Tenho AIDS sim, e daí?

No dia 14 de setembro próximo, vou completar 16 anos com HIV. Se a adolescência do HIV em mim está sendo tranqüila, eu não posso dizer o mesmo do seu surgimento e mesmo dos seus primeiros anos. Quando eu me infectei, com certeza, senti-me a um passo do fim. Pior que a doença e a possibilidade da morte, sofria com a medo da solidão imposta pelas pessoas. Durante muito tempo escondi o "meu HIV" de minha família e amigos/as.

Em alguns momentos, cheguei a falar que estava infectado, mas diante do sofrimento das pessoas eu voltava atrás e dizia que não passava de uma brincadeira de mau gosto. Há cerca de 10 anos, tomei a decisão de procurar um grupo onde pudesse conhecer outras pessoas com HIV, e ai eu encontrei o GIV. Foi uma grande descoberta, pois foi possível me sentir como Fênix, renascendo das cinzas. Viver com AIDS foi e continua sendo um eterno aprendizado para mim. Durante esses 16 anos, muitos/as amigos/as eu conheci e muitos outros eu perdi. Conheci pessoas que estiveram e estão até hoje comigo, e faz com que eu me sinta, sem demagogia, uma pessoa feliz. Preconceitos vieram e foram.

Afinal, quem nunca sofreu algum tipo de preconceito? O mais importante é que, em muitos casos, eu consegui transformar o preconceito em ações solidárias. O HIV para mim teve duas ações muito diferentes em minha vida: A primeira das ações foi totalmente negativa, pois me traria a certeza de uma morte que eu recusava a aceitar. Trouxe-me o medo do isolamento, as mudanças dos meus planos de vida. Sim, pois era impossível se descobrir com HIV e continuar como se nada tivesse acontecido. Muitos/as amigos/as morreram e foi muito difícil ser apresentado á morte através de pessoas que você ama. Por outro lado, descobri pessoas que fizeram da minha vida um quadro muito belo e que, certamente, tornou-me uma pessoa feliz.

Descobri em mim um guerreiro que sempre estivera escondido, e fui à luta. Uma "tal" de cidadania começou a bater no meu peito, e só então a minha visão sobre as injustiças foi tornando-se mais forte e comecei a minha viagem, minha batalha. Passei, como no filme "A Família de Félix", a construir a minha verdadeira família, que obrigatoriamente não era a biológica. E a minha história. Da minha história, os fatos foram e continuam acontecendo, coisas boas e ruins, situações tristes e alegres. A minha família... Bem, da minha família eu fui excluindo as pessoas que eu considerava tóxicas e acrescentando pessoas que para mim são singulares, especiais.

Não é fácil viver com HIV/AIDS. Afinal, além da toxidade dos medicamentos, encontramos outro tipos de efeitos colaterais em pessoas; a diferença é que, com as pessoas, eu me dou o direito a exclui-las da minha vida. Já com os medicamento, dificilmente poderei fazer o mesmo. Na adolescência do HIV em mim, posso garantir que a minha história de vida é algo que está longe de ser uma rotina, e isso me faz sentir uma pessoa mais viva do que nunca.

Quero e vou viver todos os anos que estavam estipulados no dia do meu nascimento, com uma grande diferença, quero viver muito melhor do que estava vivendo antes de ter me infectado. Por essa razão, se alguém me pergunta "... Você tem HIV/AIDS" eu não hesito em responder o que muitos/as portadores/as gostariam de responder e não podem: " Tenho sim!".

http://www.araudjo.hpg.ig.com.br/tenhoaids.html

 

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