A noitada
A Kawasaki Ninja recortava velozmente por entre os carros no horário de pico do trânsito paulistano. Negra, como negro era o macacão do piloto e seu capacete. Agressivo! Não se poderia encontrar outra palavra melhor para definir o modo como ele pilotava, levando na garupa uma bolsa presa com extensores.
Lívio mal pensava no que fazia, seu corpo respondendo automaticamente aos comandos de seu cérebro que o comandava quase que somente por reflexos inconscientes, enquanto que sua mente ocupava-se com pensamentos conflitantes: Sua esposa e seus dois filhos estariam agora na estrada, rumo à sua casa na praia ou, mais provavelmente, ainda empacados no tráfego intenso daquela sexta feira.
O sinal fechou no cruzamento com uma grande avenida e quase não houve tempo para frear. Ficou parado na primeira fila, no corredor entre os carros. Linda! Como era linda sua esposa! E como a amava!
Arrancou, empinando ligeiramente a roda dianteira, distanciando-se dos carros. Não gostava de traí-la, sentia-se mal com tudo aquilo, mas não podia evitar. Era mais forte do que ele, simplesmente não havia nada que pudesse fazer a respeito.
Resolveu, então, que não pensaria mais nela e, trancando a imagem do carro que a levava juntamente com seus filhos, em algum compartimento oculto de sua mente, entrou no motel.
Já passava das onze da noite e o movimento da rua no centro aumentava. Dois homens conversavam na esquina distraidamente quando o som de saltos altos ressoando contra as pedras da calçada lhe chamou à atenção. Olharam.
Lentamente, os pés se alternavam em um andar propositalmente ocasional. As unhas vermelhas contrastando com a sandália negra, de plataforma, pernas longas e bem feitas expostas quase que completamente sob uma curtíssima minissaia. Barriguinha de fora, uma pequena blusinha mais acima, mais revelava do que escondia um sutiã que sustentava e apertava um par de seios médios formando um sensual vinco no colo.
Cabelos loiros desciam soltos à altura dos ombros.
Os dois homens fitaram o rosto finalmente e, um tanto sem graça, voltaram a conversar. Ela passou e, novamente seus olhares se voltaram em sua direção, dessa vez mais discretamente, como se quisessem garantir um ao outro a sua falta de interesse.
- Belo traseiro! – Comentou um deles, e sorriu maldoso.
- É... – retorquiu o segundo - ... mas não é o meu tipo de mulher!
Laís continuou descendo a rua, ciente dos olhares que lambiam seu corpo dando-lhe uma intensa sensação de prazer. Travesti que era, sabia que seu rosto não enganava, ainda que coberto por uma maquiagem perfeita, fruto de muito treino diante do espelho, desde tenra infância. Em razão dos hormônios que vinha tomando já a algum tempo, seus seios estavam um pouco sensíveis e proeminentes, sua pele mais macia, seu bumbum mais arredondado. No entanto, sua estrutura masculina era imutável.
Um carro buzinou: - Aê gostosa!!!
Sorriu, mas não se virou para olhar.
Mais adiante, duas colegas sorriram para ela, do outro lado da rua. Eram desconhecidas, mas retribuiu acrescentando um ligeiro aceno de cabeça. Estava quase chegando à boate para onde se dirigia.
Beberia um pouco e, certamente, acabaria enroscada com algum ou, mais provavelmente, alguns garotões no “dark room”.
Beijaria muito, chuparia alguns bons cacetes, ficaria de quatro para eles. Seria quente e fácil, rápida e selvagem, não importando muito quem eram os homens com quem iria se esfregar, desde que tivesse um falo ereto e a fizessem sentir mulher.
Ao raiar do dia, voltaria ao motel para se despir, retirar os enchimentos dos peitos, a peruca e a maquiagem, tomar um bom banho e descansar um pouco antes de pegar a estrada para o litoral, a fim de encontrar a sua querida família. A culpa? Largaria pelo caminho, como em todas as outras vezes e até a próxima.
MÁRCIA ROCHA
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