Entre o amor real e o ideal
Creio que devo começar explicando o título desta conferência: A História Natural do Amor. Não há porque estranhar o tema. E embora alguns digam que amor é coisa para poetas, eu lhes asseguro que não há nada de mais científico, biológico, antropológico,e também poético, porque não há nada de mais profundamente humano do que o amor.
Há alguns anos, se alguém me dissesse que eu deveria falar sobre este tema em um Congresso, eu teria afirmado que isto não era um título de respeitabilidade científica. Caberia melhor em um festival de literatura. É que naquela época "eu não possuía mais do que a ilusão de conhecer a verdade e um enorme desprezo por todos aqueles que não partilhavam desta ilusão".
Hoje eu não me surpreendo em falar do amor, e não me considero menos científico. Seguramente isto me humaniza cada vez mais, porque a cada dia que passa eu sinto que partilho menos da ilusão do conhecer.
Esta conferência leva o mesmo título da obra de Morton Hunt, um escritor norte-americano, que há mais ou menos 30 anos, escreveu um livro chamado: "The Natural History of Love" ( A História Natural do Amor). O título parece sugerir que se trata de uma obra de biologia, mas tudo se esclarece quando ele convida o leitor para vestir as roupas de um naturalista e empreender a grande aventura de explorar, de maneira sistemática, usando o instrumental da história, da arqueologia, da biologia, da antropologia e da psicologia humana, para observar a trajetória do comportamento amoroso do homem, através dos tempos.
Esta conferência é de certa forma uma homenagem a Hunt, de certa forma também um convite para que empreendamos todos, aqui e agora, através da imaginação criativa de cada um, um passeio rápido pela história natural do amor humano.
Infelizmente ficaremos só nos delineamentos, mas ele será o suficiente para fazer compreender que o homem criou o amor, e passou a ser escravo de sua criação.
De certa forma, "A História Natural do Amor" é tema que está presente em todos os momentos deste Congresso. Antevejo os terapeutas sexuais estudando e discutindo os desacertos do desempenho sexual. Uns mais dedicados aos aspectos fisiológicos e patológicos da resposta sexual humana, outros aos desencontros psíquicos, a ansiedade de desempenho(1), ao comportamento sexual inadequado. Antevejo a discussão dos antropólogos e sociólogos interessados nos descaminhos das normas culturais, na pesquisa de campo sociológica, etnológica(2) e etnográfica(3), procurando esclarecer como as coletividades humanas se distribuem em relação às normas do comportamento erótico(4), ora obedecendo ora se rebelando para criar novas formas de amor, ou recriando novas formas de amar. Antevejo, neste Congresso, a discussão dos educadores procurando, na sabedoria do educar, abrir as portas da consciência, formar atitudes e promover condutas voltadas a uma sexualidade adequada e responsável. As Doenças Sexualmente Transmissíveis ea AIDS, a gravidez indesejada, o planejamento familiar, serão temas abordados neste evento. Todos eles tem o amor como pano-de-fundo, e qualquer que seja nossa especialidade, qualquer que seja nosso instrumento de trabalho, aqui o amor será tratado ora com a objetiva imparcialidade da ciência, ora com o tempero subjetivo e emocional da poesia, ou talvez com a eloqüente grandiosidade da reflexão filosófica.
A mim coube a ingrata tarefa de tocar de leve em todos estes assuntos. Um pouco de tudo, sem ter o direito de se encantar com o pormenor, sem se deixar contaminar pela visão singular das coisas. Devo sobrenadar na pluralidade, entrar e sair em cada assunto, da mesma forma como fazia o magnifico pássaro do Bhagavad Giva que, " mergulha e volta a superfície sem molhar as asas".
Eu acredito que devo agora tentar conceituar e definir o que é o amor, afinal como diz Chersterton: "A idéia que não procura tornar-se palavra é uma idéia inútil, da mesma forma que a palavra que não procura tornar-se ação é uma palavra inútil".
Mas, em questões de amor, os conceitos e definições se complicam, porque, como lembra Hunt, todo o mundo se considera um técnico habilitado a discutir a respeito do assunto. Mas quando se pergunta o que é o amor, a característica mais notável é que as respostas discordam completamente uma das outras.
Eu caminhei na mesma estrada de Hunt, e meu primeiro impulso foi perguntar aos poetas o que era o amor. Afinal de contas eles são os que mais escrevem sobre este assunto e, naturalmente, devem ser os maiores especialistas. Mas foi entre os poetas que eu experimentei, ao mesmo tempo, o tempero do encantamento e o sabor da desilusão. Estes homens se contradizem muito entre si. Ora ficam sentados nas nuvens, gritando felizes: "o amor é a coisa mais doce que há sobre a terra", ora se desmancham em lágrimas e se escondem dentro das cavernas do sofrimento, murmurando que "o amor é uma dor enorme".
Para Ovídio, o amor é apenas o delicioso jogo da sedução e sua Ars Amatória não é mais do que um fantástico manual de como seduzir e conquistar as pessoas. Para outros poetas, o amor é algo de sublime, lírico e eterno. É incrível, mas, as vezes, um mesmo poeta, ora diz uma coisa ora diz outra, diametralmente oposta, sem demonstrar o menor sinal de embaraço ou de relutância. Estes senhores são muito complicados. Afinal de contas quem pode compreender os poetas, eles vivem de sonhos, se alimentam de luares, de estrelas, de madrugadas e de poentes.
Com uma espécie tão inconstante de criaturas, há de convir que, o melhor é procurar abrigo nas definições sóbrias dos filósofos que devem ser os guardiões da verdade acerca do amor.
Vejamos o velho Platão e vamos notar que ele define o amor como sendo a apreciação da beleza das idéias abstratas e dos conceitos matemáticos. Os platônicos e os neoplatônicos acreditavam que o amor era algo espiritual capaz de conduzir a alma para a divindade.
Saltando alguns séculos, veremos que os filósofos hedonistas não pensavam assim. Eles estavam mais preocupados com o prazer do que com a idéia, mais com o sentir do que com o pensar.
Muitos anos depois vamos encontrar Descartes elaborando uma definição do amor, misturando, como componentes essenciais, o desejo e a ação. Amor, dizia ele, é uma emoção em que a alma é levada a juntar-se, de bom grado, a objetos que se lhe afigurem agradáveis. Era o espírito que se juntava ao corpo.
Nos tempos atuais, Ortega y Gasset analisou o filosofar cartesiano e, com base na psicologia moderna, notou que ele estava incompleto. Definiu então o amor como sendo um ato centrífugo da alma em fluxo constante, que vai na direção do objeto amado, unindo-se a ele e reafirmando positivamente o seu ser. Os senhores entenderam? Nem eu. Mas não há que entender os filósofos e, entre eles, há tanta divergência que alguém, com certa maldade, já afirmou que "por trás de cada tolice humana há sempre um filósofo que a defende". Não admira, portanto, que tenhamos de pedir ajuda aos biólogos, nada românticos, nada especulativos mas, sobretudo, práticos, comprometidos com as técnicas da observação e da experimentação, ancorados ao mundo sensório da realidade. Porém eles não foram menos decepcionantes. Tinham visões tubulares, demasiadamente presas aos limites do orgânico. Seriam capazes de explicar todos os detalhes do funcionamento sexual das estruturas e dos movimentos corporais do ato de amar, mas ao tentar conceituar o amor tendem a descrevê-lo como um tipo de comportamento animal estereotipado. Partindo desta premissa, generalizam suas observações e conclusões, e aquilo que é adequado e válido para um animal, julgam ser válidos e aplicáveis aos seres humanos. Eles estão preocupados com o impulso sexual - o mais animal de todos os impulsos - e com a reprodução da espécie.
Com tantas interpretações e tantos significados, com tantas visões parciais, não é de admirar que todo homem se sinta com o direito de definir e de discutir a respeito do amor.
Vamos ter de começar nossa caminhada e tentar encontrar, nas páginas da história da civilização humana, os fundamentos que nos permitam compreender o amor.
É imperativo começar com a Grécia. Hunt afirma que os gregos tinham uma palavra para designar quase tudo, afinal eles inventaram quase tudo: desde a teoria do átomo, a teoria política, criaram todas as formas de governo, desde a autocracia mais severa a mais liberal das democracias. Traçaram os fundamentos da filosofia ocidental, desde a metafísica a lógica, criaram até os deuses... Também não esqueceram de inventar o amor. Logo viram, porém, que o amor não era único. Havia Eros e Ágape, o amor canal e o amor espiritual. Depois disto nunca mais o amor se despiu da indumentária grega, nunca mais se desfez desta dualidade.
Agora é preciso caracterizar bem cada um desses amores, não só para entender a vida amorosa dos gregos, mas, sobretudo, para que se possa observar que o amor moderno começou na Grécia antiga.
Eros embora fosse o deus do amor carnal não deve ser confundido com sexo. Rollo May afirma que sexo é algo que pode ser definido em termos fisiológicos, em termos de tensão e de satisfação. Ele é o substrato anatomofuncional através do qual se distinguem os gêneros e se perpetuam as espécies.
Sexo é a forma e a função que permitem o ato em si. Eros é o significado do ato. É a personificação do desejo, o impulso carnal de ficar unido ao outro e recriar a vida.
Eros e sexo muitas vezes estão em caminhos opostos. Pelo sexo buscamos o alívio da tensão; através de Eros procuramos exatamente o contrário. Ele busca a excitação contínua, lutando para manté-la cada vez maior. Há um ditado francês que diz que a finalidade do desejo não é a satisfação mas o seu prolongamento. Quem deseja quer desejar cada vez mais. Eros é mais imaginação do que manipulação, é mais fantasia do que epiderme.
O amor carnal se complica, porque ele é uma mistura da necessidade com o ato. Um estimulando constantemente o outro.
Embora os gregos e os romanos tivessem denominações diferentes para indicar Eros e sexo, raramente eles falavam de sexo porque, para eles, sexo não era problema. O problema mesmo era o amor. E o amor vestiu-se de deus e foi morar no Olimpo.
Na mitologia grega há várias genealogias para explicar a origem de Eros. Uma das mais antigas teogonias (5) afirma que Eros era filho do Caos e da Noite. O amor brotou do ovo da Noite que flutuava no Caos. Das duas metades da casca nasceram o céu e a terra: Urano e Geia. Eros, portanto, está, na raiz da origem do mundo.
Platão rebelou-se contra a idéia de que Eros fosse um deus primordial e, com a tranqüilidade de quem cria deuses, ele deu ao amor carnal outra genealogia. Imaginou Eros concebido da união entre Poros e Penías: a astúcia e a pobreza. E esclareceu que, em virtude deste parentesco, Eros tem características bem definidas. Como pobreza, ele é um mendigo sempre carente do objeto amado; como astúcia ele sempre procura traçar um plano para alcançar seu objetivo.
Enquanto os filósofos criavam os deuses, os poetas definiam sua imagem. Devemos aos poetas a representação de Eros como um garoto travesso e inquieto, sempre pronto para lançar suas flechas no coração dos homens e envenená-los de amor e paixão. Eros nunca cresceu como as outras crianças. Ele permaneceu sempre pequeno com suas asas transparentes. Afinal de contas crescer significa atingir a razão, e o amor é in-compatível com a razão.
Embora não deixasse de reconhecer a existência e a importância de Eros, Platão defendia a prioridade de Ágape - o amor espiritual. Este amor, que passou a ser conhecido como amor platônico, não era mais do que uma tentativa de Platão de estruturar metafísicas incorpóreas
A filosofia platônica do amor exerceu muito mais influência no cristianismo de que no mundo pagão de seu tempo. O pensamento cristão reforçou a dualidade platônica e elevou o amor espiritual a um status(6) muito mais alto do que o amor erótico. O amor espiritual era assunto de Deus; o amor carnal era domínio do Diabo. Os grandes padres da Igreja primitiva, Agostinho, Jerônimo, Tertuliano, consideravam o ato sexual repulsivo, imundo, vergonhoso. Palavras como concupiscência, luxúria, fornicação, impureza foram gravadas junto ao amor erótico e se transmitiram, através dos séculos, para se fixaram na cabeça das pessoas. Até parecia que havia um consenso entre os primeiros padres da Igreja de que Deus deveria ter inventado um modo melhor para resolver o problema da reprodução.
O fato é que, nos primeiros tempos do cristianismo, Eros foi de tal forma desprezado que, a julgar pelo que diz Santo Agostinho, o coito é sempre um mal, seja ele praticado no leito conjugal ou no lupanar.
Defendia-se a castidade perfeita, a "mutilação voluntária" por amor ao céu, tal como ensina São Mateus. Ele disse "mutilação voluntária" em sentido figurado, como é próprio da linguagem bíblica mas, alguns padres, em seu furor religioso, interpretaram o ensinamento ao pé-da-letra e se mutilaram fisicamente. O exemplo clássico é o de Orígenes que foi um dos primeiros a se emascular, e no meio de cânticos religiosos lançou os testículos bem para longe. A moda de se castrar pegou de tal forma que o próprio Santo Agostinho, no século IV, proibiu este fanatismo esclarecendo que a frase de São Mateus era apenas um ensinamento simbólico. Eu imagino a decepção dos que se castraram... Além de perderam os testículos, ainda foram repreendidos pelo santo.
O fato é que a castidade era de tal forma enaltecida que, quando o monge Joviniano, no ano 385 da era cristã, afirmou que o casamento era superior ao celibato, o próprio Papa Sirício, tratou logo de excomungá-lo por heresia e por blasfêmia. Mil e duzentos anos mais tarde, por ocasião do Concilio de Trento (1563) a Igreja ainda reafirmava a primazia do celibato e, hoje, ainda persiste a mesma idéia...
Para o espírito da época, portanto, não era de admirar que se considerasse a "união continente" como sendo a forma mais perfeita de casamento. Nela o marido e a mulher, por mútuo consentimento, renunciavam o sexo para viverem como irmãos, dormindo em leitos separados ou, castamente, partilhando da mesma cama, mudos e surdos aos apelos da sexualidade.
Não sabemos nada acerca do número de casamentos deste tipo mas, a considerar pelos escritos de São Jerônimo, não foram poucos os que, no meio da caminhada, desistiram deste sacrifício, para se reunirem na mais deliciosa "poluição conjugal".
Costume ainda mais estranho do que o casamento continente foi o casamento espiritual que existiu do século II ao século VI de nossa era. Virgens conhecidas com o nome de "agapetas" viviam na intimidade caseira, como esposas espirituais dos membros do clero. Eu não posso garantir que estas uniões fossem tão espirituais como se dizia... A minha dúvida é a mesma de São Jerônimo quando ele escreveu: "Estas irmãs vivem na mesma casa que seus amigos masculinos: ocupam os mesmos quartos, com freqüência dormem nas mesmas camas e, não obstante, nos consideram de desconfiados se pensamos que alguma coisa está errada". O fato é que o agapetismo foi erradicado pela Igreja. E de passagem vale lembrar que, na Irlanda, um dos mais ardorosos defensores das agapetas - e não foram poucos - afirmava, enfaticamente, que os monges eram perfeitamente capazes de viverem juntos com as mulheres, porque estando eles no "topo da rocha, não temem o vento da tentação". Porém a Igreja achou que a rocha poderia precisar de algum reforço e, definitivamente, proibiu o costume.
Para a maioria dos seres humanos que não é suficientemente forte para praticar a continência total, as relações sexuais, no casamento, foram permitidas como uma concessão. Mas vejam bem, nunca usando o sexo para o prazer mas apenas com finalidade procriativa.
Se a pessoa não pode suportar a continência "é melhor casar do que abrasar-se", dizia São Paulo. Mas como a idéia do casamento tinha sido abençoada por Deus e santificada por Cristo, foi necessário muita engenhosidade teológica para justificar a proposta de que o celibato era superior ao matrimônio.
A mulher, como um todo, e o homem, da cintura para baixo, eram criações do demônio. A mulher quase não teve lugar na Igreja primitiva. São Jerônimo chamou-as de "cataplasmas da luxuria" e no Concílio de Macon, no ano 585, a proposição de que a mulher não possuía alma foi levantada. É claro que esta proposta perdeu, mas a vitoria não foi das mais convincentes: ganhou apenas por um voto...
Porém não ficou só nisso a pressão que a Igreja exerceu sobre a mulher. Ela procurou convencê-la a renunciar sua própria sexualidade e a não reconhecer seus desejos...
O coito no casamento, embora suportado pela Igreja, não deixava de ter suas restrições. Segundo Tannahill, certos teólogos rígidos recomendavam a abstenção sexual nas quintas feiras, em memória a prisão de Cristo; abstenção nas sextas feiras em memória a morte do senhor; aos sábados, em honra a Virgem Maria; aos domingos em homenagem a ressurreição, e as segundas em comemoração aos mortos. As terças e quartas feiras eram livres para o relacionamento sexual, desde que não fosse dia de jejum ou de festivais religiosos, como 40 dias antes da Páscoa, durante o Natal,7,5 ou 3 dias antes da comunhão, etc.
Não se pense, porém, que o desprestígio do casamento seja uma criação do cristianismo primitivo. Entre os gregos o poeta Pálatas resumia esta repulsa, muito tempo antes do aparecimento de Cristo, afirmando em um dos mais cruéis epigramas da literatura mundial:
"Ao homem, o casamento proporciona
apenas 2 dias felizes: o dia em que
ele conduz a noiva para a cama e o
dia em que ele a deposita no túmulo"
A masturbação e o homossexualismo eram atos abomináveis. Se em um sacerdote havia uma emissão seminal involuntária, requeria 7 dias de jejum, e 20 dias se fosse auxiliada manualmente. O cristão que tivesse polução noturna, deveria levantar-se e entoar 7 salmos, seguidos por mais 30, pela manhã. É de se imaginar que alguns passavam dias a fio rezando...
O homossexualismo não foi menos castigado. O Penitencial Cumeano do século VII prescrevia sanções para conter as práticas homossexuais. Assim, por exemplo, um beijo simples: 8 jejuns, porque um beijo com manipulação merecia 10 jejuns. Masturbação mútua, 20 a 40 dias de penitências; felação: 4 anos e sodomia: sete anos.
Depois que Gregório VII expediu a proibição do casamento clerical e se tornou norma o celibato dos sacerdotes, as coisas se complicaram. Necessário dizer que a grande maioria das pessoas não tinha, em absoluto, vocação religiosa. Era uma norma ter sempre um padre e, de preferência, um bispo na família. Isto era uma questão de status familiar, e, naturalmente, muitos clérigos, bispos, cardeais e papas não tinham o menor compromisso com os princípios que defendiam. Além do mais, o volume dos clérigos era enorme. Para se ter uma idéia desta magnitude, basta dizer que no Brasil de hoje há mais ou menos um padre para cada 3000 pessoas. No século 13 havia um clérigo para cada 12 pessoas. Não se veja nisso uma maior religiosidade da época, mas o fato de que o mosteiro oferecia uma das poucas oportunidades para que as pessoas de baixo nascimento progredissem na vida.
Conhecendo isso, não é de admirar que os frades usassem do direito do "Jus primae noctis". Este direito da primeira noite foi instituído, pelos nobres, como um imposto que o noivo pagava ao senhor do castelo, no momento do casamento. Se o noivo não pagasse o imposto, o senhor teria o direito de reivindicar dormir com a noiva na primeira noite de seu casamento. É provável que muitos destes senhores preferissem não receber o dinheiro...
Os conventos ficavam, como os castelos, em terras onde seus habitantes prestavam vassalagem e, conseqüentemente, estavam obrigados ao "jus primae noctis". Muitos conventos, por piedade, não recebiam o pagamento do imposto, mas não abriam mão do direito da primeira noite. Até aí tudo bem, e, embora esta não fosse uma posição muito ortodoxa para padres, as moças que iam para o casamento já ficavam logo no mosteiro, com os futuros maridos fazendo plantão noturno na porta, até que os frades cumprissem o seu piedoso ofício. E tão piedosos e fervorosos foram nesta missão, que começaram a invocar um tal de "jus secunda noctis", o que naturalmente deu margem a uma petição dos habitantes locais contra o excessivo e piedoso zelo destes insaciáveis senhores.
Data do pontificado de Gregório I, aproximadamente no ano 600 da era cristã, a primeira reação séria da Igreja para enfrentar, com rigor, o problema dos excessos sexuais do clero. Até mesmo o papado não esteve livre da libertinagem sexual. Assim, no ano 904, Marozia, filha de um alto funcionário da cúria romana teve seu amante coroado Papa com o nome de Sérgio III. Sua mãe, para não ser superada pela filha, empossou também o seu amante como João II. E tudo isto para não falar dos Boggias...
Munstein afirma que foi uma época em que um bom número de habitantes de Roma poderia chamar o Papa de "papai", tanto no sentido literal como teológico.
A Idade Média está cheia disso. Conta-se até que um certo bispo de Liege, denominado de Henrique III, foi destituído porque era pai de 65 filhos ilegítimos.
BCom estes exemplos pode parecer que a Igreja cristã só tivesse pessoas que macularam sua história. Isto não é verdade . Seríamos injustos se não fizéssemos aqui uma ressalva. Ao lado de padres, bispos e até papas que envergonharam a história da humanidade, ao lado de todos os males da Inquisição, dos desmandos sexuais de muitos, da vaidade, da cobiça e da miséria, o ensinamento de Cristo sempre sobrenadou acima destes fatos, e sempre teve seguidores leais que, no silêncio da humildade heróica e estóica, não ficaram na história, mas foram as mãos que conservaram até hoje, a grande mensagem cristã, através dos séculos.
Não posso negar, porém, que em relação às coisas do amor, a Igreja sempre teve um olhar oblíquo. Sempre conservou-se ambivalente em relação ao casamento.
No mundo greco-romano, homens e mulheres aceitavam o sexo como sendo um apetite biológico natural. Consideravam o amor como um passatempo, as vezes como um tormento. O casamento era um inevitável dever. Embora tivessem alguns sentimentos contraditórios, eles gozavam do sexo e do amor, saboreando-os juntos ou separados.
O cristianismo primitivo reformulou toda esta concepção de vida, acrescentando alguns elementos contraditórios e inexplicáveis. Ao mesmo tempo em que proibia o sexo fora do matrimônio, restringia sua prática dentro do casamento.
O amor carnal era tão detestado que, mesmo os esposos se sentiam culpados quando atingiam o orgasmo nas relações sexuais. Muito desta culpa ainda se reflete na sexualidade de hoje.
Nesta nossa exploração pela trajetória do amor humano, temos que parar um pouco nos fins do século XI. Estava nascendo ali uma nova forma de amor. Para entender esta maneira de amar é preciso mergulhar dentro da moldura da época em que ela nasceu.
Vivia-se a idade das cruzadas e, praticamente, a metade dos cavaleiros dos países cristãos tinha saído para a Terra Santa ou para o norte da Espanha, em luta contra os mouros. A mulher permanecia no castelo, curtindo a solidão, remoendo suas carências afetivas.
Distante da força repressora dos pais, do marido e até dos filhos, elas promoviam festas ocasionais com teatros de marionetes, saltimbancos, apresentações cômicas e dramáticas. Não faltavam os recitais de música e de poesia. Neste contexto, particularmente benvindos eram os trovadores. Quando estes poetas andantes chegavam, tinha no castelo festa garantida. Eles polarizavam a atenção de todos, da mesma forma que hoje todos ficam presos diante das novelas intermináveis das televisões.
O trovador é peça fundamental no amor cortesão. Sendo poeta-viajante era correio vivo que trazia notícias, cantava vitórias e derrotas das cruzadas, apresentava a última novidade da corte, a moda, os fatos e feitos, preenchendo a mesma função da mídia de hoje.
Foram os trovadores quem criaram e divulgaram o amor cortesão. Amor que, no princípio, era um passatempo literário. Espécie de novela sentimental idealizada entre uma senhora de alto nível e um nobre pouco importante mas apaixonado, que procurava cobrir de galanteios a dama inacessível. Era exercício literário de lisonjas, história "de uma inconsistência maravilhosamente consistente", porque exaltava ao mesmo tempo, o adultério e a virtude, o desregramento e a austeridade, o deleite e o sofrimento.
O amor cortesão era uma forma de vassalagem feudal, uma espécie de adulação para com a senhora do castelo. Era uma paixão impossível, clandestina, mais para Ágape do que para Eros, pelo menos em tese. Afinal de contas tudo ia depender do grau de carência da dama. Por via das dúvidas, o apaixonado lutava para se tornar merecedor da integral atenção amorosa. E, com certa freqüência, isto acontecia. O amor-sonho se tornava realidade. É um exemplo clássico da vida imitando a arte (Tannahil).
Eu não sei até que ponto a pureza deste amor era sempre realidade. O fato é que os senhores nobres, quando partiam para as cruzadas, estavam tão conscientes do perigo que corriam seus tesouros sexuais que faziam com que as senhoras vestissem um pequeno biquíni de ferro maciço com duas estreitas fendas, uma na frente e outra atrás que, embora permitissem a passagem dos excrementos e das urinas, eram totalmente impermeáveis ao pênis. Os cintos de castidade eram guarnecidos de pesados cadeados, cujas chaves eram levadas em torno do pescoço dos maridos ciumentos. Há pilhérias sobre chaves sobressalentes e de damas contorcionistas que burlavam a segurança do cinto...
Seja como for, o fato é que o amor cortesão se tornou uma coqueluche. No começo era apenas um passatempo dos trovadores, mas logo se transformou em um novo estilo de vida, uma espécie de esporte, praticado pela aristocracia feudal com os seus cavaleiros andantes, amantes platônicos de uma amada ideal. Nascia a forma prototípica do amor romântico.
Miguel de Cervantes faz desta época uma deliciosa crítica de costumes, e nos apresenta o insano D.Quixote de La Mancha como uma genial caricatura de cavalheiro e de amante.
No século XVIII este tipo de amor se fez ridículo. Estava-se na Idade da Razão, o amor tinha caído no desprestígio das classes superiores e intelectuais. Os grandes pensadores estavam desencantados com as tradições da Idade Média e da Renascença. Buscavam uma filosofia nova, calma, humana, prática, mais estável e mais produtora de bem-estar. O estilo de amor cortesão, sofredor e idealístico, se lhes afigurava como totalmente inadequado.O racionalismo imperava em tudo. Buffon não se cansava de repetir que " não há nada de bom no amor, a não ser a parte física". Admitia-se como ideal da conduta humana um comportamento em que a razão fria, desapaixonada, guiasse todos os atos, subordinando a emoção. Os homens falavam do autocontrole e das boas maneiras.
No campo do amor, as aventuras de Don Juan Tenório de Servilha, o célebre Don Juan, e as de Giovanni Jacobo Casanova, embora tivessem sido romanceadas, tinham muito da vida real da época. Na Idade da Razão não só o amor fora reduzido a mera sensualidade, como sua maior aspiração não era a busca do ato em si mas o prêmio da conquista. Seduzia-se por seduzir.
Nos fins do século XVIII, nasceu um novo movimento amoroso. Revivia-se, de certa forma, o amor cortesão. Era o romantismo. Embora semelhante ao amor cortesão, dele se diferenciava, como um desafio, a moralidade da época. O tipo acabado do romântico era o de uma criatura instável propensa a qualquer excesso emocional. O movimento reabilitava a mulher como uma pessoa que se elevava ao pedestal. Quanto mais apreço os homens tinham ao amor tanto mais se tornavam tímidos em relação as mulheres. Temiam a rejeição.
A figura grotesca do "pierrô apaixonado" é a melhor caricatura do amor romântico. Não tenho tempo de me deter nesta forma de amor, mas ele quase morreu, quando nos fins do século passado, a coroa britânica passou para a cabeça da rainha Vitoria. Uma nova ética se estabeleceu no mundo.
Tomou corpo a negação dos impulsos sexuais. Não se falava em sexo entre pessoas educadas. Todo o cuidado era pouco com as palavras. Nem o respeito a gestação era enaltecido. Não se ficava grávida mas em "estado interessante". Nunca o mundo experimentou tão grande repressão de costumes, tanta austeridade e tanta afetação proibitiva em relação aos assuntos do amor. Nem o pensador William James fugiu deste espírito que impregnava a alma de seu tempo. Basta dizer que, nos dois volumes de seus Princípios de Psicologia, há somente uma página dedicada ao sexo, e nela o autor diz textualmente: "É desagradável discutir este tema..."
Amputava-se a sexualidade. Vivia-se o artificialismo de uma respeitabilidade pedante. Durante um jantar, um senhor já não podia oferecer a uma dama uma coxa de galinha: só lhe oferecia o peito, e ainda assim dava a esta parte da ave o nome de seio. Ora vejam só, um seio de galinha.
Na medicina vitoriana não era menor a repulsa contra assuntos sexuais e até mesmo evitava-se tocar no corpo feminino, para que o pudor fosse preservado. As mulheres, quando descreviam um sentimento de dor ao seu médico, apontavam nas bonecas a região dolorida. Cada médico levava em sua maleta, ao lado do termômetro e do estetoscópio de Pinard(7), uma boneca de louça. Ela era instrumento de trabalho, essencial ao diagnóstico.
A negação do sexo, a perseguição aos homossexuais o combate a masturbação tem histórias interessantes que poderiam ser contadas. São tão conhecidas, porém, e já estão tão próximas de nossos dias, que me dou ao direito de não mencioná-las aqui. Quero porém, mesmo de leve, chamar atenção para algumas profundas diferenças entre os vitorianos e os habitantes do mundo de hoje. Eu não vou falar sobre a chamada revolução sexual nem sobre a pós-revolução em que hoje nos encontramos. Ainda falta o senso crítico da perspectiva histórica, para dizer até que ponto estamos no caminho certo.
Direi apenas que os costumes de hoje deram um salto em direção oposta ao vitorianismo. Antes de 1910, chamar uma mulher de "sexy" era insultá-la, hoje ela aprecia isto como um cumprimento galante. Enquanto os vitorianos não queriam que ninguém soubesse que eles tinham impulsos sexuais, hoje alardeamos nossos impulsos, exaltando a excelência de nossos desempenhos. E isto é válido para homens e mulheres.
Os vitorianos proclamavam, como ideal, o amor sem sexo; o homem contemporâneo procura o sexo sem amor.
Vivemos na era tecnológica. Há uma verdadeira compulsão pela técnica, pelo desempenho sexual correto, pelo pênis olímpico, pelo orgasmo homérico, pela compulsão de comprovar que se é bom no desempenho. Todos afirmam que sexo não é somente genital mas, na prática, continuam voltados para estes órgãos, numa profunda deificação. Esqueceram a lição grega: Eros não é apenas pênis e vagina. Esqueceram o homem. Ele caiu no pitoresco e virou apenas a paisagem, o detalhe...
Tem ficado muito diluída a preocupação de partilhar sentimentos e fantasias, e de permitir que a sensação transcenda a si mesmo, passando a ser emoção e a emoção se transforme em ternura, e as vezes a ternura se transmude em amor. Há uma excessiva velocidade nas coisas. Descartam-se as pessoas, esquecidos que o amor, para ser amor, tem de ter continuidade.
Eros é lento, leva tempo para crescer, para que o significado do acontecimento penetre. Eros necessita da fantasia. Salomon afirma, e com razão, que a fantasia quase sempre é melhor que a realidade, e com certeza, muito mais segura. As facilidades sexuais, a banalização da conquista, tornam o amor humano uma completa ilusão.
E o que nos conduz o futuro? Dizem que o futuro é sempre a ressaca do presente. Eu não sei se teremos, um dia, de reinventar o amor.
Depois de toda esta viagem, ainda não sei, exatamente, o que é o amor. Uma coisa é certa. Quando a gente ama, a gente fica sentindo uma enorme saudade do outro, mesmo na presença do outro. Porque o amor é querer ser indispensável a quem já se tornou indispensável para gente.
Chego ao fim desta conferência com a mesma emoção e espanto daquele arqueiro grego que um dia lançou sua flecha no espaço, e a perdeu entre as nuvens. Também perdi minha flecha...
Talvez o amor seja apenas o ato biológico da entrega e da posse, exigindo apenas a competência funcional de quem executa. Talvez o amor seja apenas uma criação da cultura, do modo de pensar e de sentir de uma época, mas eu me nego a acreditar que o amor não seja também uma criação profundamente individual. Ele faz parte da vida. Ele cria e recria a vida. Não a vida em geral mas o viver de cada um.
É por falta de imaginação que os literatos vão procurar o amor fora da realidade, entre as nuvens. Trazem apenas um subproduto. O amor à semelhança das matérias preciosas, deve ser arrancado das entranhas da terra do real. Mas, por favor, com um pouco de sonho, se possível...
Ricardo Cavalcanti






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