Uma vida dupla

Quando saio às ruas em busca de prazer, me sinto personagem de um filme. Parece que estou vendo uma outra pessoa se esgueirando por becos escuros, perigosos, com a adrenalina em alta. E pelo caminho vou encontrando pessoas que, à luz da iluminação pública, ganham contornos mais interessantes que à luz do dia. Pernas à mostra, pedaços de seios, saltos altos, unhas vermelhas, hálitos de cigarro.
 
Me sinto outra pessoa. É como se fosse o meu duplo. Numa dessas noites, parei o carro perto de uma garota linda, de saia curta, pernas bem torneadas. Baixei o vidro do carro e ela se aproximou. Perguntei o preço, ela respondeu; perguntei como era o programa, ela disse que era um programa gostoso. Disso eu não tinha dúvidas, mas ela não respondeu o que eu esperava ouvir. Ela percebeu minha hesitação e descarregou seu descontentamento: “Você não quer uma mulher não é mesmo?” Eu sorri e balancei a cabeça, achando que ela diria confirmar que era uma travesti e aí superaríamos o mau entendido. “Então não sou eu que você está procurando”, e saiu. Claro, percebi naquela hora que ela era uma mulher genética e não uma mulher renascida em seus genes, como eu queria. Ela deveria ter considerado um cumprimento o fato de tê-la confundido com uma travesti, uma bela e perfumada travesti. Mas ela considerou um insulto.
 
Na vida dupla que eu levo – e muitos que me lêem passam por isso – busco essa mulher reinventada que, nas esquinas das ruas e avenidas onde se vende prazer, ocupa um lugar de destaque cada vez maior. Muitas mulheres invejam sua altura, seus seios firmes, suas pernas esguias, seu rosto delicado. Muitas mulheres as invejam por estar trepando com os homens que elas gostariam de levar para a cama. Suas camas estão vazias, enquanto os homens, em alguns casos seus maridos, noivos e namorados, estão esquentando os lençóis delas.
 
Depois de alguns anos de solidão, tomei coragem e encontrei pessoalmente outros homens que, como eu, também possuem um duplo. São homens normais, como eu também acho que sou, personagens do mesmo filme que vejo. Com eles converso abertamente sobre essas lindas mulheres e trocamos nossos segredos. Não temos nenhuma timidez ou vergonha em elogiar um pedaço masculino do corpo delas; não temos vergonha de dizer o que fazemos na cama com elas, ou o que elas fazem com a gente. Para nós é normal dizer que as beijamos na boca, que sugamos seu sexo, que adoramos quando elas gozam e nos dão de presente seus fluídos.
 
Parece que fazemos parte de uma sociedade secreta, mas que começa a se expandir e se tornar cada vez menos secreta. Trocamos e-mails em nosso grupo de discussões e, a cada dia, surgem novos homens dispostos a mostrar seu rosto e sentar na nossa mesa para um bate- papo e um chope. Nesses dias nossos duplos conversam, bebem e, às vezes, saem juntos para ver essas meninas nas ruas. Cada um de nós tem um segredo e, talvez o fato de dividi-lo com alguém que também tem um segredo, nos deixe mais seguros e protegidos. Não sei até quando seremos assim. Talvez alguns de nós matem seu duplo ou, então, deixem esse duplo viver à luz do sol.

Para falar direto com Senhor Pinto - o email é senhorpinto2000@yahoo.com.br

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Eu fico imaginando...

Sr. Pinto, as vezes também fico imaginando se as pessoas que estão no mesmo ônibus ou metrô comigo também não tem uma vida dupla. O cara sentado ali em frente, o outro senhor... bem, vai saber. E fico pensando, o que será que acontecerá, ou aconteceria, se muitos amigos meus e namoradas, soubessem que gosto de travestis?
Muitos não chegam a concretizar os desejos; outros fazem protegidos pela noite; alguns poucos tem a coragem de sentar numa mesa de bar com outros que tem os mesmos desejos e conversar abertamente sobre isso. Admiro muito a sua coragem, e seu texto. Aquele abraço!

Redsposta 2

É verdade, existem muitas pessoas como nós com quem cruzamos durante o dia e durante a noite. Mas é à noite que essas pessoas saem de suas tocas, como os bichos na mata quese sentrem seguros para procurar água.

O mais importante de tudo, em relação a sexo e gênero, é o respeito às opções de cada um. Isso eu aprendi no meu dia a dia e procuro não esquecer.
Abraço,

Resposta 1

Amigo,
OBrigado pelos comentários sobre minha crônica. Eu resolvi esc rever sobre esse tema por causa disso que você falou: a falta de contar essas coisas para alguém. Sinto que aqui divido esse segredo com muita gente que vive a mesma vida.
Grande abraço

O que vc descreveu acima é

O que vc descreveu acima é o que acabo sentindo, mas acho que escondemos isso de nós mesmos, de nossa namoradas... Ahh se elas soubessem, ahh se elas aceitasem nossa condição sem pensar que isso é uma traição e que somos pervertidos...
Gostaria de me comunicar mais com esse grupo de discussão...
Abraços...

Sr. Pinto, realmente a

Sr. Pinto, realmente a descoberta de outras pessoas iguais a você tanto no dia a dia, quanto nas fantasias lhe permite validar melhor seus desejos e nào se sentir só.
Enquanto generalizamos os generos, masculino e feminino e gostariamos de individualiza-los, em casa pessoa um perfil, sentimo-nos mais confortáveis em notar que as pessoas que tem fantasias iguais as suas são maiores do que voce espera.
Conforta existir muitos que veem as pessoas como individuos e não generos, que gostam e têm tesão na mulher, seja a garota que você confundiu ou a neo-mulher que com a ajuda da ciencia, assume o corpo que deseja, que assume o corpo que a mente deseja..

Somos únicos, sempre diferentes das generalizações que a sociedade lhe impõe, lhe rotula..

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