Gostar de si mesmo abre caminho para o amor
É possível chegar ao amor, esse gostoso sentimento com que todos sonham. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso, antes, buscar o amor no fundo de si mesmo. Não adianta querer ouvir uma bela declaração de amor de alguém se ela não flui de seu próprio interior.
Há uma historinha que diz: "Haviam criaturas que eram muito grudadas - com quatro pernas, duas cabeças, um pênis e uma vagina. Eram completas, felizes. Tão felizes que provocaram a inveja de Zeus, que, com um raio, as separou em duas pessoas: um homem e uma mulher. Mas com a maldição de que uma metade jamais encontraria a outra". Quando a paixão toma conta do coração, a pessoa tem a ilusão de que encontrou essa metade. Muito procurada e desejada. É um sentimento forte, violento talvez, que leva muita gente a um estado quase insano em prol do desejo do outro. Mas do que o de si mesmo. É por isso que, quando se vive uma paixão, cada um tem a sensação de completitude, de integração, de poder até compartilhar o sono. Vivenciar o sonho. Como se fosse o que faltava para caminhar. Quando ocorre a perda disso, se dá a perda de si no outro.
Esse é o grande "nó" das relações de paixão: atribuir a felicidade ao outro, acreditar que o amor faz parte do outro. É o contrário: esses sentimentos devem estar em cada um, fortalecendo-se com a presença do outro. A pessoa a quem se ama não pode ser a responsável pela felicidade da outra, mas "co-autora" dessa história.
O maior empecilho para a vivência de uma paixão é a visão oposta que homens e mulheres constróem em relação ao próprio corpo e ao do outro, a sexualidade e à amorosidade. Uma genitaliza o desejo, o outro erotiza o corpo todo. De um lado, temos mulheres que experimentam a paixão visceralmente: de outro, homens com dificuldade de se entregar e um medo enorme de ficar "na mão" da amada. Assim, constatamos que a entrega feminina é mais intensa - e dolorosa - do que a masculina. Dolorosa porque, quando a relação termina, o sofrimento da mulher se apresenta mais claramente do que o do homem. Ela, em geral, se dá um tempo para refletir sobre as perdas e ganhos. Ele parte logo para novo relacionamento. Aos pedaços, muitas vezes, mas sem pensar em profundidade sobre o que representou o envolvimento. A nova relação certamente, estará fadada ao fracasso.
Essa "administração amorosa" diferenciada - resultado da noção de sexualidade que é transmitida a meninos e meninas - fica evidente, por exemplo, na relação extraconjugal. Enquanto a mulher apaixonada, mesmo casada, larga tudo pelo amado, o homem se divide em relações paralelas sem a coragem feminina de viver intensamente esse estado de ilusão. Mas porque ilusão se cada um fica feliz e satisfeito? Porque essa emoção, não se mantém por muito tempo. E isso ocorre por ser real, diferente do amor, que proporciona o contato consigo, com o outro e com o mundo que o(a) cerca. O que temos de entender é o que há por trás dessa busca. As vezes, ela vai atrás da necessidade que já tem, que vem de sua história, como necessidade de carinho, atenção, aprovação, cuidado, proteção ou sexo. É como se o outro fosse preencher o vazio que ela tem. E muitas vezes até preenche, mas não é verdadeiro, apesar de ser intenso. Isso porque uma relação se constrói na reciprocidade e no amadurecimento, como no amor. Na paixão, não. Há certo desnivelamento. Com a sensibilidade mais aflorada nos momentos de paixão, é comum aparecerem sentimentos de rejeição. E o que acontece é que ninguém sabe lidar com ela, até porque é desestruturador perceber que es está sendo rejeitado pela pessoa em quem se está investindo tudo. Só que, na realidade, ninguém rejeita ninguém. Isso também é ilusão. É a própria pessoa que se rejeita e projeta esse sentimento no outro. Ela acaba achando alguém que a rejeita, para, no fundo, confirmar o que se sente por si mesma. É como se cada um tivesse um "radar" para ir buscar nas relações do cotidiano o que vai reforçar suas crenças interiores.
A paixão só pode ser integradora se a pessoa percebe que o gostar está em si, não no outro. Podemos dizer, até, que esse é o caminho para o amor: "Não posso amar o próximo se não gosto de mim ..." É preciso, primeiro procurar esse amor no fundo de si mesmo. Não adianta querer ouvir a melhor declaração de amor se ela não flui primeiro de dentro para fora. Quando, no fundo, a pessoa não se curte. Por isso, para que a paixão fortaleça e vire amor, é importante abrir o espaço interior para torná-lo cada vez mais sensível.
É preciso amadurecer para construir o amor, em que há compreensão, trocas e cumplicidade. A partir daí, cuide da forma. Do jeito. Do gesto. Cuide do cuidado. Cuide do (com) carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do próprio amor e só assim tentar fazer seu amor feliz.
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