Transformistas e 'drag queens' enfrentam preconceito para sobreviver
Preconceitos, baixos cachês e mercado de trabalho restrito ainda são os problemas mais comuns enfrentados pelos atores transformistas, travestis de show e drag queens. Entretanto, em Salvador, eles têm levado sua arte a espaços e ocasiões até então "caretas", como shoppings centers, bodas de casamento e eventos empresariais. As três categorias de artistas da noite podem até parecer uma coisa só aos olhos da maioria das pessoas, mas têm suas especificidades enquanto atividade artística. Ligados originalmente aos bares, boates e festas da cena gay, esses artistas têm em comum, além do desejo de viver da arte, a espetacularização, em diferentes níveis, de personalidades femininas do show business.
Em Salvador, os mais de 30 atores transformistas e travestis de show revezam-se nos palcos das boates Caverna e Augustu's, localizadas na Rua Carlos Gomes, e do Clube Holmes, que fica na Gamboa de Baixo. Apresentam-se sob nomes femininos glamourosos, como Pâmela Raia, Lala Gasparelli e Sthepane Simpson. Em vestidos longos, ornamentados com plumas e paetês, de salto alto, e com pesada maquiagem no rosto, eles dublam ou cantam canções de estrelas da música pop internacional e popular brasileira. Alguns também dançam. Todos são aplaudidos (ou vaiados), mas, como em outros campos da arte, apenas poucos conquistam o reconhecimento do público. É o caso do ator transformista André Luís, 33 anos, criador da fenomenal personagem Bagageryer Spielberg, e é também o caso do transexual Marlene Casanova, 56 anos.
André Luís, de tão talentoso e carismático, não só conseguiu a estabilidade econômica com sua arte, como expandiu o mercado de trabalho da categoria. Por ser extremamente admirada pelos gays, lésbicas e simpatizantes, Baga, como é chamada carinhosamente pelo seu público, foi convidada, em 1994, para apresentar as atrações do Meia noite se improvisa, evento que, na ocasião, buscava revitalizar o Teatro Vila Velha. Bagageryer fez tanto sucesso que acabou ganhando matéria de capa no Folha da Bahia e sendo convidada a participar do Brasil legal, programa da Rede Globo apresentado por Regina Casé.
"Em seguida, veio o convite para fazer a peça Um corte no desejo, de Deolindo Checcucci, e aí não parei mais", conta o ator. De fato, Bagageryer apresentou-se este ano no Aeroclube Plaza Show, o novo templo de consumo da classes alta e média da cidade. Seus compromissos profissionais incluem o programa Expresso 2001 da prefeitura de Salvador, a terceira edição do Meia noite se improvisa e três eventos carnavalescos. André Luís não gosta de falar quanto ganha com os shows. Diz apenas que o dinheiro é suficiente para manter sua casa e a de sua mãe.
Os shows de Baga alternam pérolas da música e literatura brasileiras, humor escrachado, paródia de produtos da indústria cultural e crítica irônica à cultura gay de Salvador. Ao fim de um concurso de miss gay por ela apresentado, Baga reuniu os travestis candidatos e pediu que elas posassem para o Globo Rural. Pode? "Mas todos sabem que é só brincadeira, que eu sou do bem e que respeito meu público", garante o ator, que tem na cantora Maria Bethânia sua maior fonte de inspiração. Ele só lamenta o fato de, por se tratar de uma arte cara, não surgirem sempre novos talentos.
Carreira iniciada no Rio de Janeiro
Transformistas e travestis de show são "palhaços de luxo". A afirmação é do transexual baiano Marlene Casanova, 56 anos, trinta dos quais dedicados à vida artística. Marlene, que teria participado, no Rio de Janeiro, dos espetáculos Gay Fantasy, Orquestra senhorita e Rio Gay, dirigidos respectivamente, segundo ela, por Bibi Ferreira, Marília Pêra e Jorge Fernando, diz que, em Salvador, o mercado de trabalho para essas categorias de artistas ainda é bastante restrito. "Bagageryer vem abrindo portas para outros espaços, é verdade, mas estas ainda são muito estreitas", pondera.
Para Casanova, os cachês ainda não estão à altura da produção dos shows. "Com raras exceções, ganha-se muito mal neste campo de trabalho. Ser artista neste país é uma façanha, ainda mais para aquele que se propõe a fazer arte para um setor ainda marginalizado", explica a transexual. "Para completar, nesse meio existe muita inveja, muita puxação de tapete, o que obriga o profissional a fazer sempre a política da boa vizinhança", acrescenta. Existem, entretanto, exceções nessa fogueira das vaidades. André Luís permitiu que Marlene Casanova o substituísse em show no Aeroclube Plaza Show.
Marlene Casanova não revela seu nome verdadeiro. O artístico vem do fato de ela gostar muito da cantora Marlene, aquela que, durante a Era do Rádio, rivalizava com Emilinha Borba. O sobrenome Casanova foi tomado emprestado de um conhecido cabaré dos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, onde ela trabalhou durante anos. A família de Marlene Casanova costuma freqüentar seus shows. "Inclusive minha filha de 26 anos", acrescenta, informando que se relaciona muito bem com ela.
'Drags' têm público seleto
Embora também sejam produtos da cena gay, em Salvador, as drag queens aparecem em espaços gays diferentes daqueles ocupados por travestis e atores transformistas. As drag queens são arroz de festa nos agitos do Club Mix Ozone (Dois de Julho) e do Off Club (Barra), boates voltadas para o chamado público GLS, mas freqüentadas basicamente por homossexuais com maior poder aquisitivo. O Clube Mix Ozone, vez em quando, abre as portas para Bagageryer Spielberg e contrata a drag queen Jéssica Brender, que também é travesti. A regra, entretanto, é que, em espaços gays ditos "sofisticados", travestis e transformistas não têm vez.
O maquiador Dino Neto, 30 anos, criador da drag Sfat Auermann, confirma que as drag queens em geral são bem mais aceitas. "Embora aqui em Salvador a procura pelo trabalho das drags ainda seja pequena", ressalta. Neto conta que, em São Paulo, onde morou um tempo, a realidade é outra. Segundo o maquiador, o número de contratos só aumenta durante o Verão. As drag queens são contratadas para ser hostess (espécie recepcionista) de festas descoladas, não necessariamente GLS, ou para animar seus convidados. Elas, entretanto, conseguiram expandir o mercado de trabalho. De acordo com Dino Neto, as drags, também estão animando festas de aniversários e eventos de grandes empresas. "O cachê varia com o horário da festa, o tempo em que se vai ficar nela e com o tipo de animação", explica o maquiador, lembrando que o nome de sua personagem é uma junção dos sobrenomes da atriz Dina Sfat, já falecida, Najla Auermann.
Para não confundir
Travesti
O personagem feminino levado para o palco se confunde com a persona de quem o interpreta. Personagem e intérprete são um só o tempo todo. Travesti é o homem que lança mão de próteses permanentes e hormônios femininos para transformar seu corpo em corpo de mulher. As transformações não se restringem ao corpo. Eles adotam nomes femininos glamourosos, que aludem ao universo das estrelas do cinema e da música pop.
Transformista
Antes de qualquer coisa é um ator que encarna um personagem feminino no palco. Não é necessariamente gay. Seu personagem procura se aproximar ao máximo da imagem da mulher artista, glamourosa e ultrafeminina. Para tanto, lança mão de artifícios como peito e bunda postiços, espumas para modelar coxas, espartilho, peruca e maquiagem.
Drag queen
Não é criada necessariamente por um ator. O personagem prima pela extravagância, trata-se de uma caricatura colorida e bem-humorada do travesti. Nela, a imagem da mulher não desaparece por completo, mas camufla-se em acessórios (muitas vezes reciclados) que deixam a drag mais próxima de um clown ou do universo dos quadrinhos.
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