primeiro corte, quando fiz o segundo, desmaiei. Quando acordei já estava lá na Santa Casa toda suturada. Lógico que não me dei por satisfeita, falei com uma amiga que tinha tirado os testículos, e fui com ela em uma clínica no Paraguai. Fiz, mas deu tudo errado, tive início de infecção generalizada. Até que uma médica urologista daqui me ajudou, internou, abriu e viu que estava tudo errado. Depois de um ano eu estava inteira de novo. Foi aí que fui atrás da cirurgia. Um médico de São José do Rio Preto (SP) disse que só cobraria a parte hospitalar, que dava R$ 10 mil. Como eu não tinha dinheiro, fiz uma campanha pela internet. Fiquei um ano juntando o dinheiro de doações.

Folha - Você acha que a sociedade é muito preconceituosa?

Maite - Naquela época era muito mais difícil, hoje é mais fácil. Já aconteceu de estar andando na rua e jogarem saco de lixo nas minhas costas, de me jogarem ovo, de apanhar na rua, as pessoas são cruéis. Hoje tem gente que xinga, as pessoas fazem piadinha, mas é muito mais subjetivo, não tem mais a violência física porque as pessoas sabem que tem uma sanção para isso, mesmo que seja tardia. Antes, se você morrese, era enterrado como indigente, hoje tem um grupo de direitos humanos que vai cobrar que os asassinos sejam punidos, que alguma coisa seja feita.

Maigue Gueths
Equipe da Folha

 

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Meu nome é Leonardo,

Meu nome é Leonardo, Venho aconpanhando seu caso a muito tempo,
e gostaria de saber se realmente ,ja conseguiste fazer a cirurgia de troca
ou só passaste pela castração.

Um abraço de um grande admirador de sua luta.

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