"Nem toda infidelidade é desamor, nem toda fidelidade é amor", diz terapeuta

Dá pra salvar um caso de amor depois de uma traição? Aquela frase endossada e juramentada no altar - a que fala "até que a morte nos separe" - ainda pode ser considerada sincera? Em 2002, século XXI? É... parece que os namoros, noivados, casamentos - formais ou informais - deixaram mesmo de ser eternos. As pessoas vivem cada vez mais e, às vezes, na chamada meia-idade, se consideram prontinhas para um novo amor. Dependendo do caso, da aparência e, principalmente do status da pessoa, ela vai se deparar com muitas e muitas armadilhas. Se for casada, o objetivo será seduzi-la rumo à separação. E é claro que vão aparecer os sentimentos do pecado e da culpa da traição. Um estudo ainda inédito da Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, diz que existem três estágios depois da descoberta da infidelidade. Primeiro: o drama, a tragédia grega, em que entram muita raiva e autopunição. Segundo: a obsessão pelos detalhes do caso extraconjugal. E terceiro: a fase da reconstrução, a tentativa de recomeçar, de colar o vaso quebrado. A questão que a gente levanta aqui e agora é a seguinte: dá para superar e perdoar de verdade a traição? Para responder, estiveram aqui a psicóloga e terapeuta familiar Maria Rita D'angelo Seixas e a sexóloga Maria Helena Vilela.

A questão que a gente levanta aqui e agora é a seguinte: dá para superar e perdoar de verdade a traição? Para responder, estiveram aqui a psicóloga e terapeuta familiar Maria Rita D'Angelo Seixas e a sexóloga Maria Helena Vilela. E existe consenso entre as duas: não é sempre, mas às vezes dá, sim, para superar e vencer a traição, conversar abertamente sobre o que aconteceu e suas causas e... bem, e ver o que se pode fazer. A terapeuta familiar Maria Rita D´Angelo Seixas garante que, às vezes, o casamento fica, até mesmo, melhor. Acredite!Saudavelmente melhor.

Dá para citar um caso?

Por exemplo: muitas vezes, a traição acontece por falta de diálogo entre o casal. Eles viveram muito bem os primeiros anos de vida em comum, mas depois foram se distanciando, foram ficando cada vez mais ocupados - inclusive com os filhos. Ocupados e distraídos! Porque se descuidaram do casamento propriamente dito.


Cuidado: Você pode abrir a porta para a traição

"Na hora em que surgem faltas e necessidades que o casamento não supre mais", estão abertas as portas para que uma terceira pessoa entre "nesse vínculo", afirma a dra. Maria Rita. Ele dá a má notícia e, em seguida, a boa notícia - ainda bem! Quando os dois se amam, quando têm disposição para conversar, dá para refazer e reconstituir o casamento. Às vezes, de um jeito muito mais parecido com a plena felicidade dos tempos de lua-de-mel.


Quando é possível engolir um deslize...

“É possível, sim, refazer um casamento quando dá para aceitar um deslize do parceiro, quando há amor e quando os dois conseguem conversar racionalmente; quando se põem as cartas na mesa fica tudo mais fácil”, acrescenta a terapeuta familiar. Foi a vez da sexóloga Maria Helena Vilela contar só um pouco do muito que ela transparece saber sobre o assunto. “O que leva um casal ao casamento não é só o relacionamento afetivo ou o interesse sexual mútuo. Há vários interesses em jogo, como o projeto de vida e o relacionamento intelectual. E às vezes a traição pode ocorrer apenas porque hoje vivemos num mundo onde essa possibilidade está muito presente. A traição não significa, necessariamente, a ruptura com todos os vínculos da união. E, dependendo da disponibilidade, do interesse e do que ligou o casal, a reconstituição é possível, sim.” Ok, é tudo perfeitamente compreensível e relatado com grande conhecimento de causa pelas duas profissionais. Mas, pergunto eu, e o famoso sentimento do amor, que papel desempenha em tudo isso? Afinal, o casal fez um compromisso de monogamia.


O “pobre” monogâmico que não consegue cumprir a palavra

“Você disse muito bem: compromisso de monogamia, o que não significa que a natureza do ser humano seja monogâmica. Nessa circunstância, aquele que não consegue ser monogâmico, teoricamente, seria anormal. A monogamia é uma coisa aprendida no nosso comportamento sexual. Às vezes é possível cumprir o compromisso, às vezes não”, afirma a sexóloga, para o espanto da entrevistadora, como deve estar imaginando nosso internauta.


As nuances da “exclusividade”

A terapeuta familiar pede licença para discordar e complicar ainda mais as coisas na cabeça da entrevistadora. Para a dra. Maria Rita, a chance de um casamento ser recuperado depois dessa traição vai depender do “compromisso de exclusividade” que cada casal fez entre si. “E dentro disso, há uma variedade muito grande: para alguns, desejar alguém em pensamento já é uma traição; para outros, é possível admitir que o cônjuge tenha sentido atração por alguém; e há, ainda, aqueles que compreendem o fato de o marido, ou a mulher (compreensão mais rara essa, claro), não ter conseguido superar essa atração e ter tido uma relação com outra pessoa. Sim, disse a entrevistada, nesses casos, o ´traído` aceita.” E existem, ainda, as pessoas que, inconscientemente, até torcem para que o cônjuge “tenha alguém” para “deixá-lo sossegado”. Mas nós insistimos: em situações muito próximas da normalidade, afinal, os casamentos são reconstituíveis depois desses eventos geralmente devastadores na vida familiar que representam a traição?


A difícil opção entre a família e a separação

De novo, com a palavra, a dra. Maria Rita: “Depende muito de como a auto-estima do traído foi atingida. Mas talvez dependa ainda mais de como foi desfeito ou atingido o ideal de casamento que se criou. Muitas vezes, quando nós nos separamos, não é difícil perder o outro, muito mais difícil é a morte do ideal. Às vezes, não existe mais afeto, não existe mais amor, e a pessoa reluta muito em se separar porque é assinar embaixo que fracassou em seu ideal”. E ela insiste: “é muito comum, é bastante freqüente vermos o casal decidindo não se separar porque, para eles, o mais importante é manter a família, apesar de não sentirem mais nem atração nem desejo um pelo outro”.


Traição, conceito forte para as gerações mais novas

A sexóloga Maria Helena diz que, para as gerações de hoje, o conceito de traição “vem muito forte”, o que não acontecia antigamente, quando não se casava por amor, e sim por um contrato social com interesses econômicos. “E a traição era exclusiva do homem, claro, que controlava o comportamento sexual da mulher.”


Quanto maior o status, mais freqüentes as cantadas

É fato ou é mito que, quanto mais rica for a pessoa, mais assediada ela será, ou mais “ofertas” de companheiros/as ela terá? As duas entrevistadas disseram que, hoje em dia, a carência afetiva é tão grande que o dinheiro pode nem pesar tanto quanto se pensa. Mas é verdade também que a pessoa que dá em cima de terceiros tem, em geral, uma relação muito grande com o dinheiro. A terapeuta familiar tem dúvidas se essa relação é direta. E acrescenta: “provavelmente, poder e status chamem mais ainda a atenção do que o dinheiro”. Por chamar mais atenção, entenda-se “dar mais em cima” de quem tem ´status`.


DST: a traição inconseqüente pode matar

E como agir, num episódio de traição, diante das doenças sexualmente transmissíveis, que, de tão populares, já são conhecidas como DST? “É complicado”, afirmou a sexóloga. Em sua experiência profissional, ela diz que, quando há encontro sexual de vários casais, muitas vezes se distribui preservativo. Mas, primeiro, as pessoas se alcoolizam e se drogam. Resultado: naquele clima de grande excitação, é raro se pensar em prevenção. E a camisinha é deixada de lado. Perigosamente de lado. Voltemos, porém, às situações de ´normalidade´. Aquela, por exemplo, em que o homem, ou a mulher, tem relação com uma terceira pessoa sem se proteger, pega e transmite uma doença letal ao parceiro. Jamais o “traidor” contará ao “traído” que teve uma relação sexual com uma outra pessoa na primeira vez. Menos ainda se tiver considerado a aventura “passageira”. O certo, então, é usar camisinha sempre. “Casais casados” deveriam usar camisinha para evitar esse tipo de constrangimento que pode terminar na morte do parceiro (o que, infelizmente, é cada vez menos incomum).


Confiança incondicional pode não ser verdadeira

A máxima de que “confio incondicionalmente no meu marido pode não ser uma verdade”, diz a sexóloga. Pois é, acrescenta a terapeuta familiar, se eles passarem a usar camisinha depois de vários anos juntos, “um estará dizendo ao outro, de alguma forma, que não existe confiança total” na parceria. Mas, ao mesmo tempo, é justamente por causa dessa necessária segurança contra as DST, “que casais de médicos que eu atendo em meu consultório resolveram passar a usar preservativos”, depõe a dra. Maria Rita.


Sexo é diferente de amor

“Sexo é diferente de amor, de afetividade. A pessoa pode ter interesse sexual sem estar envolvido a ponto de largar tudo por aquela pessoa. Hoje, as mulheres já compreendem bem melhor isso”, afirmou a sexóloga. Mas o motivo da traição não é, sempre, a atração sexual? Para surpresa geral, a resposta das entrevistadas foi negativa. Com a palavra, a sexóloga: “O sexo é o começo do processo de sedução. É o que está mais à mão. Mas aquilo que vai fazer a liga entre os dois pode não ter sido o sexo. Às vezes o próprio marido satisfaz mais a mulher sexualmente que o amante. Mas ela cultiva o amante para ter alguém com quem conversar, ou para ter aconchego, por razões financeiras e por vários outros motivos”.


Sim! Sexo com amor é muito melhor!

Mas é claro que sexo com amor é muito mais prazeroso e muito mais interessante. O que quero dizer é que sexo ruim não é, necessariamente, o de uma relação em que não existe amor.” Nada, mas nada mesmo pode ser generalizado neste difícil ramo da sexualidade versus infidelidade.


Infidelidade nem sempre é desamor e fidelidade nem sempre é amor

“A infidelidade nem sempre é desamor; a fidelidade nem sempre é amor”, sentencia a terapeuta familiar. Como? Primeiro, ela explica a fidelidade que nem sempre significa amor: muitas vezes, inconscientemente, a escolha do cônjuge foi condicionada pela história de vida da pessoa, que optou por se casar com alguém que não ama profundamente “até para não correr o risco de ter uma relação muito profunda” com esse grande amor, e não sofrer muito se perdê-lo. Foi fiel, portanto, a uma pessoa por quem não sente amor. E que história é essa de a infidelidade nem sempre significar desamor? “Às vezes a pessoa trai para chamar atenção, para avisar que algo está errado num casamento onde não há diálogo. Trai e faz com que o outro descubra. Muitas vezes, consegue fazer com que o cônjuge `acorde` para os problemas.”

<Durante o programa, as entrevistadas também responderam algumas perguntas dos internautas. Confira!

bill diz: Porque o homem é mais suscetível a traição?

Resposta para bill: Culturalmente, vemos exatamente o contrário. O homem sempre foi o detentor do poder; culturalmente, uma traição pelo homem é mais tolerada. As conseqüências são muito mais drásticas quando é a mulher que trai. Existe ainda uma outra coisa: as feministas que me desculpem, mas a mulher, ainda hoje, é mais difícil de ter um relacionamento sem afeto.

Marcelo diz: Sexo virtual deve ser considerado traição?

Resposta para marcelo: Depende do que VOCÊ considera traição. É difícil opinar. Para algumas pessoas, para haver traição, é preciso de uma terceira pessoa concreta (presente); mas para outras, só a fantasia já é considerada traição.

roberta diz: Até que ponto uma pessoa deve se preocupar com a relação de amizade de seu parceiro com o sexo oposto?

Resposta para roberta: Você deve se preocupar com a sua segurança em relação ao seu parceiro. Porque, na verdade, o que põe em risco uma relação de um casal, é a própria relação e nada mais. Ninguém é capaz de satisfazer 100% o seu parceiro. Por isso, é preciso um pouco de humildade e ver que o contato com amigos é uma parte da vida que deixam seu parceiro feliz.

elcio diz: E possível acreditar em lealdade após se ter praticado traição?

Resposta para elcio: Se você conversou com a sua parceira, se explicou e houve uma aceitação, sim, é possível acreditar em lealdade. O único problema vai ser se continuar existindo desconfiança. Isso acaba com qualquer relacionamento.

Fernanda diz: como agir com uma traição?

Resposta para Fernanda: Hum...uma pergunta complexa. Acho que você deve conversar bastante, ouvir o outro - mesmo com toda a raiva que possa estar sentindo, ouvir é muito importante. Avalie a sinceridade do seu parceiro, avalie essa traição dentro de toda a história do seu relacionamento e veja se vale a pena a reconstrução. Se não, busque o SEU caminho.

Fernando1 diz: Qual a diferença entre traição e infidelidade? Se é que existe diferença?

Resposta para Fernando1: Infidelidade não é necessariamente traição. A traição só existe quando alguém faz alguma coisa que não estava no "contrato" de casamento. E é difícil saber o que estava nesse contrato, já que todas as cláusulas são implícitas.

PAULO diz: FUI CASADO 3 VEZES, E AS 3 VEZES FUI TRAÍDO, AGORA ESTOU NAMORANDO DE NOVO, MAS ESTOU MEIO TRAUMATIZADO. O QUE FAÇO?

Resposta para Paulo: Abra o jogo, converse claramente com a sua atual parceira. Mas não se esqueça de rever seus relacionamentos passados. Procure descobrir o erro que está cometendo e mude-o. É um bom começo.

ivan diz: O ser humano não foi criado para a prisão, a traição seria uma espécie de fuga?

Resposta para ivan: Quando existe um casamento monogâmico, o casal passa a ser um corpo vincular. A traição vem do conflito entre o corpo individual e o corpo vincular. Não é necessariamente uma fuga.

Joaquim1 diz: Será que a traição não é um reflexo da baixa estima de parceiro infiel?

Resposta para Joaquim1: Pode até ser. Principalmente quando a pessoa não acredita que vai ser amada. Aí ela quer ter segurança, testar sua capacidade e acaba traindo.

Pedro diz: Realizar as fantasias sexuais de sua parceira traz riscos à relação? Quero saber se esta prática pode evitar a traição?

Resposta para Pedro: Se realizar as fantasias sexuais dela vai evitar a traição não podemos garantir. Mas que pode ser muito estimulante no seu relacionamento, isso sim! Tem que ver também que fantasias são essas, né?

Serviço:

+ Terapia Familiar na Unifesp - (011) 5579.6784 - Atendimento Gratuito - De segunda à sexta - Horário Comercial.

+ S.O.Sex - Serviço gratuito para tirar dúvidas sobre sexualidade por telefone com profissionais do Instituto Kaplan. Tel. 0800.552533 ou pela internet - www.sosex.org.br

http://www.terra.com.br/jornaldalilian/especiais/2002/03/11/002.html

 

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