A História Natural do Amor
São José do Rio Preto, 23 de novembro de 2001
Editoria de Arte
Cecília Dionizio
A publicitária Ana, 42 anos, lamenta estar sozinha há seis anos. O único relacionamento que conseguiu ter nesse período foi com um homem comprometido, cujo interesse, segundo afirma, “era unicamente tê-la para transar quando lhe conviesse.” Ao ser questionada sobre o motivo de estar só por tanto tempo, sendo ela uma pessoa agradável, inteligente e bonita, a resposta é surpreendente. “Simples, sou muito exigente. Não quero qualquer um. Tem de ser rico, inteligente, bem-humorado, gostar das mesmas coisas que eu, ser bem-relacionado... A lista de exigências é extensa, mas tenho esperança de que antes de morrer ainda vou achar alguém assim!” Isso não seria nada demais se, por conta desses pré-requisitos todos, Ana não tivesse riscado do mapa vários candidatos sem sequer procurar conhecê-los melhor. “Já conheci vários pretendentes, desde colegas de trabalho até pessoas apresentadas por amigos, mas ora ele é um motorista, ora é um vendedor, ou então, um ‘joão-ninguém’ que nem sabe falar direito, enfim, ninguém com quem eu consiga vislumbrar alguma possibilidade,” explica.
Para a sexóloga e terapeuta Maria Helena Matarazzo, o que transforma a vida de algumas pessoas em um drama freqüente, muitas vezes é culpa delas mesmas. “São amantes cronicamente insatisfeitos: nada os deixa felizes por muito tempo, pois não param de desejar aquilo que não podem obter. Há quem deixe de viver intensamente por não ter alguém que anseia,” afirma. O fato de desejar alguém não é um erro. O problema é que não é um simples querer; isto, em geral, se transforma numa fixação. O fato de não alcançar este desejo leva à frustração contínua e acaba por roubar a felicidade, levando a pessoa a alternar entre o descontentamento e o desespero completo. As pessoas vivem sós, hoje, porque estão em busca do amor ideal, ao invés do amor real. Aquele que implica troca, aceitação e concessão. A psicóloga rio-pretense Mara Lúcia Madureira conceitua o amor ideal como aquele aprendido nos contos de fadas - nos quais um foi criado para o outro, sob rigorosíssimo controle de qualidade; em que um corresponde fielmente às expectativas do outro. Além de feliz e cheio de prazer, o relacionamento ainda tem a possibilidade de um ‘feliz para sempre’.
Ela explica que já no caso do amor real, muito pouco nos foi ensinado. “A base do amor real está na capacidade que uma pessoa possui de desenvolver e manter um autoconceito adequado, compreender que é um ser completo, que estar com o outro é somar e não fundir-se ou confundir-se com ele.” A dona de casa Sandra, 34 anos, diz que o fato de estar ao lado do marido há mais de 15 anos, é a única certeza de que sua vida faz sentido. “Sou o reflexo dele, não saberia viver se não pudesse contar com a força, a coragem e a confiança que ele me transmite. Sei que tudo o que faço e sou, - e olha que sou muito competente -, se deve ao fato de ter ele ao meu lado por tanto tempo. Somos quase a mesma pessoa, nos completamos,” resume. A diferença entre os dois tipos de amores é sutil, mas imprescindível. Um pode existir na dimensão dessa vida, enquanto o outro pode não ultrapassar a imaginação, trazendo como conseqüência a frustração.
Para a psicóloga, o amor real pode ser observado na convivência sadia entre duas pessoas, nas relações nas quais as pessoas conhecem bem a si mesmas e reconhecem no outro virtudes e defeitos; compreendem que conviver é uma prática difícil, ainda assim, conseguem manter uma relação estável, cujos benefícios superam os descontentamentos. “É preciso desenvolver competências específicas para enfrentar problemas com maturidade, saber que juntar-se a outra pessoa requer muito mais que segurança econômica, alimentação, status social, satisfação material de um desejo, entre outros quesitos,” esclarece Mara Lúcia. Em geral, quem procura por alguém utilizando uma série de adjetivos não consegue encontrar um amor real. “O amor não pode reduzir o outro a uma série de predicados, abafar ou esmagar sua liberdade. Se isso ocorrer, não é amor, é doença, disfunção ou desajuste emocional. A existência de um na vida do outro, deve ser uma relação de complemento e não de dependência ou possessividade.
Quem vive pensando: “Se tivesse feito isto ou se tivesse aquilo, tudo seria diferente...”, não consegue viver o amor real. Vai passar a vida toda tomado por atrações inúteis, desejos inconfessáveis, fantasiando tudo, como se vivesse numa novela sem fim, sem nada realizar, acrescendo um capítulo a cada dia, acreditando que, conseguindo o parceiro(a) ideal, finalmente poderá ser feliz para sempre. Do contrário, pensa, melhor é viver só. Às vezes, perseguir amores inatingíveis distrai a pessoa de um problema real. “Desistir de realizar missões impossíveis é uma questão de bom senso emocional,” afirma Maria Helena Matarazzo. A psicóloga Mara Lúcia afirma que a maioria das pessoas chega à idade adulta, com idéias infantis de felicidade e conceitos ingênuos de amor. Espera do outro atitudes que jamais terá. Articula estratégias sofisticadamente patéticas para mudar ou controlar o outro. Espera, com isso, obter grandes resultados. Porém, não raramente, o que consegue é colecionar uma seqüência de frustrações.
Lúcia, 38 anos, diz ter tido uma união estável com o pai de seu filho por alguns anos, apesar das pressões sociais, que ocorriam pelo fato de ser uma profissional bem-sucedida insistindo em conviver com uma pessoa que, além de um cargo inferior e tudo o que isto implica (menor salário, menos instrução...), não tinha segurança em si próprio. “Apesar disso, as pressões externas pareciam nunca ter nos afetado, Mas foi justamente isto que ele alegou diante da primeira exigência de participação efetiva, ou seja, na educação e criação de um filho. Foi quando vi que ele não daria conta. Tanto, que partiu para outra,” explica. A psicanalista Fani Hisgail, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), explica que a razão dele ter encontrado outra, se deve mais ao surgimento de um novo papel subjetivo, o de ser pai, do que às diferenças social e profissional. O amor está presente, mas às vezes, quando se tem um filho, os conflitos surgem, muito mais em função da relação dele com o seu próprio pai do que com a esposa.
Idealizar a relação só complica
Segundo a psicanalista Fani Hisgail, da PUC, as relações amorosas são sempre a tentativa de se dar o que não se tem ou de amar no outro o que não se é. O equívoco está sempre presente, pois as pessoas tentam idealizar e encontrar na imagem do outro algo que supõem, um dia, ter perdido para sempre. Manter um amor platônico é uma tentativa de tornar o objeto amoroso impossível e inacessível, quando o que se gosta é experimentar no devaneio, o gozo da sensação do impossível. Freud, o pai da psicanálise, define quatro possibilidades de amar: o que a pessoa é (narcisismo); o que a pessoa foi; o que a pessoa gostaria de ser; alguém que foi, uma vez, parte dela mesma. “Há também uma outra explicação para o tipo de ligação que algumas pessoas estabelecem com o objeto amado: a mulher que alimenta e o homem que protege, ou vice-versa, uma relação simbiótica, de necessidade”, define a especialista.
“Quem diz ter um relacionamento perfeito, com certeza está mentindo. Se for de verdade, onde um diz o que pensa do outro, a coisa não é tão simples assim. É só você não admitir ser dominado para os conflitos aparecerem em seguida. Aconteceu comigo, quando me recusei a ser objeto de manipulação da minha mulher. Estamos juntos porque todos os dias exercemos o aprendizado de respeitar um ao outro. Senão, cada um já teria seguido seu caminho,” conta o engenheiro Gabriel, 49 anos. A psicóloga Mara Lúcia diz que o amor não significa obrigar, dominar ou possuir o outro, mas envolve renúncia da autopromoção através do amor do outro e da possibilidade de dominação. “É preciso antes de mais nada, amar a si mesmo, reconhecer em si todas as potencialidades e fazer delas fontes genuínas de realização. Quando uma pessoa se sente capaz de ser feliz, está pronta para amar, pois compreende que a conquista lhe pertence por seus próprios méritos,” diz. Enquanto não se percebe isso, a tendência é caminhar sem perceber o real valor que se tem. Não olhando para os lados, portanto, vivendo sem perceber quem está à sua volta. É assim que se deixa de abraçar o que de fato se pode alcançar.
Serviço:
Mara Lúcia Madureira, psicóloga, (17) 234-6425, 233-2699
Fani Hisgail, psicanalista, (11) 3873-2840
http://diarioweb.terra.com.br/fmdiario/noticias/corpo_noticia.asp?IdCategoria=4&IdNoticia=12572







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