Especialista fala sobre a vida em mundos virtuais

Daniel Huebner, especialista em mundos virtuais, afirma confiar nos mundos tridimensionais, alegando que "no mundo virtual todas as pessoas têm a possibilidade de desenvolver seu pleno potencial". Ele foi encarregado, durante quatro anos, em fazer com que o Second Life funcionasse como uma comunidade homogênea, e esteve recentemente em Barcelona para participar do congresso Art Futura 2007, que debateu a forma que a Internet terá no futuro. 

Para Huebner, no futuro a rede inevitavelmente terá recursos comuns aos mundos virtuais tridimensionais. O Second Life tem 10 milhões de usuários registrados, e uma economia ativa que, segundo as estimativas, chega a movimentar US$ 1 milhão em dinheiro real ao dia, ocasionalmente. O mundo virtual e tridimensional abriga curiosos, políticos, empresas, universidades, organizações sem fins lucrativos, artistas e comerciantes; os terrenos e outros artigos são comprados e vendidos por meio de uma moeda virtual conversível em dólares reais, e os usuários criam personagens fictícios (avatares) que interagem com outros visitantes digitais ao serviço.

"O Second Life representa um avanço fascinante na maneira pela qual as pessoas interagem em rede, mas estamos vendo apenas a ponta do iceberg, quanto ao que esses mundos virtuais um dia virão a ser. Muitas das atividades da Internet serão conduzidas neles, já que compras, encontros românticos, encontros com amigos, shows, debates e muitas outras coisas parecem muito mais atraentes no mundo tridimensional, do qual participamos diretamente com nossos avatares, do que no universo bidimensional da Internet corrente", afirma Huebner.

Huebner tem antecedentes no jornalismo, e antigamente cobria as áreas de videogames e tecnologia para diversas publicações. No Second Life ele experimentou todo o período de decolagem do projeto, e desfrutou de seu sucesso em termos financeiros e de mídia, além de também ter enfrentado as fricções que o crescimento causa.

"Começamos com uma base de usuários muito bem preparados em termos tecnológicos, mas com o tempo o público foi se ampliando e hoje temos uma audiência diversificada. O tema econômico ainda surpreende a muitos dos participantes, mas já há uma série de exemplos concretos de dinheiro real ganho por meio do comércio de itens virtuais. Quando alguém adquire uma faixa de música para o seu iPod, está comprando alguma coisa que não é tangível e não pode ser vista fisicamente", diz.

"No mundo virtual, as pessoas compram terrenos, roupas ou qualquer outros artigos que estejam interessadas em ter em seu ambiente virtual. E a chegada das empresas ao Second Life pode ser explicada porque nenhuma delas deseja ficar de fora de uma mudança que pode ser tão importante quanto a decolagem da Internet, acontecida cerca de 10 ou 15 anos atrás", afirmou o especialista.

O conhecimento que ele tem sobre as operações cotidianas do Second Life permita que ofereça algumas observações sociológicas sobre a questão. "Os mundos virtuais podem ser artificiais, mas as pessoas que os procuram são reais. Os usuários criam relacionamentos e compartilham experiências verdadeiras, lá. Para eles, o principal atrativo do mundo virtual é que lhes permite escapar por algumas horas das coisas que limitam a vida normal ¿ idade, nível de educação, o salário ou renda de cada um, raça, sexo, preferência sexual e outros podem ser mudados, no mundo virtual. E essa é claramente uma experiência libertadora", diz Huebner.

Mas e os atritos? Huebner os viveu de muito perto. Em maio deste ano, ele foi o responsável por lançar uma campanha oficial cujo objetivo era eliminar do mundo virtual algumas polêmicas simulações de sexo ou violência. "Minha tarefa era desenvolver as regras de convivência entre os usuários. Em termos gerais, elas eram bastante tolerantes, e levavam em conta apenas questões essenciais como a idade dos usuários. Restam ainda muitas coisas a resolver nessa intersecção entre o mundo real e o fictício. E uma boa fórmula a levar em conta é que, até que o mundo online seja capaz de estabelecer códigos próprios, a melhor resposta é respeitar, nele, as normas que regem o mundo real. Isso também é uma maneira de fazer com que o mundo virtual seja mais compreendido e aceito", afirmou.

Huebner não fala com muita clareza sobre o desgaste pessoal que ele veio a sofrer em suas funções como responsável por uma comunidade tão diferente e heterogênea, ainda que existam na rede do Second Life mensagens suas que permitem confirmar que seu trabalho não era fácil e tampouco contava com a compreensão de todos.

Agora, depois de se afastar do SL, ele está envolvido no desenvolvimento de um novo mundo virtual, chamado Vside. "Trata-se de um ambiente menos amplo que o do Second Life. No Vside, a música é o ponto de partida para criar e articular a sociedade online, enquanto no Second Life se podia fazer de tudo".

Mas ele mantém opiniões firmes e convictas sobre o futuro, e afirma que "os mundos virtuais terão o poder de globalizar a economia emocional. A maneira pela qual uma pessoa escolhe seus amigos, por exemplo, não estará mais subordinada às restrições geográficas, à situação econômica e a outras referências do mundo real. Nos mundos virtuais, existe mais possibilidade de que as pessoas desenvolvam plenamente o seu potencial como indivíduos. Não nego que problemas de convivência sejam possíveis, mas o principal risco é que desperdicemos a oportunidade que eles nos oferecem e façamos com que eles estejam sujeitos aos mesmos medos e preconceitos que enfrentamos em nossa vida real". É dessa maneira que Daniel Huebner explica sua confiança na vida via Internet.
 

La Vanguardia

 

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