Cuidado com as pessoas na Internet

Por Fabrício Viana*


Neste momento estou em casa, na cobertura do apartamento onde moro, no centro de São Paulo. Claro, não é bem no centro mas pelo menos daqui de cima dá para ter uma boa visão da cidade.

Olho pra frente e vejo a Câmara Municipal de São Paulo, para meu lado e vejo toda a parte de trás do Edifício Copam, do outro, consigo ver ainda as antenas de TV da Avenida Paulista. Mas não só isso, o que mais me impressiona daqui de cima são as centenas de prédios e as MILHARES de janelas que posso ver nesta visão quase que "privilegiada". Alguns amigos já subiram aqui, tem uma piscina ótima, pena que o apto não seja meu mas, que a visão é muito boa, sim, isso é indiscutível e todos concordam.

Ao se olhar para estas milhares de janelas é inútil tentar não pensar em quantas pessoas vivem nelas. Quantas famílias, quantos pais, quantos filhos, quantas situações, quantas dinâmicas de vida diferentes podemos encontrar em cada prédio, em cada lugar, em cada janelinha minúscula que se encontra diante dos meus olhos. Muita gente e, cada uma, de seu modo, tentando viver (algumas simplesmente "sobreviver") da sua maneira, com seu caráter, com suas regras, com sua saúde, doença, problemas, desejos e todo o resto.

É, meus amigos e amigas, o mundo é grande. Se não consigo contar apenas o que vejo da cobertura do meu prédio, imagine o que tem além dele? E isso no mundo "real". Imagine também na Internet. Você já parou para se perguntar quantas pessoas existem e estão on-line, por exemplo, neste momento? Calma, não pensem em números, estamos tão bitolados que só pensamos em "métricas", pense nas PESSOAS. Afinal, lembro-me o que Luiz Edmundo juntamente com Ulisses Tavares (este, fui descobrir que eu o conhecia a muito mais tempo que imaginava) disse em sua palestra, "a Internet não é uma rede de computadores conectados e sim uma rede de PESSOAS conectadas". Logo, pense nas PESSOAS. Imaginem quantas pessoas acessam a rede, quantas divulgam seu nome verdadeiro num bate-papo, quantas tem uma boa família, quantas tiveram boa educação, quantas são viciadas em drogas, quantas são confiáveis, quantas são o que dizem ser? E por ai vai indo. Só quero instigar você, nobre leitor, de que a vida não é um mar de rosas e que as pessoas, ao contrário do que se pensa, nem sempre tem uma ótima sanidade mental. Eu, com meus 6 anos de Internet, mais dois anos de BBS, total de quase 8 anos de "vida paralela digital" onde conheci inúmeras pessoas, dos mais variados tipos, para os mais variados gostos, posso muito bem advertir NAO CONFIE EM QUALQUER PESSOA QUE ENCONTRE NA INTERNET.

Um dos primeiros casos absurdos das minhas "andanças" pela rede aconteceu mais ou menos no inicio de 1995, época em que tinha 17 anos de idade e estava cursando o primeiro ano da faculdade de psicologia.

Participava muito da Comet BBS, uma pequena BBS de São Paulo onde todos os dias me conectava para conversar e trocar idéias com varias pessoas. Mas não só isso, sempre tive o impulso de coordenar tudo, promovia encontros reais/mensais e sempre chamava todos os novos usuários para participarem. Lembro-me que, em uma noite, comecei a conversar com um tal de R.M. (por ética não citarei seu nome) e trocando algumas mensagens e o convidando para participar dos encontros da BBS ele me disse "Desculpe mas não posso, mas preciso conversar sério contigo". Eu, com o espírito cristão de sempre "ajudar o próximo" e, naquela época, tinha muito disso, segui em frente. Ele então me disse que gostaria de conversar pessoalmente e que estava precisando de um amigo. Achei estranho, mas avisei meus pais sobre e me dirigi ao seu encontro, numa tarde de semana, no meio da Avenida Paulista. Lembro que o encontrei próximo ao metrô e nos dirigimos para uma das galerias próximas. Assim que se sentiu confiante contou sua história. Disse que a um bom tempo pegou sua mulher com outro na cama, que a situação tinha sido horrível e que, passando um certo tempo, após o divórcio, ela teria falecido por ter contraído HIV. Me disse que ficou muito assustado e que foi ao medico. Lá, foi examinado e que como o médico não poderia dar o resultado para seus familiares, seria para ele mesmo. O médico então comunicou que ele não tinha HIV, mas era portador de uma terrível doença rara e que teria apenas 3 meses de vida, no máximo.

Nesta hora fiquei pasmo. O que eu, um garoto de 17 anos, no primeiro ano de psicologia poderia fazer com um rapaz de 25 anos que não conhecia e que tinha apenas 3 meses de vida? Fiquei imóvel. Mesmo sendo católico (herdado de família) nem a deus recorri nesta hora, se bem que nunca fui tão religioso assim, participava apenas porque gostava da vivência em grupos, ajudas comunitárias, etc, hoje sou uma pessoa 100% ateu, mas isso é outro assunto para outra história. Voltando no caso do R.M., disse para ele algumas coisas como, bem, aproveita o tempo que você ainda tem e faz tudo o que tem direito de fazer, viva o que pode viver, não perca tempo. Já que o remédio para esta doença é absurdamente caro, como falou, aproveita e curte a vida. Simples. É horrível, mas é a única coisa que posso dizer agora.

Quando disse isso, notei algo estranho nele. Ficou olhando para o vazio durante alguns minutos e não falou nada, simulando (hoje eu tenho certeza) alguns ataques "convulsivos". Em seguida disse que ia embora e que tinha sido um erro ter me encontrado. Eu, que estava confuso, fiquei mais ainda com a situação e fui embora também. Cheguei em casa e contei detalhadamente todo o ocorrido para minha mãe e irmão, que ficaram bastante apreensivos.

No outro dia, em casa, recebi uma mensagem estranha dele agradecendo minha ida e que ele, por não ter família, estaria me colocando em seu testamento, pois ia se matar em breve. Na mesma hora respondi para que não o fizesse. Não se matasse e que colocasse alguma instituição de caridade no testamento.

Mostrei o e-mail para meus pais, nesta altura, toda minha família já estava a par dos detalhes desta "confusão". R.M., após esta ultima mensagem, não parou de nos incomodar. Sim, não era apenas eu, agora, minha família inteira estava envolvida. Lembro-me que ele nos ligava com freqüência dizendo que ia se matar. Ele em um lado da linha e eu, minha mãe e meu irmão no outro dizendo para ele não se matar. Lembro que minha mãe conversava muito com ele - e isso durou insuportáveis semanas. Depois de um tempo, abri o jogo na Comet BBS - como todos me conheciam - sobre este caso, que havia um amigo com pouco tempo de vida querendo se matar. Neste momento a Pérola (nickname), uma das figuras mais misteriosas da Comet, que sabia ser antropóloga da USP e que não dara seu telefone pessoal para ninguém, me manda uma mensagem com seu fone e o dizer "me liga urgente!". Bem, foi o que fiz. Quando atendeu, disse, Fabrício, sei de quem você esta falando, é do R.M. não é? Eu disse sim, como você sabe? Ela me disse, Fabrício, não se preocupe com o R.M., ele é um doente, ele participa de outras comunidades virtuais e a mais de um ano ele diz para todo mundo que tem apenas alguns dias de vida e que vai se matar. Não dê atenção, você não foi o primeiro e nem será o ultimo da lista dele! Só tome cuidado com as pessoas que você conhece pela rede, nem todas são mentalmente saudáveis como se apresentam.

Não tinha palavras. Não sabia o que dizer, só agradecia, ela não sabia o peso que havia tirado das minhas costas. Depois, mandei uma mensagem a R.M. dizendo que fui alertado de toda a sua história. Nunca me respondeu e também não ligou mais em casa, simplesmente sumiu. Desapareceu. Ouvi histórias de que ele havia trocado de nome e estava trocando mensagens com outra pessoa, talvez contando a mesma ou outra história. Mas deixei pra lá. Em seguida, fiquei pensando, como uma pessoa pode criar uma história destas, enganar alguém, dertupar toda a realidade e ainda envolver outras pessoas? O que ela pede em troca? O que acontece com um ser humano para que ele chegue onde chegou? Enfim, muitas e muitas perguntas e explicações. Depois de concluído o curso de psicologia, ter feito estágio em hospital psiquiátrico, ter atendido adultos e casais em clinica sei que os motivos são diversos, mas, o que mais me preocupa é que estas pessoas nem sempre estão ou fazem tratamento e podem prejudicar muitas outras pessoas que não tem nada a ver com sua história pessoal. E prejudicam MESMO. Fora este acontecimento, ainda tive a "infelicidade" de ter passado por muitas outras experiências. Claro, nenhuma delas me envolvi tanto quanto com o R.M., o que se deu principalmente pela inexperiência de vida que tinha, naquela época apenas se comunicar com pessoas pelo computador era algo novíssimo. Contava-se para os amigos e ninguém acreditava até ir em casa e ver com os próprios olhos. Hoje não, tudo mudou, evoluiu, mas as pessoas não, elas ainda existem. E as pessoas mentalmente doentes também, e fazem parte da rede.

Apenas para finalizar, vou contar outro caso, caso recente, de algumas semanas atrás. Como tenho um website pessoal, vou sempre a eventos, participo de varias listas de discussões, meus textos e artigos são replicados em diversos sites da web, acabo sempre "atraindo" novas pessoas para o meu círculo de amizades. Acho ótimo, desde que não apareçam pessoas como um gerente de uma conhecida empresa brasileira - muito conhecida MESMO. O que ele fez? Lembro-me que discutimos algum assunto em alguma lista - nada muito profundo, algo bem superficial mesmo - e, num dia a noite, vejo ele pedindo autorização no meu ICQ, por recordar de seu nome, autorizei. Passando-se alguns minutos, a conversa ocorreu, estranhamente, da seguinte forma:

Fulano - Fala
Fabrício - Desculpe, mas não entendi
Fulano - Fala alguma coisa
Fabrício - Falar sobre o que? (nesta altura já fiquei indignado pela tamanha educação vinda de um "gerente", mas prossegui)
Fulano - Conta alguma novidade!
Fabrício - Olha, me desculpe, mas não estou entendendo. Novidade? Tenho muitas, posso falar diversas coisas novas que me aconteceram, mas qual? Acho que, para se contar "novidades" para alguém, antes, precisa, no mínimo, conhecê-la. Saber seus interesses, sua vida, etc e tal. Logo, o que acha de se apresentar? E outra, quem me procurou foi você, você que deveria ter algo pra falar, não eu. Que absurdo.

(depois de alguns minutos)

Fulano - Ta, desculpe, sou Fulano da empresa Y, trocamos algumas mensagens. To falando do Bairro X, estou em casa.
Fabrício - Ok, mas, você ta legal? Desculpe a pergunta, sei lá, mas algo me diz que você não está bem.
Fulano - Curte um back?
Fabrício - Não curto e não tenho nada contra. Só estou puto pela forma de ter "invadido" minha "privacidade" vindo falar coisas que não tem pé nem cabeça.
Fulano - Já pedi desculpa. Espero que não tenha uma má impressão.
Fabrício - Ok. (só pensei, "tarde demais")

Passando mais um tempo, ele me disse ainda que fazia faculdade do curso Z (nada a ver com sua profissão e muito menos com a conversa) e que gostava muito. Lembro-me de ter dito algo com a finalidade de "cortar" a conversa, afinal, independente dele ser "são" ou não, independente dele estar com a consciência alterada apenas naquele momento, independente dele ser, possivelmente uma boa pessoa, independente de muitas coisas, prefiro não arriscar. Prefiro ficar na minha. Não por medo, mas sim por "optar" em não querer perder tempo com isso. Acho que nossa vida é muito curta e deve ser muito bem "administrada", em todos os sentidos. E, não tenho pretensão alguma de discutir aqui quais os comportamentos são aceitáveis e quais não são aceitáveis, longe disso, mesmo porque esta é uma complexa discussão, que nada tem a ver com este texto. Mas, pelo caso que descrevi acima, do R.M., quero apenas alertar, para o maior número de pessoas, para terem cuidado e ir com calma na Net, Isso vale tanto em "bate-papos" como em listas de discussão. Conhecer gente nova, novas amizades, se "envolver", faz parte e é muito bom (até mesmo na vida real), mas ficar com um pé atrás, não custa nada. Duvidar de algumas histórias e pessoas "estranhas", também não. :-)

Fabrício Viana

* Fabrício Viana (www.fabricioviana.com.br) é bacharel em Psicologia, trabalha com Internet desde 1995 passando por empresas de tecnologia e recursos humanos.

 

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