Continho transformista

Um dia G. acordou e viu que havia se transformado em uma mulher. Não era o pesadelo kafkiano de Gregor Samsa se realizando em plena São Paulo. De pesadelo não tinha nada. G. estava acordando dentro de seu próprio sonho, ele próprio transformado em realidade. Pesadelo, pensava G., era o que vivia antes, quando acordava todas as manhãs e se via dentro do corpo de um homem.
 
Quando voltou da anestesia, na cama do hospital, sabia que aquele era o dia seguinte de sua nova vida. O primeiro dia. Um dia ainda com fortes dores e muito desconforto. G. foi alertada de que aquilo aconteceria, mas que era normal naquele tipo de cirurgia. G. começou a chorar, mas não era pela dor como supôs a enfermeira que estava atenta aos seus movimentos e logo a acudiu. Ela chorava de alegria. Uma alegria dolorida. Será que as mães também se sentiam assim ao dar à luz, um marco tão importante em suas vidas?
 
G., agora uma mulher redesignada, nunca poderia dar à luz, mas não havia nada que a impedisse de adotar um filho e criá-lo como se ele tivesse se formado e saído de dentro de seu corpo, por aquela abertura vertical, que substituía seu sexo masculino e agora era sua vagina. A região ainda estava muito inchada, muito distante ainda de como ficaria depois da cicatrização. Mas ela saberia esperar. Afinal esperara tantos anos e alguns meses a mais ou a menos não fariam a mínima diferença.
 
O caminho do renascimento de G. foi longo, repleto de obstáculos que, aos poucos, foram sendo superados. A transformação do corpo já havia começado com os hormônios, logo depois da adolescência, mas a própria natureza havia antecipado esse trabalho e lhe concedera formas delicadas, curvas suaves, um perfume adocicado que sempre foi sua grande arma de sedução. Seus pais ficaram ao seu lado, apesar de ela saber o quanto fora difícil para os dois aceitar a nova realidade diante de seus olhos. O acompanhamento psicológico também foi importante. Ela sentia que não estava sozinha no mundo e isso a deixava muito segura.
 
Agora ela era uma mulherzinha completa e poderia dividir com a mãe intimidades femininas, segredinhos, risinhos maliciosos (enfim, coisas de mulher).  Talvez até dividir alguma peça de roupa, já que as duas tinham praticamente o mesmo manequim. E o pai poderia se orgulhar das duas mulheres de sua vida.
 
Naquele dia no hospital, quando acordou e viu seu sexo transformado numa flor aberta, não se esforçou nem um pouco para conter as lágrimas. Ora bolas, não dizem que as mulheres choram por tudo? Pois ela não negaria a tradição e inundaria o quarto com todas as lágrimas que guardou no peito desde o dia em que nasceu.
 
PS: Essa historinha, de pura ficção, é dedicada a todas as mulheres que ganharam uma flor entre as pernas, como minhas amigas Maitê e Patrícia.


 
SP
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Minha paixão: Mulheres e T-Gatas
 
"Não deixe de realizar suas fantasias, mas nunca esqueça das medidas de segurança que nos protegem."

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