Só para elas
O endereço não é para moças de fino trato: rua Amaral Gurgel, 386, embaixo do Minhocão, o viaduto que corta o centro de São Paulo. Ali, na porta de entrada da Boca do Lixo, cintila grande e poderosa, em um prédio encardido de três andares, a bandeira com as cores do arco-íris, o símbolo universal do movimento gay. Não tem erro. Subindo a escada estreita e escura, chega-se ao hall do primeiro andar, enfeitado com balões também nas cores gay. Aí, filhinha, é só se "jogar", como ensina o dicionário básico do mundinho. Há um mês, uma das drags mais famosas de São Paulo, Kaká di Polly, abriu o espaço exclusivíssimo para as colegas da noite se esbaldarem. É a primeira loja do país onde as priscilas encontram de tudo para a complicadíssima produção de todo santo dia. Não é à toa que o lugar ganhou o nome "Aqui na Kaká tem". Tem mesmo. De seios postiços – com mamilo ou sem mamilo – a sapatos plataforma tamanho 46, o arsenal é para drag queen nenhuma sair fazendo bicão. "A gente tinha que bater perna o dia inteiro para encontrar o que precisamos para nos montar. E nem sempre dava para achar tudo. Muita coisa tinha que ser importada. A idéia desse espaço surgiu da experiência", revela Kaká, 22 anos de "carão".
Meio dia, silêncio absoluto. Nem sinal de uma atividade comercial no pardieiro da Amaral Gurgel. Será que não abre às terças? Por volta das 13 horas, Hélio, uma espécie de faz-tudo da loja, escancara as portas e começa a limpar a poeira com um espanador azul, ouvindo "All By Myself", de Celine Dion. Ufa! Pelo menos está funcionando. Lá pelas 15 horas, a coisa mudou de figura. Começou a ferveção. De uma hora para outra, a loja, que ocupa o andar inteiro, estava lotada de Cinthias, Francielles, Jordânias, Verônikas, Andressas, Paulettes... Todas chegam à paisana e soltam as penas experimentando coletes emborrachados com o símbolo do Super Homem, tops platinados, adereços de cabeça escandalosamente carnavalescos, calcinhas especiais para esconder o pênis e sapatinhos para moças que realmente sabem subir em um salto alto. O hit da butique é a linha de maquiagem Catherine Hill: cores vibrantes, não sai fácil e, morram de inveja, esconde o "chuchu" (leia-se barba) sem deixar marcas. Tem várias outras coisinhas para completar as superproduções, como Fumaça Ninja, uma bombinha que explode no chão liberando fumaça, e também roupas para o dia-a-dia criadas por estilistas iniciados (Walério Araújo, Micheli Xis, Celso Werner e Marquinhos Gutierrez). "Aqui é o nosso canto, nosso lugar. Tem tudo que eu preciso e posso provar sem passar pelo constrangimento habitual das lojas normais. Antes eu vasculhava a cidade e não encontrava nada. Tinha que apelar para costureiras que me olhavam com cara feia", delicia-se Cinthya Gregori, 12 anos de labuta na noite.
Kaká Di Polli abocanhou o filão comercial até então inexplorado com o apetite que requer o seu corpinho de quase 200 quilos. Com um investimento de R$ 15 mil, abraçou todas as carências das colegas. A loja da Amaral não é apenas uma loja. "Não queria só vender trecaiada", diz. A lista de serviços oferecidos é longa como um bem feito mega-hair. Um costureiro dá plantão dia e noite para apertar daqui e afrouxar de lá os figurinos ou para atender pedidos especiais. Um maquiador também fica à disposição. Além da mão de obra indispensável, tem cursos de todos os tipos, com Kaká na coordenação: dublagem ("dublar não é para qualquer um. Você acha que é só abrir a boca?"), maquiagem para drag ("tem vários tipos de carão. Cada um exige um makeup diferente"), penteados para perucas ("pode-se fazer mil coisas com um bom perucão"), telegrama animado ("muita gente hoje contrata drags para mandar mensagens. Tem certas etiquetas para fazer esse trabalho"), montagem de travesti ("tem uns que chegam aqui sem saber, por exemplo, que existe uma calcinha especial, com um plástico reforçado no fundo, para esconder as coisas") e de go-go boy. E, agora, pasmem! Em breve vai ser instalado no meio do babado um consultório de psicologia. Kaká é formada pela Universidade São Marcos e atende drags atormentadas e homossexuais portadores de HIV. O consultório já funciona no bairro do Ipiranga. "Será só uma transferência básica", brinca Kaká.
Como toda drag que se preze e viva da noite, Kaká, a rainha das rainhas, só deu as caras no seu mais novo reino depois das 17 horas. "Trabalho à noite, acordo tarde e todos os dias faço questão de almoçar com a minha mãe de 85 anos", abre a intimidade. Quando ela chegou, vestida de preto e com um óculos fashion de aros grossos, as meninas avançaram em polvorosa, pedindo palpites e implorando atenção. Em um canto, jazia um rapaz de 23 anos, físico malhado e rostinho bonito. Levado pela drag Francielly Levy, ele era o único que não parecia em casa. Atordoado pelo movimento, o mocinho escancarou o coração. Era estudante de direito da respeitada Universidade Presbiteriana Mackenzie, que tem como slogan "Tradição e Pioneirismo", e estava ali para fazer o curso de go-go boy. "Quero ir estudar inglês na Austrália e meu pai só financiou a passagem. Então a Cyntia, que corta meu cabelo, falou que eu poderia ganhar R$80 reais dançando uma hora por noite. Topei. Mas morro de nojo dessa bicharada", sussurrou, com o constrangimento de quem precisa se explicar para evitar julgamentos precipitados. Kaká deu uma olhada e aprovou. "Ele tem um corpo bom. Agora tenho que ver como ele se mexe. Vai chegar aí um profissional para avaliá-lo", sentenciou. O sonho da vida australiana pareceu estar garantido. "Quem ganha a Kaká como madrinha, consegue os melhores shows", afirmou Francielly, com convicção.
O nome Kaká di Polly caiu na boca dos notívagos no início dos anos 90. Ela estava no Rio para uma das badaladas festas da dupla Val Demente quando avistou Vera Fischer, uma de suas musas. São muitas, diga-se de passagem. Saiu correndo e caiu de joelhos por um autógrafo. A estrela deu o braço para a drag espalhafatosa e entraram juntas na festa. Foi o início da glória. No dia seguinte, uma foto de página inteira da dupla na revista Amiga selava o início do estrelato no mundinho. De lá para cá, Kaká virou celebridade. Acumula títulos (quatro vezes Madrinha Gay do Carnaval de São Paulo), figura em quatro livros ("Devassos no Paraíso", de João Silvério Trevisan, "Além do Carnaval", James Green, "Noite Ilustrada", da jornalista Érika Palomino, e "Entre nós"), é madrinha oficial da Parada Gay de São Paulo (na primeira versão da parada, ela se enrolou na bandeira do Brasil e se jogou no meio da avenida Paulista para parar o trânsito), escreve para publicações gays e já participou de vários programas de televisão, entre eles dois Casseta & Planeta. O nome di Polli ganhou até status de uma espécie de franquia. Kaká tem 45 "filhinhas" Brasil afora. São drags que ela apadrinhou e que carregam o sobrenome da fama. Agora, dona da Daslu das transformistas, a ex-cover da atriz Wilza Karla, outra de suas musas, almeja o título de Patrícia Field dos trópicos. Enquanto uma mantém sua maison para drags no fashion West Village de Nova York, a outra brilha na má-afamada Amaral Gurgel. Mas isso é luxo para poucas.






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