Depressão é um dos distúrbios mentais que mais causam sofrimento. É normal senti-la?

 Em psiquiatria, falar em maior ou menor grau de sofrimento de um determinado transtorno mental é complexo. Inúmeros fatores e diferentes níveis de prejuízos ou incapacitações estão envolvidos. Porém, sem dúvida, a depressão é um dos transtornos mentais que mais causam sofrimento tanto aos pacientes quanto aos familiares. Até porque a sua prevalência também é alta - clique aqui e leia.

Há vários fatores significativos que podem levar ao sofrimento do paciente deprimido:

1º) Muitos quadros clínicos de transtorno depressivo maior são recorrentes, têm curso crônico, e acabam, infelizmente, sendo subtratados ou mal diagnosticados. Há muito abandono de medicação por falta de conhecimento ou orientação. Com isso, os prejuízos sócio-funcionais, ou seja, a incapacitação gerada em diversos níveis de atividades e interações profissionais e familiares é significativa.

2º) A pessoa perde, quando deprimida, o prazer por quaisquer atividades interessantes ou cotidianas de sua vida (a psiquiatria denomina anedonia), isola-se, sofre rejeição e é sempre "rotulada" ou estigmatizada como alguém "fraco", "pavio curto", "sem fé", "acomodado" o que aumenta mais intensamente a culpa enorme que o deprimido já sente.

Ninguém é imune à depressão por toda a vida. Sentir tristeza é normal, mas sentir depressão não A sociedade precisa saber formas construtivas e saudáveis de lidar e ajudar uma pessoa com depressão, incentivando-a ao tratamento correto ao invés de julgá-la ou condená-la. Pode ocorrer com qualquer um de nós, em um momento variável de nossas vidas. Ninguém é imune a ela por toda a vida, mesmo os considerados "normais" podem ter o quadro clínico de depressão em um determinado momento.

3º) O sofrimento pode ser aumentado devido a *comorbidades comuns (principalmente em mulheres), ou seja, associação com outros transtornos mentais como alcoolismo e uso de outras drogas e transtornos de ansiedade (pânico, fobias, ansiedade generalizada, etc). A magnitude da depressão é aumentada perante tais comorbidades.

4º) Depressão não tratada adequadamente traz graves prejuízos sócio-econômicos (desemprego, perda de amigos com isolamento, queda financeira) e declínio significativo da saúde física (piora o curso de diabete, doenças cardiológicas e várias outras doenças, inclusive as crônico-degenerativas).

Sentir tristeza é normal, porém, sentir depressão não. É fundamental as pessoas sempre aprenderem a fazer a diferenciação, orientando-se sobre os critérios diagnósticos da depressão que é um transtorno mental que requer tratamento medicamentoso e psicoterápico associados. Grupos como a ABRATA (www.abrata.org.br ) são fundamentais também.   

*Comorbidade: o termo é formado pelo prefixo latino "cum", que significa contigüidade, correlação, companhia, e pela palavra morbidade, que é a capacidade de produzir doença

Entre 10 e 30 de maio, estarei nos EUA, no Congresso Americano da Associação Psiquiátrica Americana (APA). Desde já, conto com a compreensão e paciência dos queridos leitores, pois não terei como responder os e-mails nesse período.

Atenção!
As respostas do profissional desta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um profissional de psiquiatria e não se caracterizam como sendo um atendimento

Joel Rennó Jr.
Doutor em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenador do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher-Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein-SP (HIAE)

 

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