Especial lesbianismo: da descoberta à aceitação

Você já parou para pensar se alguma vez já se sentiu atraída por alguém do mesmo sexo que você? Talvez uma melhor amiga de quem você não desgruda nem um segundo e você nota um dia que tem ciúme demais dela, tanto quanto você tem de seus namorados... Não, isso não quer dizer que, necessariamente, você seja homossexual. A adolescência é a época de se experimentar muitas coisas novas, de querer procurar qual será o melhor grupo para você conhecer e de se encontrar mesmo, de saber quem a gente é de verdade.

As mulheres, em geral, são muito carinhosas ou, como coloca a psicóloga Rosemari Kruger, de Curitiba, ´elas tem uma coisa corporal, um carinho físico que não é aceito entre os homens, pelo menos não no mundo ocidental`. E esse afeto não pode ser confundido com uma atração sexual. Então como descobrir se o homossexualismo pode ser parte de você?

O psicólogo Carlos Eduardo, professor da PUC de São Paulo, conta que a descoberta da homossexualidade na menina acontece de repente quando ela se sente atraída pelo mesmo sexo. ´Não é uma decisão racional`, explica Carlos. ´E essa descoberta provoca conflitos porque não é o pensamento geral sobre comportamento sexual que se tem em nossa cultura. Os homossexuais ainda são um grupo minoritário`.

Quanto à possibilidade de ser homossexual, Rosemari, que trabalha com terapia de famílias, explica que a menina que tem relações sexuais com outra menina pode estar querendo experimentar esse tipo de sexo para se descobrir -- como se ela se enxergasse em outra mulher. Outras meninas o fazem para transgredir as normas da família numa fase de rebeldia. Há ainda as que são levadas a isso para fazer parte de um grupo. Algumas têm realmente o que a psicóloga coloca como ´uma estrutura de personalidade homossexual`. Vários são os fatores que podem explicar a personalidade homossexual – hormônios, genes, figuras dos pais etc – mas a verdade é que até hoje ninguém conseguiu comprovar porque os homossexuais são homossexuais.

A fase de aceitação das meninas é uma fase de grandes conflitos – consigo mesma, com os amigos e principalmente com a família. Todo mundo quer ser amado pelos outros e é muito difícil quando se descobre que se é diferente e surge o medo de não agradar àqueles a quem a gente mais ama. Dependendo do meio em que a garota vive ela pode se aceitar mais facilmente. Muitas vezes as meninas homossexuais negam sua condição porque elas não se encontram mais no grupo em que viviam até então. A identidade sexual não está decidida na adolescência e, por isso, esses questionamentos geram tantos conflitos que provocam angústia.

As garotas começam a se assumir mais no final da adolescência. ´A maioria das meninas que me procuram com essa questão têm entre 17 e 18 anos` conta a psicóloga. ´Muitas já fazem parte de um casal – com outra garota – e querem resolver seus problemas que são os mesmos de qualquer outro casal, homossexual ou não.` Rosemari também explica que a maioria dos pais não quer ver que tem uma filha lésbica e que precisam de algum tempo e alguma conversa para entenderem o que está acontecendo. ´Os pais passam primeiro pelo impacto, depois pela fase da negação – ´minha filha não é lésbica` --, pela busca de um responsável pela condição da menina – alguém levou ela a agir assim – e por uma quase aceitação – eu a amo e quero que ela seja feliz.` Muitos pais chegam a pensar o que eles podem ter feito de errado, mas há exceções – pais que aceitam e aprendem a conviver com a situação.

Ter alguém com quem falar e expor suas angústias vai ajudar a garota a se resolver e a sofrer menos. Ela pode compartilhar seus problemas com um parente, um terapeuta ou um amigo. Mas, como lembra a psicóloga Rosemari, ´ela tem que pensar sobre o que a faz feliz, independente das opções que são oferecidas a ela pela sociedade`.

Procuradas pelo iGirl, três meninas homossexuais aceitaram contar como descobríram a atração pelo mesmo sexo e como foi - ou é ainda - a luta pela aceitação dos amigos e da família.

'Ainda não me aceitei'

bruna
Eu sempre gostei de meninos, nunca achei desinteressantes ou tive nojo. Mas, com 18 anos, comecei a ter uma relação estranha com uma amiga. Eu tinha muito ciúmes e sentimento de posse em relação a ela. O mais esquisito é que eu não achava ela o máximo, achava meio mala até. Mas, definitivamente, estava apaixonada. Daí comecei a pensar "Será que eu estou sentindo isso? Se eu estou sentindo, então estou ferrada!" Eu não queria aceitar de jeito nenhum. A minha auto-repressão foi tanta que eu nem percebi direito os meus sentimentos naquela época, só depois quando nos afastamos. A coisa da paixão foi embora e eu consegui assimilar melhor as coisas.

Eu não conhecia nenhuma lésbica e eu morria de medo de contar para as minhas amigas...temia que elas se afastassem, que não quisessem mais falar comigo. E então eu guardei esse segredo um tempão. Até que uma outra menina se declarou pra mim e daí eu tive que encarar, que ver se era aquilo mesmo. E aí foi uma loucura porque ela era complicada e eu estava em conflito! Não deu certo.

A sensação de beijar uma menina é totalmente diferente de ficar com um cara. A pele é mais macia, o toque. É outra coisa. Mas Eu gosto de ficar com meninos também . Eu concordo com a Madonna quando ela diz que toda pessoa deveria beijar outra do mesmo sexo. Mesmo se você não gostar, isso abre sua mente de uma maneira absurda.

Acho que tem muita gente reprimida por aí, acho que as pessoas ficam até doentes por causa disso. Eu mesma não me assumi totalmente, não contei para a minha família e nem para muitos amigos. A gente vive num mundo que diz "isso é errado", é inegável. Se aceitar é muito difícil. As pessoas que falam "ah eu me assumo super! Não tenho problemas com isso". Se a pessoa fala isso é mentira! Ou então ela vive em outro mundo que não fala as coisas que este mundo fala.

Quando penso no meu futuro, na pessoa que vai passar a vida do meu lado, eu penso mais numa mulher do que num homem. Eu só vou assumir para o mundo a minha opção sexual quando achar uma namorada que eu gostar muito. Não cheguei a estabelecer um relacionamento com ninguém, então não tenho prova para dar pros outros. Mas eu sei o que eu quero.


Bruna*, 21 anos faz faculdade de comunicação social

*A pedido da entrevistada, o nome foi trocado.

 

 


Os homens me irritam. Assumi minha homossexualidade e estou feliz

maira
Eu tinha 16 anos quando percebi que sentia algo por uma garota da minha sala. Notei que o que eu sentia por ela era o mesmo que eu sentia pelos garotos, então cheguei à conclusão que estava a fim dela. O mundo caiu sobre a minha cabeça! Olhei para mim mesma como a sociedade olha para os homossexuais - achei horrível e tive nojo. Eu já tinha amigos gays e já havia uma cultura gay bem aceita. As casas gays estavam na moda. Isso me ajudou bastante. Minha não aceitação foi breve, minha crise durou um dia!.

Minha homossexualidade era algo muito novo e eu nem pensei como eu seria no futuro. Não fiquei achando que era lésbica, achava que talvez fosse bissexual. No fim do ano, um amigo meu ficou com a garota que eu era a fim e ela disse a ele que tinha pensado várias vezes em ficar comigo. É claro que ele me contou. Falei com ela e ela foi minha primeira namorada.

Depois que já namorávamos há algum tempo, senti que minha mãe parecia meio desconfiada de algo em relação a mim. Então, perguntei a ela se ela sabia de algo que eu não sabia que ela sabia. Quem teve que dizer foi ela, eu não tive que dizer nada. ´A gente sabe que para você tanto faz, meninos ou meninas, mas que há uma em especial.`, foi o que minha mãe disse. Daí para frente, meus pais é que tiveram que lidar com garotos e garotas ligando lá em casa.

Passados uns 6 anos, comecei a me questionar se gostava da mesma maneira de homens e mulheres. Percebi que minha primeira namorada tinha sido meu grande e amor e que eu não tinha nenhum relacionamento saudável com homens. Eles me irritam e não consigo perdoá-los facilmente. Se ficam românticos, os acho bobos; se não, os acho machistas. Tenho grandes amigos homens, mas para um relacionamento não funciona. Percebi que não precisava dar certo com os dois sexos. Cheguei a conclusão: ´eu sou lésbica`. Fiquei feliz com a decisão porque consegui achar meu lugar no mundo. Muita gente sofre muito por causa da não aceitação da família e dos amigos. Quando eu assumi minha homossexualidade foi ótimo porque eu me senti livre.

Maíra ´Mee` Silva tem 23 anos e faz faculdade de rádio e tv.

 

 


Descobri que me interesso pelas pessoas pela qualidade e não pelo sexo

eliza
Eu tinha 22 anos quando me mudei pra o alojamento da universidade e acho que se tivesse continuado morando em casa com meus pais, não teria passado pelo auto-conhecimento pelo qual passei aqui. Até então eu nunca tinha ficado com meninas.

Comecei a conviver mais com amigos homossexuais e freqüentar lugares em que todo mundo fica, mas levei um bom tempo até ficar com uma garota. Eu sempre tive uma melhor amiga, nunca convivi em grandes grupos e, então, comecei a pensar se não eram paixonites, apesar de eu nunca ter pensado em transar com nenhuma. Transei com a primeira mulher aos 23 anos. Assim que eu fiquei com a segunda garota, resolvi contar à minha mãe. Ela levou um susto. Eu não a preparei como eu não tinha sido preparada para isso. Comecei a conversa assim: 'Mãe, você sabe que eu ando meio sozinha., nunca tenho relacionamentos... e conheci uma garota...´ Minha avó fingiu que não tinha ouvido, foi lavar louça e minha mãe disse apenas que só queria que eu fosse feliz e que eu poderia contar com ela para qualquer coisa. Acho que até hoje ela está tentando trabalhar isso com ela mesma. Ela sabe que ainda fico com garotos também.

Sei que há preconceito contra o bissexualismo. As pessoas acham que eu estou vestindo um personagem, que não é possível gostar de mulheres e de homens ao mesmo tempo. O que eu penso é que beijar é muito bom e pode ser com qualquer pessoa, o que importa é que essa pessoa tenha as qualidades com as quais eu me importo. Hoje sei diferenciar muito bem quem são as amigas e quem são as meninas de quem estou a fim.

Eliza Ferraz Fernandes tem 25 anos e cursa história em São Paulo.

 

 

História

A palavra ´lesbianismo` tem sua origem no nome de uma ilha da Grécia Antiga, Lesbos, onde vivia uma poetisa chamada Safo durante os séculos 7 a 6 a. C.. Safo tinha como tema principal de seus poemas o amor homossexual feminino e daí o nome ´lésbica` para designar a mulher que mantém relações com outra mulher.


Por: Ana Cândida e Marina Fuentes ( ana@igirl.com.br marina@igirl.com.br

 

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