A solidão da vida privada

# Adolar Gangorra,

justobrasil@hotmail.com

Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo

Está mais do que provado que o homem é um ser puramente social. Não vive sozinho nem à cacete. Por isso foi adaptando todas as suas necessidades ao coletivo. Pode-se nascer, crescer, comer, dormir, se reproduzir e até morrer com, pelo menos, alguém do lado. Entretanto, existe uma atividade fundamental que foi arrancada do testemunho do grupo. Condenada a um exílio eterno e sem direito a julgamento. Refiro-me, com pesar, ao solitário ato defecativo, o famoso "fazer cocô", este injustiçado eremita do destino.
O "cocô diário" é imprescindível para a boa saúde do organismo, porém é tratado como uma vergonhosa anomalia biológica. Todo mundo faz, mas ninguém admite: "desculpe professor, cheguei atrasado hoje porque estava cagando em casa!" Esta frase não passa de uma utopia maravilhosa, porque a sociedade resolveu omitir o cagar por ainda não estar preparada para entender sua grandeza e importância.
Por que somos obrigados a fazer cocô sozinhos? Ninguém sabe realmente. A desculpa esfarrapada que cagar é nojento e repugnante não convence nem o mais ingênuo dos mortais. Certos programas de televisão que estão por aí são muito mais repulsivos. A verdade é que se o ser humano tivesse se habituado a obrar na frente do seu semelhante teria desenvolvido enormemente a virtude da tolerância e hoje não teríamos conflitos de nenhuma espécie; brancos abraçariam negros, judeus rezariam com árabes, palmeirenses incentivariam corinthianos, genros odiariam sogras e vice-versa.
Porque ao cagar e ver cagar, o homem se humanizaria. Aceitaria melhor o íntimo alheio. Não idealizaria a perfeição e assim seria incapaz de exigi-la do seu próximo. Ali, agachado com as mãos na barriga e com a testa franzida, o indivíduo é apenas mais um cagão, desprovido de vontades, status, quimeras e paixões. É somente e tão somente um manso de espírito, de mente e reto abertos para o Universo.
A todo momento a sociedade tenta desesperadamente esquecer que todos os seus 6,5 bilhões de membros fazem cocô todo santo dia... e como fazem! É lei imutável da Natureza. Porém, tudo é arranjado para que nem você se lembre de defecar: " O que? Deve estar havendo algum engano. Eu não faço este tipo de coisa!" , ou então: "Quem? Eu? Sinceramente, Fontana, eu nunca fiz um bostolete na vida!"
A família, A Igreja, o Exército, a publicidade, todos teimam em ignorar o resultado da digestão custe o que custar. Ninguém gosta de imaginar a Xuxa fazendo uma força dos diabos na privada, só que a verdade nua e crua é que é que a rainha dos baixinhos também estrangula o moreno todo o dia no seu "trono". Cindy Crawford? Linda...sexy...perfeita.... demite o tolentino assim que lhe dão uma chance! Bruna Lombardi? É só assistir o seu programa para notar a sua enorme intimidade com a arte de pintar a louça de marrom. Kim Bassinger? Caga. Gisele Bundchen?
Também caga. Sharon Stone? Faz mais cocô do que eu e você juntos! Até os objetos relativos ao universo merdal tentam inutilmente fantasiar a realidade. Veja só: vaso sanitário, toalete, papel higiênico, banheiro, etc. Banheiro? Como se o banho fosse a coisa mais importante a ser feita nesse aposento! Banheiro, uma conversa! O nome certo deveria ser "cagueiro"!
Infelizmente, um retrato da farsa em que vivemos pode ser encontrado num famoso verso popular que diz: " Quando cago, sinto uma solidão profunda. A bosta bate na água e a água bate na bunda." Um dia, talvez, poderemos ler em uma prosaica parede de banheiro (ou cagueiro): " Quando cago, me sinto aliviado pois posso conversar com esse cagão aqui do meu lado."

 

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido publicamente.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Linhas e parágrafos quebram automaticamente.

Mais informações sobre opções de formatação

ANTISPAM
Usamos este sistema para evitar spam dentro do Casa da Maite.
3 + 9 =
Resolva a simples operação matemática de soma acima e coloque o resultado. Por exemplo 1+ 3, digite 4