Soropositivos lutam contra o preconceito
"Morrer todo mundo vai um dia. Se eu esquentar muito a cabeça, eu sofro", desabafa Tatiana, 14. Assim como as amigas Maria, 14, e Júlia, 15, Tatiana (nomes fictícios) nasceu com o vírus HIV, transmitido pela mãe, e hoje mora na Casa Vida, uma instituição de apoio a crianças e jovens soropositivos coordenada pelo padre Júlio Lancelotte.
Fora a rotina de remédios diários e exames periódicos, Tatiana, Maria e Júlia são adolescentes como quaisquer outras. Vão à escola. Saem para passear. Fazem planos para o futuro. Têm manias, sonhos e encanações. Vivem bem a vida.
Ao longo de seus 14 ou 15 anos de vida -e de Aids-, as três aprenderam tudo sobre cuidados, prevenção e contágio da doença. Têm uma palestra inteira sobre HIV na ponta da língua.
Aprenderam também que pessoas soropositivas, mesmo quando são bonitas e saudáveis como elas, precisam saber se proteger do despreparo e do preconceito da sociedade. "Não preciso falar para o mundo inteiro que tenho Aids", explica Júlia. "Não se pode esconder isso para sempre, mas também não é preciso pôr uma placa. Quem me respeitar vai merecer minha confiança. Já contei para minha classe inteira. Ninguém acreditava que eu tinha Aids."
"O preconceito é a coisa mais chata de ser soropositiva. A doença ainda não tem cura, mas o preconceito sim", defende Maria. E todas têm algum tipo de história para contar.
"Uma vez, fui dar um pedaço de chocolate para uma amiga da escola e outra colega falou para ela não aceitar porque eu tinha Aids. Naquele dia, não consegui me defender, chorei", conta Tatiana. "Depois, consegui explicar a elas que não se pega a doença assim. Às vezes, os pais querem proteger tanto os filhos que passam uma idéia errada da doença."
"Instruímos as meninas a dividirem com os amigos a informação que elas têm sobre Aids, que é super-rica. São elas que vão levantar a bandeira do HIV e aprender a serem respeitadas", explica Rosana Soares Ribeiro, 33, coordenadora de uma das unidades da Casa Vida.
Para Regina Succi, 53, professora da Universidade Federal de São Paulo e chefe do Ceadipe (Centro de Atendimento da Disciplina de Infectologia Pediátrica), é difícil para o jovem "assumir a condição de infectado". "Aqueles que adquiriram o HIV por transmissão sexual sentem culpa porque acham que poderiam ter se prevenido", explica. "Já os que nasceram de pais infectados têm uma sensação de fatalidade, lidam melhor com a doença e chegam à adolescência com uma qualidade de vida muito boa."
Maria confirma: "Acho que somos mais tranquilas porque temos HIV desde que nascemos. Mas a Aids é uma coisa que todos têm de encarar, não só os soropositivos. Todo mundo está exposto à possibilidade de pegar a doença".
Todo esse esclarecimento não exclui algumas fases de revolta, ainda mais durante um período da vida, como a adolescência, em que a cabeça ferve de tantos questionamentos.
"Já fiquei muito indignada pensando que, além de a minha mãe me passar essa doença, ela me largou. Não conseguia perdoá-la de jeito nenhum", lembra Tatiana. "Depois pensei que ela fez bem em me deixar com quem pudesse me criar bem. As coisas ruins a gente tem que deixar para trás. A gente tem que viver a vida." (FERNANDA MENA)
http://www.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u557.shtml






Enviar novo comentário