A vida deveria ser um dark room
No quarto escuro que muitas boates e estabelecimentos possuem em um cantinho reservado muitos atrevimentos acontecem. Para quem ainda não sabe e nunca ouviu falar, dark-room é um local totalmente sem luz, onde rolam amassos, sexos variados, passadas de mãos e tudo o que sua imaginação e curiosidade ousar experimentar.
Muitas casas já foram fadadas ao fracasso por não possuírem em seu espaço um cantinho privê como este. Sinal de que o dark room é muito freqüentado, mesmo que a grande maioria dos seus freqüentadores ainda negue que o visite. Vergonha do que? Vergonha para que?
Conversando com vári@s amig@s que sempre estão no dark room, percebo que o que mais encanta no dark room é o anonimato. O sabor de não ser reconhecido e poder soltar todas suas fantasias e desejos, sem medo de sofrer reprimendas por seus gostos e de ser crucificado com olhares de reprovação. Ali, no escurinho do dark é possível experimentar, ousar e principalmente SER. O dark não te pede RG, identificação e nem diz que você está errado.
Outro grande atrativo do famoso "cantinho escuro" é a possibilidade de um sexo fácil e sem cobranças. Ou até mesmo afeto. Já vi no dark room, pessoas que queriam somente beijar e serem tocadas. Pessoas extremamente carentes, que pelos mais diversos motivos, não conseguem experimentar o afeto à luz do dia, nem embaixo da luz negra das boates. Sem dúvida, o dark room serve para muitos homossexuais ainda como válvula de escape de sua sexualidade. Talvez se não existisse este espaço, muitas destas pessoas nem mais estariam entre nós, pois energia que não é canalizada e extravazada, explode e várias vezes de forma fatal e mortífera.
O que quero fazer pensar aqui é saber do porquê não pode ser feito todo este carinho e libertação de desejos e vontades fora deste espaço? Por que as pessoas ainda não têm coragem de serem elas mesmas, fora da escuridão?
Talvez tenhamos a resposta no capítulo final da novela América, que não teve coragem de expor ao público brasileiro um simples beijo entre dois homens (nem que fosse um selinho):- Tudo que rola entre dois homens ou mulheres é vergonhoso, sujo e não deve ser mostrado. Esta é a mensagem que sempre é imputada e mostrada na cara, sem entrelinhas e sem se preocupar com uma grande porcentagem de pessoas que quer simplesmente amar e ser amada. Afinal, quem não quer?
Quem sabe se a vida fosse um dark room, e cada qual se preocupasse com seu rabinho (ou pinto ou periquita), as máscaras caíssem e pudéssemos ser mais inteiros e principalmente mais felizes e plenos.
Confesso que ainda tenho medo de uma sociedade que quer que vivamos em guetos, escondidos e com vergonha do que somos. Confesso que tenho medo de uma sociedade que nos trata como não-cidadãos, mesmo com os impostos que pagamos. Confesso que tenho medo dos gays que continuam achando que é bonito gozar a noite inteira no dark room e não tem coragem de denunciar as atrocidades que passam em seu dia-a-dia.
E quando visito os dark rooms, percebo que também é muito baixo o número de preservativos que vejo no chão. Sei que houveram muito mais prazeres e gozos, do que os que conto no chão quando fecha a boate. Talvez na liberação de seus êxtases, perca-se a noção de perigo e esqueça-se que o prazer pode ser maldito algumas vezes. Quando não temos consciência dos nossos atos, podemos pagar com a vida ou sofrimento. Pode ser que este esquecimento não seja proposital e sim fruto de uma incontida repressão sofrida e que na hora do gozo explode como um paraíso onde tudo é possível. Inclusive o sexo sem camisinha com um desconhecido, o beijo na boca entre dois homens e duas mulheres, e até o amor que muitos só irão sentir na vida, dentro destes cubículos criados e que continuamos tratando como ninhos de nosso afeto marginal.
E nas muitas idas e vindas, nas muitas gozadas que uma pessoa dá no dark room numa só noite, resta muitas vezes a solidão. Como pode alguém gozar até mais de uma vez por noite e continuar sentindo-se vazio e não-satisfeito. Eu conto para você, amig@, lá no dark room, procura-se por algo que não temos e encontramos algo que sempre nos acompanhará - a solidão de não termos coragem de viver sem máscaras e enganações, sendo o que somos. Isto é o pior que temos. Isto é o pior que somos. Fracos, fragilizados e sem vida, afinal a vida só é permitida para quem é branco, de olhos claros, bem sucedido financeiramente, de boa família e lógico, heterossexual
Maite Schneider
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