O encontro com o outro

Autor : Cleider Ambrósio Rodrigues

O ser humano não é uma ilha; haja visto que não consegue viver rodeado pela solidão. Todos necessitam de alguém: um amigo, um familiar, um namorado... enfim, alguém com quem possa contar em todos os momentos. Mas então o que é realmente o encontro com o outro? É conviver ao lado de inúmeras pessoas? Será que a simples presença física do outro significa um encontro? É comum as pessoas se queixarem de solidão e não serem compreendidas por estarem sempre “numerosamente” acompanhadas.

O fato é que o verdadeiro encontro é algo de muito profundo, e sua “construção” passa por algumas etapas. Desejando encontrar alguém, primeiramente tenho que me encontrar. Mas é aqui, logo na primeira etapa, que ocorre o maior conflito. Também é daqui que surgirão os novos fatos que vão variar de acordo com esta base. Entretanto como é árdua, dolorosa e difícil a busca por nós mesmos. Não é fácil aceitar nosso conteúdo interior. Mas esta aceitação (e também obviamente o conhecimento) de nossa verdadeira essência é que possibilitará o encontro com o outro. É muito importante este reconhecimento interior, pois assim haverá o esclarecimento de quais os pontos doloridos, aqueles que precisam ser trabalhados, os que podem ser oferecidos... enfim a análise do todo fará com que se “cheque” à conclusão de qual encontro é compatível com esta estrutura existente. Assim será possível a escolha, a orientação e o direcionamento para o outro. A busca do outro só pode ser iniciada após o encontro com o eu. Após o que já foi dito faz-se necessário reforçar que: se não conheço o eu, como saberei o que este eu espera do outro? E que tipo de encontro este eu espera realizar?

Além disto, a partir do momento que existe a comunhão com o interior, o exterior fica mais chamativo, mais atraente. O encontro com o outro é algo fantástico. Quem experimenta tal situação pode relatar quão maravilhoso o é. Existe algo melhor do que ter amigos? Dois amigos se encontram quando juntos, sem darem uma palavra um sabe o que o outro está sentindo; se encontram quando um simples gesto, como um sorriso, um olhar ou um abraço é capaz de destruir uma angústia que esmaga o peito; se encontram quando sabem se ouvir sem precisar de palavras. “A intimidade do outro é um templo onde se deve entrar de joelhos.” Madre Cristina (fundadora da primeira clínica de psicologia do Brasil) foi muito sábia ao elaborar este pensamento. Neste está contida a verdadeira essência do encontro com o outro. É bem verdade que só entramos neste templo quando suas portas são abertas para nós. E se isso ocorrer é porque o outro nos julga dignos de conhecer seu interior.

Assim, devemos nos revestir de um profundo respeito e humildade antes de penetrá-lo. E ao receber este convite, seria interessante que a retribuição fossem em mesmo nível para que as duas essências se “misturem” e se conheçam, realizando assim, o encontro. Um casal de namorados que vive somente aos agarros não realizou o encontro. As carícias físicas possuem o seu valor, mas as carícias da alma são mais importantes. Muito maior do que o prazer de se sentir amado, é amar. Amar...ninguém ama aquilo que não conhece. Assim podemos dizer que amor e encontro estão intimamente ligados. Ambos possuem a característica da troca: dar e receber. Como é gostoso sentir o coração acelerado e as pernas tremendo pelo simples fato de ouvir a voz do grande amor ao telefone. Esse calafrio não é causado por qualquer um; mas somente por alguém que tenha o dom de entrar delicadamente em nosso íntimo e nos fazer uma massagem no ego capaz de nos tornar mais feliz do mundo. Num casal de namorados que houve o encontro, ambos sentem a presença do outro mesmo quando geograficamente estão a quilômetros de distância. Após ocorrer o encontro, dificilmente ocorrerá o desencontro.

Ninguém quer abrir mão de uma relação gostosa, que alimenta o espírito e faz crescer. É que o outro também exerce esta função, de nos fazer desenvolver e melhorar como pessoa. Assim, muito mais do que palavras, o encontro é uma sensação, uma convivência... algo que somente quem viveu e/ou vive sabe “avaliar” seu significado. Por mais que se tente definir certos acontecimentos, nunca haverá um relato objetivo e cem por cento fiel do que são na realidade. Assim como “só entende” realmente a profundidade desse texto aquele que realizou o encontro com o outro.

 

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