A infidelidade ainda provoca conflitos e dificuldade de perdoar, mesmo quando é recíproca
São José do Rio Preto, 23 de novembro de 2002
Editoria de Arte
Silmara Dela Silva
Punida com o sangue do amante em algumas regiões da Europa, na antigüidade, e razão para a morte das esposas adúlteras entre os Hebreus, a traição é determinada, culturalmente, a partir de padrões estabelecidos em cada sociedade. Enquanto na antiga Babilônia as esposas eram privadas de um dos olhos, para que só pudessem ver os seus maridos, os casais de Esparta chegaram a legalizar o adultério para combater o ciúme excessivo. No século 11, adúlteras eram assassinadas em praça pública pelos maridos, com o consentimento da Igreja e do Estado. A prática ainda é comum em alguns países islâmicos, em que as “infiéis” podem ser apedrejadas ou feitas prisioneiras em suas casas. Em todos os casos, porém, a traição está diretamente relacionada ao sentimento de posse sobre o outro. Quem trai, trai uma situação ou um vínculo estabelecido com o parceiro, provocando a insatisfação do outro.
Para a psicóloga Gyslaine Gomes Canniza, de Rio Preto, na relação é comum que o companheiro se sinta o dono do outro. “Por isso é tão difícil compreender que o parceiro tenha vontades próprias”, diz. “A presença da posse nas relações humanas faz com que a liberdade do outro seja tolhida. Essa pode ser uma das causas da traição”, afirma. Trair pode ser também uma tentativa de buscar a satisfação de necessidades que o relacionamento “oficial” não consegue mais contemplar. Ou de realizar desejos nem sempre satisfeitos com a relação monogâmica. Independentemente dos motivos que a provocam, pesquisas recentes indicam que a traição é mais presente do que nunca nos dias atuais, tendo se tornado prática comum mesmo entre as mulheres. Levantamento realizado por uma revista de circulação nacional, com 200 mulheres, constatou que 64% delas já traíram os parceiros ao menos uma vez na vida.
Os motivos que provocaram a infidelidade são os mais diversos, embora a insatisfação com o relacionamento atual predomine em mais de 40% das repostas. Também são apontadas como causa a atitude sedutora ou irresistível do outro e a busca por novas experiências. As atitudes pós-traição, entretanto, ainda são movidas pela mesma intolerância, predominante nas práticas comuns durante a idade média. A maior parte das mulheres ouvidas, com idades entre 25 e 40 anos, afirma que não perdoaria os parceiros se descobrisse ter sido traída. Já 72% delas dizem que se sentiriam trocadas e infelizes se descobrissem a traição, mesmo que já não amassem o parceiro. A dificuldade de perdoar e até mesmo o desejo de vingança são vistos pelos especialistas como sentimentos comuns após a traição. Para Gyslaine, o perdão à traição do próximo depende da admissão dos próprios erros, da capacidade de reconhecer que também está sujeito a falhas. “A traição leva à perda da admiração, da confiança, do carinho com a pessoa amada, sentimentos que, geralmente, são os responsáveis pela manutenção de um relacionamento”, diz.
Autora do livro “O oitavo pecado”, lançado no início deste mês pela Editora Siciliano, Isabel Tarcha descobriu na prática as formas de lidar com a traição. No livro, que conta uma série de casos reais, relatados ao site Traída www.traida.net, a autora também aborda o assunto a partir da própria experiência. Isabel descobriu a “traição” do marido enquanto navegava em sites de relacionamento. Ao colocar os dados de um suposto homem que seria do seu agrado, descobriu o anúncio de seu próprio companheiro, procurando por alguém que preenchesse o seu “solitário coração”. Revoltada com a traição, Isabel se cadastrou com uma mensagem em que dizia ser traída pelo marido e desejar fazer o mesmo. Em duas semanas, recebeu mais de 320 e-mails e decidiu criar um site sobre o assunto. Bem-humorado, o livro discute a infidelidade nos dias atuais e ao longo da história, analisando os motivos que levam à traição.
Consenso
Mesmo quando o casal opta por um relacionamento mais aberto, em que a liberdade para buscar novas experiências é consenso, a traição pode gerar conflitos e prejudicar a relação. De acordo com Gyslaine, isso acontece porque o traído acaba se envolvendo em um caos afetivo, sendo afetado em sua auto-estima. “A comparação com a outra ou, no caso do homem, com o outro, é praticamente inevitável. É difícil não se sentir inferior, anulado pela nova experiência do parceiro”, diz. A opção pela liberdade é ainda mais difícil quando os parceiros se comprometem a relatar ao outro tudo o que acontece durante a sua ausência. Embora tecnicamente a atitude não possa ser considerada uma traição, já que foi estabelecida por consenso, descobrir a existência de um terceiro é fugir de um padrão social. Uma atitude que, geralmente, está associada à convivência com conflitos.
Infidelidade não escolhe sexo
Mesmo com a igualdade de direitos e a ascensão feminina ao mercado de trabalho, a traição da mulher ainda é vista de forma diferenciada na sociedade tradicionalmente machista. A traição do homem é associada à busca pelo sexo, enquanto a mulher seria, em tese, proibida de trair, pois está associada à preservação do lar e à manutenção do relacionamento. Esta concepção, entretanto, não se justifica, de acordo com os especialistas em comportamento humano e as pesquisas realizadas recentemente. Segundo a psicóloga Gyslaine Gomes Canniza, de Rio Preto, apesar das diferenças entre homens e mulheres, ambos estão sujeitos à traição. “A mulher busca mais os sentimentos e o envolvimento que o simples apelo sexual. Por isso mesmo ela também pode trair, especialmente se estiver carente de atenção ou encontrar uma situação de acolhimento em outro homem”, diz.
Como a traição, as dificuldades em perdoar também ocorrem nos dois sexos. Na maior parte dos casos, mesmo que a infidelidade nunca seja descoberta pelo parceiro, o “traidor” se culpa pela atitude condenada socialmente. Isso prova que não difícil somente perdoar o outro. “Perdoar a si próprio também é um desafio que muitas pessoas nunca conseguem superar”, afirma Gyslaine. “Como só podemos dar aquilo que temos, o indivíduo que não se desculpa também não será capaz de compreender as falhas do outro”, ressalta a psicóloga.
Serviço:
Gyslaine Gomes Canniza - psicóloga fone: (17) 234-7113
Isabel Tarcha é autora do livro “O oitavo pecado” (Editora Siciliano) e criadora do site Traida www.traida.net
http://diarioweb.terra.com.br/noticias/corpo_noticia.asp?IdCategoria=4&IdNoticia=24606






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