II Fortalecendo - Parte 2

1ª Roda de Conversa – Movimento Gay & Movimento GLBT

 

Ao se iniciar a 1ª roda de conversa Yone Lindgren, deu alguns informes que estão transcritos abaixo:

... a passagem de retorno, vamos entregar ,esta com a equipe de do evento. Tem algumas pessoas que vieram de ônibus e ainda não entregaram as passagens e não pegaram o reembolso. E eu preciso saber, quem vai viajar de ônibus o horário que prefere, pois eu vou mandar comprar hoje ainda. Também preciso de quem não me entregou o canhoto da vinda, para deixar logo comigo. A vera está vendo qual é a melhor dinâmica para ela entregar o dinheiro das refeições para quem não está hospedado para não atrapalhar o ritmo. Segundo, que a gente ficou pelo menos por 2 meses pela internet pactuando um termo de convivência. Era uma hora só de almoço. Nós estamos com uma hora de atraso, e tínhamos ganho 40 minutos na programação, então a gente tem que estar atento com isso.

Agora que eu já fiz à chata, teríamos agora uma dinâmica de retorno ao trabalho, mas a gente já usou muito tempo, aí vai ter a primeira roda de conversa. Só que o auditório que seria todo nosso evento não ficou pronto a tempo, e ele daria espaço para nós colocarmos até 150 pessoas em forma de roda de conversa, e ia até separar em grupos de trabalho, aqui não dá. Eu realmente não sei como resolver, então eu vou jogar a bola para quem vai facilitar essa parte do evento todo.

Eu queria comunicar que além dessas pessoas que estão aqui, a Carla Machado vai participar, porque ela iria participar da conferência de ... esqueci o local,mas e ela já havia se comprometido conosco e a Maitê também quer participar. Agora eu vou passar a bola para a Lilia, que é a facilitadora, a partir desse momento, e vou ficar ali observando como pobre mortal. Por favor, assinem as listas de presença, porque senão vamos ter que dar falta para quem está presente. E isso leva para a seleção do próximo evento. A gente já não tem muito trabalho com quem faltou. Porque também estava acordado no pacto de convivência que cada uma recebeu na sua bolsinha que nós teríamos todos esses cuidados em relação à lista de presença, em relação a atraso, a não faltar, por favor. Lilia.”

 

Facilitadora: Lilia Rossi – Expertise em Interação Social e Diretora da Pact Brasil

Iniciou fazendo um histórico de sua trajetória profissional dentro da prevenção da AIDS e de sua relação com o Movimento GLBT, ao qual, em sua opinião, ainda falta diálogo e interação entre os diversos segmentos, além da falta de protagonismo da mulher dentro desse mesmo movimento

Segue a transcrição abaixo:

“Boa Tarde, depois do almoço. Desculpem-me por não está aqui de manhã cedo, na mesa de abertura. Eu sou Lilia, não estava aqui de manhã por conta de atraso de vôo, teve quase uma hora de atraso e eu não consegui chegar a tempo. Chequei com o Rodrigo, ele me falou que não tinha rolado, antes da gente começar a conversar, eu acho que valia a pena a gente passar por cada uma, saber o nome, de onde veio, qual a instituição, eu não conheço todas as pessoas que estão aqui. Acho que não fizeram isso ainda, vamos fazer? Podemos começar por aqui?”

As participantes começam a se apresentar,algumas presentes não quiseram participar da dinâmica de apresentação:

“Eu sou Marina Maria, sou jornalista e sou assistente de projeto do observatório de sexualidade política, trabalho com a Sônia Correa na ABIA.

Eu sou Sonia, vocês já sabem quem eu sou.

Eu sou Vagner de Almeida, nossa equipe está toda aqui hoje da ABIA e também represento Columbia University em Nova York. Estou aqui para fazer o filme sobre as meninas, as moças e as mulheres brasileiras.

Eu sou Alexandre Böer, eu sou do grupo Somos de Porto Alegre e eu estou diretor para a Região Sul da ABGLT.

Eu sou Priscila, sou de Minas e represento o CELLOS – Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual.

Eu sou Marilene, sou de Belo Horizonte, e também participo do grupo CELLOS.

Eu sou Priscila, sou do Rio, colaboro com o Movimento D’ELLAS e trabalho com listas de discussão na internet, a principal delas, voltada para as mulheres, é a Lelist que atualmente tem cerca de 1000 pessoas.

Sou mulher lésbica, Celise Azevedo, militante do Movimento Lésbico do Maranhão, sou de São Luis do Maranhão.

Eu vou pegar à mesma expressão dela, sou uma mulher lésbica, meu nome é Nádia, eu sou convidada, sou pesquisadora, escrevi um trabalho sobre duas mulheres que viveram juntas aqui no Rio na década de 50, estou aqui porque a gente tem que ter mais direitos e dar a cara para bater como a Maite falou hoje pela manhã e me emocionou bastante. Aprender a ter estratégias, acho que esses encontros nos ajudam, nos fortalecem com novas estratégias.

Eu sou Luciana, sou assistente social e atuei como coordenadora do Centro de Referência da Baixada e atualmente eu estou como interessada no evento procurando entender e aprender mais. Obrigada.

Yáskara, lésbica, Coletivo de Feministas Lésbicas – CFL e Flor do Asfalto – Centro de Estudos e Debates a respeito de Efeminados, Masculinas, Transgêneros e Intersexo, ou seja, os quatro mais discriminados entre os discriminados.

Eu sou Azimar, cigana, lésbica e participo, como a Yáskara, do Flor de Asfalto.

Eu sou a Jane, venho do Guarujá, litoral de São Paulo, e represento o LOBAS – Lésbicas Organizadas da Baixada Santista. Mulher Lésbica, Lésbica Mulher, tanto faz.

Eu sou Sandra Torres, simpatizante e sou convidada.

Meu nome é Jéssica, eu faço parte de vários projetos, um deles é o Conexão G, que é para representar as lésbicas, porque não tem, sou daqui do Rio mesmo.

Não identificada (fora do microfone) – O que é o Conexão G (...)?

O Conexão G é um grupo dentro da Maré que trabalha com a homossexualidade, de como você se impõe como homossexual dentro do seu bairro, porque na Maré não acontece, é muito difícil, rola muita discriminação e os meninos criaram o Conexão G, que só tinha meninos e agora a Jéssica está entrando para ser uma das meninas que serão as porta-vozes das lésbicas na comunidade. Eu sou Jaqueline, sou daqui do Rio também, sou da Maré, não sou do Conexão G, não sou de nenhum grupo de militância a favor dos direitos dos homossexuais, na verdade, sou lésbica mas não participo de nada, participo de grupos que estão relacionados a essa temática indiretamente que é o ‘Bairros do Mundo’ que é um grupo que trabalha com jovens, faço parte do Raps que trabalha com saúde para os jovens e sou atriz, faço teatro há 5 anos e tem toda essa temática dentro do teatro, que envolve a homossexualidade, todo mundo que faz teatro é homossexual, isso não é verdade, a gente sabe que não, mas também, tem homossexual no teatro, eu sou uma, tem outros, então de alguma forma meus grupos estão relacionados a isso também, não completamente, mas estão.

Meu nome é Fernanda, eu sou de Brasília, eu sou militante independente e juntamente com a Dani a gente está com o projeto de abrir uma ONG em Brasília voltada para as lésbicas e eu estou aqui para aprender com todos vocês, até porque eu sou nova no cenário de militância e estou aqui para absorver bastante informações aqui de vocês.

Oi, eu sou a Yara, sou de São Paulo e sou da Marcha Mundial de Mulheres.

Eu sou a Carla Machado, sou de São Paulo, sou educadora e tradutora e estou aqui representando o Coletivo Nacional de Transexuais.

Meu nome é Dani Lima, eu sou de Brasília, estive em Goiânia por dois anos na Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros, junto com o Leo Mendes, junto com o Julio, e os demais companheiros. Estive presidente do Grupo Lésbico de Goiás, estive como coordenadora do Somos Lés Centro Oeste e estou mais uma vez aqui no Fortalecendo para me fortalecer, articular, me informar e contribuir com o cenário lésbico no Brasil, no Centro Oeste, enfim, dentro de nós mesmas, talvez.

Sou Alessandra Guerra, mulher lésbica, jovem e feminista, presidente do grupo LAMCE que é o Grupo da Liberdade do Amor Entre Mulheres do Ceará, que é o grupo lésbico de Fortaleza e integrante da Articulação Nacional de Jovens Feministas, da rede nordeste GLBT, rede Jovens do Nordeste.

Eu sou Roza Bahia, da Bahia, estou presidente até a próxima semana do grupo Vontade de Mulher, coordenadora do Núcleo de Lésbica, sou da Rede Nacional de Lésbicas Negras e da Rede Afro GLBT.

Bom, eu sou Alana, de Teresina, Piauí, e eu coordeno o grupo de vivência para lésbicas do Centro de Referência Homossexual de Teresina.

Ana Paula Vencatto, eu sou antropóloga, sou de Santa Catarina, mas morei um tempo aqui no Rio, agora estou em São Paulo e sou voluntária da Associação da Parada de São Paulo.

Oi, eu sou a Sany, vice-presidente do Grupo Nobreza de Petrópolis, Rio de Janeiro.

Eu sou a Mariana de Petrópolis, também sou voluntária do Grupo Nobreza.

Eu sou Alexia Moura, sou de Porto Velho e trabalho no Tucuxi – Núcleo de Apoio a Livre Orientação Sexual e dentro do Centro de Referência “Núbia Lafaiete”.

Eu sou a Célia, presidente do Grupo Arco-Íris de Cacoal.

Eu sou a Julia, sou lá do Acre e vim representando a REDACRE – Associação dos Redutores de Danos do Acre, buscando a Saúde.

Eu sou Lucineide, de Rio Branco, Acre, também. Eu estou representando a AMAR – Associação de Mulheres Acreanas Revolucionárias, voluntária.

Boa tarde a todos e a todas, eu sou a Lucélia, sou de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, sou Mulher Lésbica, e estou representando a Bem Mulher.

Boa tarde, eu sou o Reverendo Marcio Retamiro, teólogo, historiador, pastor da Comunidade Evangélica Betel do Rio de Janeiro, uma comunidade cristã, protestante, reformada de inclusão GLBT, sou gay desde o ventre da minha mãe, pela graça de Deus estamos aqui para tentar ajudar a fortalecer as mulheres também. Eu enchi muito o saco da Yone para ela poder me deixar participar como observador de vocês. Falou-se muito em fundamentalismo hoje e o nosso trabalho é esse é um contraponto contra o fundamentalismo cristão, nós usamos a teologia e todas as ferramentas que ela nos dá para propagarmos que a bíblia, no fundo, não condena a homossexualidade. Aliás, um dos mais belos casos de amor que a bíblia relata é de duas mulheres, Rute e Noemi. Está ok? Deus abençoe vocês!

Boa tarde, eu sou psicóloga e estudo psicologia jurídica e eu estou representando a organização de Direitos Humanos – Projeto Legal, aqui na Baixada, em Caxias. Meu nome é Paula.

Boa tarde, eu sou Deni Carvalho, faço parte do conselho da Comunidade Betel do Rio de Janeiro e me aproximei quase que por acaso do Movimento D’ELLAS a partir daqueles emails, que a Maite falou que pipocam nas nossas caixas postais e foi um encontro bastante feliz e eu espero compartilhar com vocês bastante conhecimento e bastante experiência nesse universo de luta que, embora perene, ainda é tão novo.

Oi, eu sou a Monique, de Curitiba, Paraná, sou enfermeira e trabalho no CTA de Curitiba.

Oi, boa tarde, eu sou Ana Carla Lemos, faço parte do grupo LUZ de Recife que eu hoje atualmente coordeno, é um grupo de mulheres lésbicas e bissexuais que a gente fundou em 2006.

Boa tarde, meu nome é Keliane, sou daqui do Rio, só que atualmente moro em Curitiba, represento a Artêmis – Associação Paranaense de Lésbicas, coordeno junto com minha companheira.

Eu sou a Renata, eu sou de Cabo Frio, aqui do Estado do Rio de Janeiro, presido uma ONG chamada Grupo Iguais, trabalho na Prefeitura como coordenadora de Eqüidade de Gênero da Secretaria de Políticas para Mulheres do Município de Cabo Frio, também atuo no Movimento GLBT, transversalizando com outras questões, como questões do movimento negro, do movimento feminista, enfim.

Bom, eu sou a Flavia, eu sou de Campinas, não vim representando nenhum grupo, porque no momento eu não estou participando de nenhum, só colaborando com a programação da parada.

Boa tarde, meu nome é Graziela, eu sou presidente do GDN – Grupo Diversidade Niterói, represento aqui hoje o Núcleo de Lésbicas – Amazonas do GDN, sou lésbica, feminista, socialista, estudante, graças a Deus e sou também Conselheira Municipal de Políticas para as Mulheres de Niterói.

Boa tarde, eu sou Rose Durans, da GALT AMAZON, de Belém do Pará. A GALT AMAZON é uma associação de Gays, Lésbicas, Transgêneros e Transexuais do estado.

Boa tarde, meu nome é Claudia, lésbica, eu sou de Cabo Frio vim pelo Grupo Cabo Free e tenho pouco tempo de movimento, tem menos de um ano que estou no grupo.

Bom, eu sou Irina, a maioria das pessoas me conhecem por vários lugares, mas aqui eu estou como CFL – Coletivo de Feministas Lésbicas, atualmente sou a nova coordenadora e também estou como consultora pelo Ministério da Saúde para a saúde das mulheres lésbicas e bissexuais.

Eu sou Sirlene, de Umuarama, Paraná, eu sou do Movimento AIDS, tocamos uma instituição mista, lá no interior com uma casa de apoio para portadores de HIV/AIDS, chamada ‘Nosso Lar’

Irina – eu esqueci de falar uma coisa, que eu acho muito importante que muitas de nós fazemos parte mas eu e muitas de nós que estamos aqui fazemos parte do coletivo de mulheres da ABGLT, que apesar de a ABGLT ter várias mulheres parece que ainda nós não temos voz. Nesse espaço vai ser o momento de a gente se empoderar e passar a ter voz e sermos reconhecida dentro da ABGLT também como militantes e ativistas.

Oi, eu também sou lésbica, não militante por nenhum grupo, mas gostaria até de ser, estou tentando, estou esperando convite, só isso, eu até tento, mas elas não convidam. Eu vivo com a Marta que é minha companheira há 7 anos, a gente já assinou termo de união estável homoafetiva na associação em São Paulo. Eu até queria fazer aqui no Rio também, aproveitar o Fortalecendo, não foi possível pelo excesso de eventos e não tinha horário, então fica para o próximo, quem sabe no terceiro a gente venha a fazer. Estou muito contente, estou gostando muito, sou de São Paulo, me chamo Luriana.

Bom, ela já deu metade da minha apresentação. Eu sou a Marta, nós moramos em São Paulo, moramos aqui no Rio algum tempo, também não faço parte de nenhum grupo, por enquanto. E no início eu vinha mais por causa dela, porque ela queria vir muito, mas eu confesso que agora também é por minha causa estou gostando de estar aqui. Eu sou paraibana.”

 

Facilitadora – Lilia Rossi

“Obrigada pela apresentação, assim fica mais fácil, pois é muito difícil guardar o nome, os vínculos institucionais e de movimento de cada uma, mas ao longo dos dois dias e meio que a gente tem, eu acho que vai dar para memorizar legal.

A gente tem agora essa conversa e é bem legal o que a Irina falou, qual o objetivo de a gente estar aqui no II Fortalecendo, independentemente do grau de participação que a gente tem, da trajetória que a gente tem como militante ou dentro de movimento, dentro de uma ONG, de uma estrutura institucional, ONG AIDS ou CRT, um centro de referência, um CTA ou uma ONG de lésbicas, enfim, independente disso tudo, do grau de envolvimento, de toda a trajetória, do histórico individual de cada uma, a gente está aqui para chegar ao final, chegar no domingo, durante esse tempo aí, e identificar que tipo de estratégia, que tipo de ação, o coletivo, esse coletivo aqui representando as mulheres lésbicas, podem definir como meta para se fortalecer enquanto movimento. Então é muito legal quando a Irina fala da ABGLT porque esse é um foco, e é o tema dessa conversa agora de tarde. Quando eu falo movimento gay, quando eu falo movimento GLBT, quando eu olho para esse tema da mesa a primeira coisa que me vem à cabeça é “onde está e como estão as lésbicas dentro desses 2 movimentos? Não participando ativamente, mas se relacionando ou se posicionando para garantir a sua voz, a sua presença, a defesa de suas reivindicações”.

Então antes de passar para a Sônia, Vagner, Alexandre e Carla, a Marjori ainda não chegou, eu queria colocar um pouco da minha experiência e vou talvez indicar a idade, mas eu queria o feedback de vocês do cenário atual, porque a minha experiência, não sou militante, trabalhei muitos anos no ministério da saúde, trabalhei muito tempo com AIDS, a minha área de atuação é AIDS, e vi esse trabalho com prevenção do HIV/AIDS, eu comecei a trabalhar inicialmente com o movimento homossexual, só o movimento dos meninos, minha função dentro do Programa Nacional era fortalecer e identificar as estratégias que poderiam ser feitas em parceria com o movimento para prevenção da epidemia e nessa trajetória em uma coisa muito rápida e seqüencial, começamos a trabalhar com o grupo matricial de mulheres que era para identificar objetivos e parcerias com as lésbicas para chegar em uma melhoria de saúde, de vida, de diminuição de estigmas e de discriminação e também ter esse movimento como aliado nas outras estratégias do programa como um todo. E paralelamente a isso, também, trabalhando com o movimento, na época era de travestis somente, agora é de transgêneros, hoje a gente tem até a divisão de trans e travestis. Bom, essa é minha trajetória profissional, por isso várias de vocês me conhecem e Yone faz muito alarde disso, porque foram muito anos, foram 15 anos trabalhando dentro do ministério da saúde e com esses 3 movimentos. O único que eu trabalho atualmente é o movimento de travestis, com ANTRA, após uma forma, aí sim como militante, como forma de ajudar o movimento a se estruturar.

Um pouco na mesma perspectiva que, Jane, Yone que está aqui, e outras mulheres e que sabia que o que era necessário fazer há 10 anos atrás a gente está fazendo agora com as travestis. Um pouco entendendo qual é a dinâmica e fortalecendo para que o movimento se empodere e possa atuar de uma forma mais eficaz em diversas áreas.

Passado esse briefing do meu histórico pessoal, o que fica para mim é que quando cheguei nesse mundo, não o mundo-AIDS, mas o mundo que linca AIDS e diversos movimentos, a diversidade sexual, nos três movimentos, mas muito fortemente no movimento de mulheres lésbicas e no movimento gay, no movimento homossexual o que eu percebi era que “o movimento é meu e eu tenho a verdade”, então à gente não conseguia dialogar, o movimento gay não conseguia, nossa! 20 mil lideranças perfeitas, cada um com sua característica, cada um com sua fortaleza, que poderia contribuir para o todo, para o conjunto, mas não podia se falar e não se escutava o outro e o que a Maitê falou aqui na dinâmica antes do almoço. Quando eu dou o bom dia, eu realmente estar dando o bom dia e ter o ouvido para escutar o que o outro pode me dizer, embora eu possa não concordar, mas eu possa atuar junto com essa diversidade. Isso acontecia nos 3 movimentos, muito fortemente no movimento homossexual e muito fortemente no movimento de lésbicas, em que não se falava as que tinham 20 anos, tinham vários segmentos várias lideranças, uma melhor do que a outra, mas não conseguiam sentar em uma mesa e discutir em termos de “somos um movimento, se nos reconhecemos como tal, o que a gente vai fazer em conjunto, respeitando a diversidade, diversidade de opinião, diversidade geográfica, diversidade em termos de equilíbrio desse “eu estou chegando agora no movimento” “eu já estou há 20 anos no movimento”, diversidade de saberes, de atuação, o que a gente pode fazer junto? Esse era o cenário, e considerando o que a gente pegou, nós da velha guarda, eu queria ter o feedback, só para esquentar um pouquinho, a gente vai falar sobre identidade de gênero, discriminação, preconceito, cultura da paz, esses são os temas do restante da tarde. Eu queria ter o feedback de vocês em termos de “hoje, como está o cenário? Quando eu penso o movimento GLBT, como é que eu enquanto militante, enquanto atuante de um segmento desse movimento maior, enquanto militante lésbica, como é que eu me vejo inserida? Que dificuldade ou facilidade eu identifico para firmar o meu movimento, porque se eu sou do movimento de lésbicas é esse o meu segmento maior, é essa a minha militância, mas eu não deixo de estar inserida em um movimento maior que é o GLBT. Quais são então as minhas dificuldades, ou quais eu identifico, quais as facilidades, é possível se relacionar, como é que está esse relacionamento quando a gente fala com os meninos, quando a gente fala com gay. Eu enquanto movimento de lésbicas vou discutir com o movimento gay ou com o das trans, ou o das travestis?”e a Carla também pode, eu acho interessante Carla, você fazer um depoimento, uma conversa nesse sentido, porque o movimento de transgêneros passou por um processo bastante significativo, “bom, vamos nos identificar, então vamos todas nos identificar e houve uma ruptura, não uma ruptura de briga, nada disso, mas uma ruptura dentro do movimento que era maior para atender a diversidade de identificação das trans e das travestis. Então eu queria parar de falar para escutar vocês e começar a mesa.

 

Irina Bacci – Coletivo de Feministas Lésbicas

Movimento LGBT é complexo pois agrega uma diversidade de pessoas que tentam se enquadrar em padrões identitários estanques, no qual a opressão do masculino sobre o feminino ainda está presente e há uma supervalorização das instituições em detrimento dos sujeitos, o que pode, por vezes, enfraquecer a luta política.

A transcrição da explanação segue abaixo:

“A Celise está falando que ficou complexo. Mas na verdade eu acho que o movimento é complexo, porque é uma diversidade de pessoas que tenta a toda maneira se enquadrar em caixinhas que a sociedade impõe e se você flutua pelas caixinhas, você já não se identifica, muitas vezes no movimento, e eu acho que isso vem desde lá de trás, de quando você dialogava mais com o movimento. E eu acho que o Alexandre pode contribuir, a Jane, a Yone, as que estão mais tempo, antes de mim, por exemplo, mas acho que não mudou muito, pelo que eu leio da história, e nesse ano a gente faz 30 anos de movimento, antes chamado de homossexual brasileiro, e hoje de movimento GLBT, LGBT, enfim.

Eu não percebi a mudança, em são Paulo a gente tem escrito a história para contar, porque uma das nossas fundadoras é fundadora do movimento, que é a Marisa Fernandes, que estaria aqui, não pode estar, e a gente tem sentado juntas e tentado escrever essa história e, inclusive, para produzir um documentário que deve sair esse ano ainda, e a gente observa que não mudou, se a gente olhar para trás e lembrar do Somos, e ver porque o Somos acabou, que muita gente falava assim “ah! Teve uma partidarização do movimento”, enfim, aquela ala de esquerda d o movimento partidário invadiu o Somos e rachou. E hoje a gente vê esse mesmo movimento acontecendo de novo, é como se a gente estivesse olhando o mundo e ele girando, girando e as coisas sempre voltam. Talvez seja porque a gente não consiga fechar a porta, como nós não fechamos as portas do passado na nossa vida, e vez ou outra os fantasmas aparecem e no movimento parece que isso é muito repetitivo, vez ou outra aparece, e com isso a opressão do masculino continua presente cada vez mais, eu acho que são poucas as mulheres que sabem lidar com isso, porque é muito difícil para a gente lidar com a opressão masculina, não necessariamente ligada aos homens, ela pode vir inclusive das mulheres, isso que precisa ficar bem claro, que machismo e feminismo não estão ligadas a estruturas de sexo, nem de pessoas e uma outra estrutura e eu penso que é isso que mais dificulta o avançar, mas por outro lado tem muitas coisas positivas, quando a gente olha para uma plenária dessa e vê uma série de mulheres que estão começando e escutando minha fala fica pensando “nossa, será que essa coisa não melhora?” pelo contrário, é que a gente às vezes enxerga as melhoras aos poucos e aquilo que é mais negativo a gente tende ver mais, principalmente nesse processo de conferência, não é Alexandre, levando tanta porrada à gente aprende a ser pessimista, mas depois de 8 de junho tudo isso passa.

Mas o que eu queria dizer é que as mulheres que são mais novas, e até pegando o gancho da fala da Yone, não importa se a gente está em grupo ou não está em grupo, é a mesma coisa, não importa se estamos ou não estamos no armário, o importante é que a gente exerça a nossa afetividade e seja feliz, e a mesma coisa é o militar, não importa se estamos ou não estamos em grupo, o importante é que a gente faça algo e esse algo traga benefício a outras pessoas e que, em contrapartida, vai nos ajudar também, porque eu sempre fui militante do movimento de pessoas com deficiência, pela minha profissão, mas militava em prol, e milito até hoje, de pessoas que não eram par e hoje eu faço o contrário, milito em algo que é par, em prol de mim mesma, e isso é uma satisfação muito maior quando a gente consegue alguma vitória. E a gente não pode se deixar abater por essas opressões todas que não é só do movimento GLBT, ela é da sociedade como um todo e a gente tem que criar estratégias, como disse a Maitê, e agora a Lilia reforçou, eu acho que a Nádia também falou, de se sobrepor a essas estruturas machistas que são da sociedade, não são necessariamente dos homens, e com eles, acho que já passou da época de a gente fazer tudo separado, e com eles construir junto, avançar junto, que eu acho que assim que a gente chama, e obviamente dentro do movimento tendo aquele um ou outro que podem estar em homens e mulheres e que caminhem mais juntos eles aos poucos vão ficando para trás e a gente vai avançando.”

 

Alexandre Böer – Grupo Somos/RS e Diretor da Região Sul da ABGLT

Lembrou um pouco de sua trajetória de militância iniciada no movimento feminista que lhe deu acúmulo nas discussões das questões de gênero que não se restringem ao universo feminino e sim abrange diversas compreensões, inclusive do conceito de patriarcado, heteronormatividade compulsória que está na raiz da discriminação contra a população GLBT.

Apontou a necessidade do Movimento GLBT brasileiro, e da ABGLT em especial, de construir alianças junto a outros movimentos sociais, inclusive o feminista, pela necessidade de sobreposição das agendas.

Retomou os Princípios de Yogyakarta ressaltando a neutralidade do documento que não fala em homem ou mulher, ou em gay, lésbica, travesti, transexual ou bissexual e lembrando que são princípios dos direitos humanos a universalidade e a indivisibilidade. Ainda, nesse sentido, informou o trabalho da ABGLT para que o governo brasileiro defenda os Princípios de Yogyakarta como um documento oficial adotado pelo Estado Brasileiro e também junto às altas autoridades de direitos humanos do MERCOSUL.

Falou da fragilidade do movimento GLBT frente à multiplicação de redes que não interagem e nem dialogam entre si e do erro do movimento em transferir para essas redes o poder de decidir sobre as representações nas diversas comissões, conselho e grupos de trabalho, desarticulando o EBGLT – Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais.

“Boa tarde! Eu queria muito agradecer a Yone, pelo convite que ela fez, e todo o pessoal do movimento D’ELLAS e, primeiramente, queria agradecer muito vocês que me receberam tão bem, porque eu confesso que tive um pouco de medo de estar em um encontro de mulheres lésbicas, porque a gente sabe da nossa dificuldade, muitas vezes, de comunicação de entendimento e a final de contas “o que é que a gente está fazendo aqui?”. E eu acho que o convite que veio para mim na verdade tem um pouco a ver com a minha trajetória, eu sou jornalista, eu também milito há bastante tempo e eu, na verdade, comecei antes do movimento, como a Lilia tem a história dela, eu comecei a militar no movimento feminista, antes de entrar para o movimento GLBT e eu me considero um gay feminista e eu acho que por isso o convite, por isso essa necessidade de a gente aprofundar o diálogo e esse conhecimento.

Então, eu começo no movimento de mulheres, mesmo sendo homem eu fazia assessoria de imprensa para uma vereadora feminista e aí que eu fui começar a compreender toda essa discussão em relação ao sexismo, a gênero, o que realmente são relações de gênero e não substituir gênero por mulher, o que se fazia há muito tempo atrás e ainda continua se fazendo, “agora vamos discutir gênero”, mas na verdade estamos discutindo coisas de mulher. E eu acho que a gente precisa ter essa compreensão para avançar nesse sentido, compreender o que significa o patriarcado, compreender essa questão da heteronormatividade que nos colocam como o único padrão, como sendo a relação entre o homens e mulheres o único padrão aceito, então essas conceituações, se a gente for aprofundar e eu não vou me alongar aqui porque é uma roda de conversa, a gente vai entender perfeitamente que todos nós, homens e mulheres, gays e lésbicas, travestis e transexuais, se a gente entender as raízes da opressão a gente vai compreender que a gente está no mesmo barco. E isso às vezes é muito difícil, compreender que a gente não tem absolutamente nada, ou seja, os gays afeminados, quem tava falando que tem, a Yáskara, ou as mulheres mais masculinizadas, o quanto se sofre em relação à disso porque está na raiz da opressão o que é ser homem e o que é ser mulher na nossa sociedade, os meninos vestem azul, as meninas vestem rosa, e tudo aquilo que a gente sabe e faz, quando faz oficinas de sexualidade e de gênero e essa concepção que faz essa divisão absurda e às vezes a gente não se vê no mesmo movimento.

É um momento político muito importante que estamos vivendo hoje e vou tentar dividir a minha fala nesse sentido. Primeiro esse reconhecimento de que espaço a gente está e qual é a nossa verdadeira luta, essa luta maior de todos nós, como é que a gente faz para construir de fato essas alianças e não só entre nós, GLBTT, mas inclusive com o movimento feminista, porque nós também precisamos discutir a questão do aborto, a questão dos nossos corpos, porque tudo isso está ligado. Se eu me considero um gay feminista eu preciso necessariamente fazer essa discussão, eu preciso incorporar todas essas agendas e poder ter uma agenda comum, inclusive em parceria com o movimento feminista.

Eu acho que isso é a primeira coisa, eu acho que a ABGLT, e eu falo enquanto um dos dirigentes da ABGLT, hoje vivencia uma perspectiva de mudança. Eu estive nas jornadas pelo aborto, em alguns desse encontros, principalmente no norte e no nordeste, e a gente tentou fazer essa aproximação do movimento feminista com o movimento GLBT, através da ABGLT, justamente pela necessidade de sobrepor essas agendas e fazer essa discussão e trazer para o movimento gay também essa pauta que nos interessa e muito e poder somar esses esforços e a gente avançar, tanto do ponto de vista das mulheres como um todo como de todo o movimento GLBT.

Se a Sonia falou de manhã e eu tenho certeza que ela vai retomar a questão de Yogyakarta é muito interessante à questão do documento porque ele parece neutro, muitas vezes se a gente ler, e vocês estão com o documento na mão, vocês vão ver que em momento nenhum do documento se fala em gay, em lésbica, em travesti ou em transexuais, ou homem e mulher. São seres humanos, são pessoas e os direitos, assim como a Sonia falou, que são universais também são indivisíveis, outro conceito importantíssimo na questão dos direitos humanos e alguém falava sobre isso de manhã, nós não temos meio direito, um direito pela metade, os direitos eles se completam, não posso ser meio cidadão, ou eu sou ou eu não sou e eu acho que os princípios trazem essa noção de uma coisa que é para todos nós, o direito a constituir família, não interessa se é uma família com 1 ou com 2, ou com 2 mulheres ou 2 homens, ou com 3 pessoas inclusive, é o direito de constituir família que está colocado no documento e a gente precisa se debruçar sobre ele e tentar transformá-lo em uma ferramenta para ser utilizada não só na ONU e nos países membros, mas como é que a gente se apropria desse documento e transforma em uma ferramenta para o meu grupo, na minha cidade ou no congresso nacional ou em outras instâncias.

Voltando para a questão das jornadas, eu acho que foi bastante importante a nossa participação, eu trabalho muito com um companheiro que a maioria de vocês conhecem que é o Beto de Jesus que também é um dos dirigentes da ABGLT, e também desenvolvem um trabalho hoje que é sobre direitos humanos internacionais e a gente fez um trabalho junto a ONU e também estamos tentando nos últimos 2 anos fazer um trabalho junto ao MERCOSUL pela necessidade de a gente aprovar uma resolução brasileira e a Sonia já falou isso na parte da manhã. Só que com a retirada do Brasil por causa do petróleo, pois foi à questão comercial que fez o país tirar a resolução da pauta, em função da Arábia Saudita e esse era o jogo econômico por trás e também quando a gente vai estudar um pouco de direitos humanos a gente vê que é um pouco entusiasta, a gente vai muito ainda de coração aberto, fazendo essas discussões e quando a gente vê que precisa estudar economia, a gente precisa estudar outros tratados para a gente poder enfrentar esses outros inimigos não só com o nosso discurso embasado em nosso conhecimento de direitos humanos, mas a gente fez um movimento diante dessa negativa do governo brasileiro, a Sonia falou muito bem de manhã, que a importância de estar na pauta, de se trazer a discussão é uma estratégia, a gente está aqui discutindo estratégias e às vezes as gente sabe que não vai ganhar, que os nossos inimigos são mais fortes, mas a gente precisa estar nos espaços e demarcar algumas questões e voltar a essa discussão é uma das estratégias permanentes, então, apresentar esse documento, que a Sonia falou de manhã, em plena Nações Unidas, mesmo não sendo um documento produzido pelas Nações Unidas, ele está na discussão dos governos naquele espaço, e isso é importantíssimo.

A gente tentou fazer na seqüência como pessoas da ABGLT trazer para o Brasil e fazer com que esse documento circulasse mais entre todos nós e essa aproximação que a gente fez com o governo brasileiro e também procuramos que esse documento fosse incorporado de fato pelo governo brasileiro e a gente teve 2 estratégias nesse sentido, uma é tentar fazer com que esse documento fosse um dos documentos que estivesse na pasta, mas não significa ele fisicamente, mas um documento defendido pelo governo brasileiro, socializado, ou seja, ele vai assumir como um documento oficial do Brasil, isso é a primeira coisa e a segunda é que a gente conseguiu também esse convencimento através das reuniões de altas autoridades em direitos humanos do MERCOSUL que a gente também vem participando desse processo, que é uma rede como o nome próprio diz de todos os países que compõem o MERCOSUL na qual todas as autoridades desses países discutem a temática dos direitos humanos.

A questão GLBT também nunca foi tocada até a nossa participação nesses espaços e a gente conseguiu parceria não só a ABGLT, mas também outros movimentos da argentina, do Uruguai, do Chile, fazer com que eles também se apropriasse dessa questão das altas autoridades para que a gente pudesse incidir sobre essas reuniões e poder colocar esse tema em pauta e o governo brasileiro foi muito parceiro nesse sentido, é importante dizer que a gente teve uma boa recepção através do Ivair que muitos de nós conhecemos que é do Conselho Nacional de Combate à Discriminação, através do próprio ministro Paulo Vanucci que sempre foi muito receptivo, e o respeito que a gente construiu eu acho muito importante como movimento, independente das pessoas que estão fazendo a interlocução, desse reconhecimento de que nosso movimento como um todo merece respeito, merece ser escutado e a gente consegue bater na porta seja de um chanceler, seja de um representante como um ministro e a gente poder ser recebido, poder ter essa escuta e poder “o que você está me trazendo é importante e a gente vai fazer a defesa”. E daí são aquelas pequenas costuras que tem que ser feitas nos bastidores desses espaços, e esses avanços vão acontecendo dessa forma.

Hoje a gente conseguiu que o próprio documento circulasse entre todas as autoridades do MERCOSUL e a gente está caminhando para que os Princípios de Yogyakarta, embora a maioria dos países seja signatários lá, mas se não tiver esse movimento de trazer para o país e poder enraizar, assim como a Sonia falou, não adianta ter o tratado se não tiver o trabalho de formiguinha que é necessário que seja feito, então eu acho que um pouco esse movimento internacional a gente está fazendo.

E para que isso aconteça, é importante, é claro, a nossa união, acho que isso é fundamental, a união e também o reconhecimento de nós somos machistas, e isso é uma coisa que também foi falada agora.

Nós estamos em um momento político importantíssimo e delicado, importantíssimo porque a gente conseguiu que se fizesse esse ano à conferência nacional GLBT, que está batendo aí as nossas portas em junho, porém a gente está em um momento de muita fragilidade também porque, ao mesmo tempo em que a gente apostou todas as fichas em uma conferência nacional para que a gente transformasse as políticas de governo em políticas de estado, o que é importantíssimo para nós, pois independente de quem seja o governo, a gente tenha políticas, a gente tenha recursos, tenha projetos na área da saúde, da educação, da cultura, em todas, isso a gente tem que ter, ao mesmo tempo a gente está fragilizado porque, falando também um pouco de história, a gente sabe o quanto os encontro de gays e lésbicas que mudaram muito nos últimos anos, a gente sabe que eles foram muito importantes para nós, porque esse era o principal espaço do movimento para nós nos reunirmos, nós discutirmos, nos conhecermos, e também par afinar estratégias. Com o empoderamento das diferentes redes os espaços onde nós escolhíamos nossos representantes, para estar junto aos ministérios, enfim, nossos interlocutores, a gente acabou delegando para as diferentes redes e aí começa, no meu ponto de vista, nosso grande problema e eu acho que as lésbicas, nesse sentido, o movimento lésbico é o mais fragilizado de todos porque as travestis tem uma única rede, as transexuais tem uma única rede estruturada, a ABGLT, a princípio devia agregar todos os segmentos e daí tem o problema de ser machista e as mulheres nunca tiveram espaço, por isso a necessidade de outras redes, então essa revisão tem que ser feita urgentemente, rever essa posição machista da ABGLT e essa é a fala que eu tenho feito inclusive dentro dos espaços da ABGLT, para mim não adianta ter uma secretaria de mulheres, tem que ter uma presidente mulher na ABGLT, pois a gente reconhece isso como um espaço de fortalecimento, a gente precisa fazer essa mea culpa, a gente precisa tomar esse espaço, e buscar as parcerias dentro da própria ABGLT para que isso mude.

Mas o movimento lésbico, essa questão das diferentes redes, hoje temos duas grandes redes nacionais, e ainda tem mais redes de negras, lésbicas, feministas, independentes e mais isso e aquilo, faz com que a gente fique realmente fragilizado e não vai ser o governo que vai nos organizar, isso é uma outra questão também, muita gente está esperando que o governo diga, se surgir uma rede amanhã de mulheres indígenas lésbicas ela vai ser convidada para a reunião no mesmo patamar que uma outra rede que já tenha 20 anos, não é o governo que vai dizer que essa é mais legítima, menos legítima, mais tempo, ou essa aqui não está tão enraizada, então, todas são olhadas pelo governo na mesma horizontalidade, o que de fato elas não são, muitas são mais frágeis e a gente acaba não tendo mais espaço porque a gente despotencializou os espaços do EBGLT, então esse é o momento que a gente está vivendo, inclusive o EBGLT tinha que acontecer esse ano e ele ainda não aconteceu, porque não se tem recursos, porque não se tem apoio político para um encontro desse porte, porque as pessoas preocupadas em votar as suas representações e olhar para o seu próprio umbigo.

É nesse sentido que eu queria fazer essa fala, alertar para essa necessidade de a gente, realmente, repensar nossas raízes e o que realmente nos une, fica a pergunta que a Lilia fez e reconhecer essa necessidade de a gente caminhar juntos e poder ver nossos inimigos, e as nossas agendas são as mesmas, quer dizer, se a gente tem que lutar contra a homofobia, se a gente tem que lutar pelo estado laico, se a gente tem que lutar pelo direito ao corpo e isso independe se eu sou gay, se eu sou lésbica, se eu sou travesti, a gente não tem tanta diferença assim, infelizmente, muitas pessoas insistem nas diferenças e a gente pouco insiste em nossa agenda comum.

Do meu ponto de vista a gente está no momento político do nosso país e do movimento que a gente precisa ver qual é a nossa agenda comum entre nós e junto com o movimento feminista.

Então era só isso que eu queria sinalizar para vocês, obrigado!”

 

 

 

Vagner de Almeida – Cineasta e Membro da ABIA

Comentou, inicialmente, sobre a dupla discriminação sofrida pela mulher lésbica, primeiro por ser mulher e segundo por ser lésbica, além dos mais diversos recortes, como étnico/racial, social, econômico etc. e da baixa produção cinematográfica sobre o assunto e informou que das filmagens do II Fortalecendo irá produzir um documentário.

Lembrou da violência às mulheres que residem em áreas excluídas e violentas e questionou a ação do Movimento GLBT nessas áreas, pois não há registros oficiais de violência nessas áreas. Sendo necessário, dessa forma, se repensar toda a agenda do movimento para que possa atuar nessas áreas, pensando as questões de drogas e violência.

Em contraposição, falou da evolução do movimento de mulheres, em especial das lésbicas, ao longo da história, comparando as atitudes sociais de mulheres de 3 gerações atrás, que eram obrigadas a esconder sua sexualidade e viver uma vida heterossexual compulsoriamente e as de hoje que tem a possibilidade de viver livremente seu afeto. Ressaltando a importância da discussão geracional dentro do movimento de mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais, além da discussão das diferentes manifestações da lesbianidade, para se evitar discriminações e preconceitos internos.

Segue a íntegra:

“Agora sou eu. Gente eu vou pedir licença para ficar em pé porque eu estou com um problema de coluna seriíssimo e eu estou indo ao médico daqui a pouco, por sinal, depois dessas falas todas maravilhosas, dessas pessoas incríveis, de idéias maravilhosas, falando de rede, de movimento é difícil falar depois do que nós ouvimos aqui, mas temos que falar muito.

A minha fala é muito básica em cima do que eu faço, eu trabalho com cinema, eu trabalho com teatro, eu trabalho com comunicação, e com projetos sobre sexualidade, direitos humanos e AIDS.

Em primeiro lugar eu tenho que agradecer a Yone e a todo o pessoal do D’ELLAS que me convidaram para estar aqui entre vocês, muito obrigado, acima de tudo a vocês por terem me recebido aqui muito bem, graças a Deus, sem nenhum constrangimento e sem nenhuma barreira, pois isso de uma das melhores coisas para que nosso movimento consiga ter diálogos, porque senão ficam só os monólogos entre os grupos e nunca um diálogo, nunca um debate firme.

E o que eu queria começar a falar é sobre a dupla discriminação da mulher lésbica, e isso é uma das coisas mais importantes para mim, para os meus filmes, para os meus escritos, essa dupla discriminação, primeiro ser mulher, e segundo ser lésbica e se você começar a descer essa escada, ser lésbica e pobre, ser lésbica e negra, ser lésbica fora do eixo Rio-São Paulo e não ser uma lésbica chique. Se você começar a fazer análise e pouquíssimo, o que eu acho muito interessante no Brasil, nós dentro da mídia temos muitos filmes sobre travestis, sobre gays, nos temos uma enxurrada, dá para preencher prateleiras com filmes, mas raramente nós temos filmes sobre mulheres lésbicas, um bom exemplo hoje, para nós todos repensarmos aqui, apresentamos um lindo filme, mas não era um filme lésbico. Se você fizer uma comparação em produções de filmes gays, travestis e lésbicas, você vai ver um número que continua em uma escala muito melhor.

Eu fui convidado até a fazer um documentário desse momento com vocês e eu acho que isso tem sido muito rico, até porque as falas de todo mundo aqui hoje, foi à importância de nos organizarmos, a importância da união, a importância de irmos a plenária e falarmos o que temos que falar nesse exato momento da historia do Brasil, com essa conferência nacional que vamos ter e com essa repercussão que eu já tenho escutado até em NY da I conferência ser aqui do Brasil, pessoas tem me procurado em Columbia University para perguntar como vai ser essa conferência, isso para você ver como as coisa estão sendo burladas e isto é muito positivo.

Hoje nos estamos com um numero maravilhoso de seres humanos mas ainda é muito pequeno para o nosso movimento, se nós analisarmos o número de mulheres lésbicas que estão lá fora, em áreas extremamente violentas, em áreas extremamente excluídas, onde o movimento está chegando? Com o movimento gay é a mesma coisa? Com o movimento das trans é a mesma coisa? Queria muito agradecer a Molly que está aqui presente que participou desse filme “Basta um Dia”, sobre os assassinatos das travestis na baixada fluminense, mas isso foi só um mixo que eu fiz naquele filme pois naquele exato momento, naquele mesmo lugar, mulheres lésbicas negras estavam sendo espancadas ou então assassinadas e o registro na polícia são dos piores. Então nós temos que repensar toda a agenda, toda essa agenda de direitos, nos temos que repensar na mulher lésbica no trabalho, na mulher lésbica no controle de saúde, na mulher lésbica sendo respeitada. Eu como gay, homem, gostaria de deixar isso claro, como eu me sensibilizo muito por essa questão da própria mulher, porque minha mãe foi mulher, foi espancada pelo meu pai, e ao ver a vulnerabilidade que a mulher tem, hoje nós estamos falando sobre o homem aqui, mas não só o homem no gênero, mas a mulher que espanca a namorada, a parceira que espanca a outra parceira.

Eu conheci a primeira lésbica aos 6 anos de idade eu e minha amiga tínhamos 6 anos de idade, fui dar um beijo nela e ela disse que não gostava de beijo, que homem beijasse ela, isso ela tinha 6 anos e meses mais tarde ela beijou uma amiga minha ela foi publicamente espancada porque mulher não podia beijar outra mulher como ela queria, com 6 anos de idade e hoje em dia ela é uma pessoa maravilhosa, ela teve que casar, teve que ter filhos, tem uma outra coisa que eu gostaria de falar sobre as 3 gerações, movimentações dentro do universo lésbico que é a lésbica idosa, que necessitou casar, ter filhos e constituir família, porque ela foi obrigada a fazer isso, uma geração de mulher solteira, no sentido de que não precisou casar e ter filhos, assumidas publicamente e uma terceira geração que é a nova, que está beijando na boca, que está ficando, que fica hoje com uma menina, mas amanhã dá um beijo na boca de um menino, daí não gosta do menino e volta para a outra menina, isso é fantástico, porque é a geração das mulheres que tiveram que casar, das mulheres que tiveram que ser castradas, foram elas que abriram todo esse caminho para que hoje possamos estar aqui sentados. Porque todos que estudam a historia da sexualidade lésbica, observa que o lesbianismo existe desde que o mundo é mundo, mas quantas mulheres, quantas mães nossas, quantas tias, avós foram obrigadas a casar, constituir família, ter filhos quando na verdade as grandes paixões delas eram a vizinha, a colega, a amiga distante também casada e nunca conseguiram se agrupar como seres humanos plenos.

Trabalhar essas gerações é muito importante, também uma coisa que eu não consegui perceber aqui dentro, lésbicas mais idosas, mulheres com 70 anos, com 80 anos

(sem áudio perceptível....)

Eu queria ressaltar que a idade no Brasil é um grande crime contra o ser humano brasileiro, nós com 30 anos já somos velhos no Brasil e isso é muito triste, porque eu sociedades com uma visão mais ampla, ela consegue dar ao cidadão e a cidadã um tempo muito maior de atividade. Ser lésbica com 70 anos é a coisa mais linda.

Existe um filme muito bonito com a Vanessa Redgraph, não sei se vocês viram, são 3 partes do filme, que ela não teve o direito do enterro da companheira, isto no Brasil também acontece, isso é uma coisa que eu admiro muito na nova geração que está beijando na boca, eu acho que tem que beijar na boca mesmo, fiquei muito feliz ao ver a parada desse ano no RJ o número de lésbicas participando da parada, não só individualmente, elas estavam com suas parceiras, estavam abraçando, estavam beijando e isso deu uma visibilidade muito legal, apesar de eu ter escutado as coisas piores e mais nocivas possíveis, porque 2 mulheres estavam se beijando.

Uma outra coisa, por que o preconceito contra a mulher, mulher lésbica principalmente, é muito maior do que todos os outros preconceitos que tem com os gays, que tem com as travestis etc., cada grupo, trabalhando com os grupos, analisando, estudando, aprendendo com eles, cada grupo diz “meu grupo é mais marginalizado”, “ah! O meu grupo é isso...”. se você analisar, quando você pega o gay, vamos pegar o homossexual masculino, branco, olhos azuis, loiro, rico, que viaja de 1ª classe RJ-Paris, essa pessoa é vista de uma outra maneira, quando você pega o mesmo gay, negro, pobre, então ela é a “bichinha pão com ovo”.

Essas terminologias, essa composição de discriminação, também está dentro do mundo lésbico, eu vejo minha amigas lésbicas chiques, discriminando às outras lésbicas que andam de bermudão, que cortam o cabelo soldado, que tomam muita cerveja etc.

Isso são pautas que devemos trazer para esse tipo de reunião, para a 1ª conferência que vamos ter no país, porque nós falamos muito de leis e direitos que estamos querendo adquirir, e estamos esquecendo de coisas mais básicas como o princípio de convivência, o princípio de você conseguir ser você em uma sociedade, onde você estiver. E esse é um dos princípios dos quais eu estou me dando conta, principalmente nesse filme. Eu faço a pergunta, “como é ser lésbica no Brasil?”, porque ser lésbica no Irã nós sabemos como é, ser lésbica nos EUA, que não é o formato de ser lésbica, é uma mistureba imensa. Mas como é ser lésbica no Brasil, com uma família tradicional, machista e esse machismo, é interessante falarmos sobre a mulher também, própria família, a irmã, a mãe, a tia e a avó, elas também passam a ser algozes das mulheres lésbicas.

A colega da sua filha, dizendo que você na sua idade não poderia ser lésbica, isso é impressionante, parece uma fala de homem.

Eu queria saber de vocês aqui presentes, as gurus já sabem o caminho que se deve tomar, como, para vocês o movimento lésbico está se organizando, será que o movimento lésbico está se organizando somente dentro da conferência nacional?, dentro dos movimentos gays, ou entro dos próprios lugares, ONGs ou bares que vocês se reúnem para conversar, e essas são as minhas dúvidas. Como serão as gerações das novas mulheres lésbicas, como a geração antiga revê esse movimento novo.São coisas para as quais eu não tenho resposta, pois o meu universo, o HSH, eu não entro tanto em mulheres como eu entro com homens,

E uma outra coisa que eu tenho observado muito dentro do universo são as drogas e a violência. Eu tenho observado muito entre as mulheres lésbicas a violência, a violência verbal, a violência física, gostaria de fazer uma pesquisa rapidamente, está bem Lilia? Quais de vocês, como lésbicas, já foram agredidas fisicamente, não importa por quem? Levantem a mão, por favor. Esse é um número grande aqui dentro, impressionante!

Isso é o que eu gostaria de falar, gostaria novamente de agradecer o convite, e espero que vocês todas possam participar do filme que estamos organizando aqui, a participação de todas vocês é importantíssima, cada uma dando sua opinião, como mulher, como lésbica, e dizendo realmente, fragmentando alguma coisa, reivindicando, pois é através do feedback que vocês nos derem aqui hoje, é que nós vamos poder montar pautas para que futuras reuniões, futuros encontros cada dia mais possa dar respostas, possa dar mais sugestões e até mesmo mais vitórias. E não esquecendo o PL 122 pois é muito importante. Hoje já foi mencionado, mas parece que caiu um pouco no esquecimento das pessoas. Que as pessoas consigam refletir sobre ele. Muito obrigado.”

 

 

Carla Machado – Coletivo Nacional de Transexuais

A partir do Coletivo Nacional de Transexuais as mulheres trans estão assumindo o compromisso de lutar juntamente com o movimento de mulheres, inclusive o de lésbicas, visto haver um grande número de mulheres transexuais com essa orientação sexual.

A transexualidade é percebida pela pessoa desde a infância, porém a fase mais conturbada na vida de pessoas transexuais é a adolescência, visto ser um período de transformações, no qual essas pessoas ainda não tem conhecimento identitário, social e político, dificultando seu autoconhecimento, o que leva a exclusão familiar, escolar, social o que leva a marginalidade, a ficar a margem do que é ideal, levando ao uso indiscriminado de hormônios, automutilação, infecção por HIV e demais DSTs.

A exclusão social das mulheres transexuais leva a uma falta de políticas públicas que as contemplem, mesmo havendo a inclusão das mulheres trans no programa de saúde da mulher.

O não respeito à identidade de gênero das transexuais no que diz respeito ao uso do nome feminino é outro motivo de constrangimento e exclusão das mulheres trans, além da violência policial que as atinge freqüentemente.

“Muito obrigada. Meu nome é Carla Machado, eu sou de São Paulo e eu fui convidada pela Yone para estar aqui representando o Coletivo Nacional de Transexuais. Como não era para eu estar aqui hoje, eu vou me ater ao tema da mesa, porque eu não preparei uma fala teórica, vou deixar isso para a Sonia, sobre identidades de gênero, o tema da mesa seria “Identidade de Gênero, Discriminações, Conflitos e Violências”, aliás, a roda de conversa. Então, o que eu vou fazer, eu pensei em trazer um pouco do nosso contexto para vocês, já que estamos juntas nessa luta, e esse foi o motivo pelo qual a Yone chamou a gente para estar aqui.

A gente como CNT, as mulheres transexuais estão assumindo um compromisso de lutar junto com as mulheres, junto com todas essas derivações que a luta das mulheres demanda, luta feminista etc. Além disso, eu trago para vocês um dado, que para vocês talvez seja curioso, um grande número de mulheres transexuais que são lésbicas, quando eu falo um grande número não é alguma, são muitas.

Eu coordenei um projeto em são Paulo com aproximadamente 200 travestis e transexuais e a maioria das mulheres que se posicionavam como transexuais tinham um relacionamento lésbico. E um outro dado curioso, eu não tenho um estudo para falar mais sobre isso, mas uma questão de percepção minha que muitas das mulheres que passaram por processo de cirurgia, por esse processo transexualizador, que fizeram sua cirurgia e são mulheres de fato, reconhecidas como tal, elas se descobrem lésbicas, conheço muitas, então, de repente a gente vai descobrindo juntas porque isso acontece.

A gente trazendo esse contexto aqui nosso para vocês eu acho que traz conhecimento e traz fortalecimento, pois o conhecimento é uma arma para a gente se fortalecer. Eu quis trazer um pouco disso para vocês. Vou ser bem breve, vou tentar elencar as nossas dificuldades, as discriminações e conflitos por que passam as trans aqui para vocês.

Quando a gente fala em ser transexual, a gente já começa a pensar desde lá da adolescência, desde ser criança, com relação a esses problemas, mas, principalmente, todo mundo consegue imaginar que a fase mais crítica para uma pessoa transexual e na adolescência, primeiro, porque ela não tem discernimento identitário, político, social, ela não sabe quem ela é, o que ela está fazendo lá ela só sabe que alguma coisa está errada e ela não tem arma para lutar, como disse a Maitê, contra uma rodinha de gente gritando, te xingando. Como eu também passei, muitas passaram, simplesmente você se traumatiza, o que acontece, você se exclui, dão o altíssimo número de pessoas trans, a maioria travestis e também transexuais que são excluídas da escola, quase 100%, de exclusão escolar de travestis e transexuais. O adolescente também é excluído por conta da família, dos amigos, na escola, não tem namorado. Acaba sendo uma exclusão bem maior, vou discordar um pouco do Vagner na questão do preconceito, eu acho que a gente, a transexual e a travesti é a que leva mais porrada, não tem nem como comparar, a gente leva porrada o tempo todo, a discriminação com a gente está na nossa cara. A transexual é pior ainda, a gente tem uma identidade diferente daquela que estão colocando para gente, o pessoal não aceita nem o que a gente é...

Facilitadora – Lilia Rossi

“Mas Carla, a Maitê colocou uma coisa muito legal, preconceito e discriminação muita gente sofre, com as travestis e as transexuais a gente está vendo a forma de violência grupal, o que é diferente de gay, dos homossexuais pois a gente já passou dessa etapa, mas ainda assim é muito difícil de colocar na balança, é como a Maitê falou é o que dói na pele da gente.”

Convidada – Carla Machado

“É justamente isso que eu quis dizer, é difícil colocar nessa balança, de repente a lésbica sofre mais preconceito do que a travesti por diversos fatores. Preconceito todo mundo sofre, mesmo nós que somos mulheres, eu que estou aqui, sou uma mulher heterossexual, mas eu estou dentro dessa diversidade sexual, então estamos todas no mesmo barco. Nós mulheres transexuais nos contemplamos dentro desse universo da diversidade sexual, como todas vocês.

Voltando a questão da exclusão, essa exclusão leva a marginalidade e a gente pega adolescente transexual, virando adulta, onde ela cai, cai na rua, mesmo as que têm uma base familiar, ela não vai procurar apoio na família, ela vai procurar apoio na rua e acha quem, as travestis que estão nas ruas, se prostituindo, eu não estou julgando a questão da prostituição, mas a grande maioria das mulheres transexuais assim com as mulheres biológicas não se sentem à vontade se prostituindo, não estou discutindo as travestis, mas as mulheres transexuais não necessariamente se sentem à vontade se prostituindo. Até por uma não identificação do biológico, da sexualidade dela, o papel que ela vai ter que desempenhar nessa prostituição, todas sabem o papel que a travesti tem que desempenhar com um homem e para a transexual e muito difícil isso, e ela está vulnerável a isso, ser prostituta, porque é lá que ela encontra seu meio social, junto com as travestis.

Tem também a violência, a questão da hormonioterapia desenfreada nessa fase, tudo o que ela vai aprendendo com as outras que já estão nesse universo um pouco marginalizado. E quando e digo marginalizado, não é de criminalidade é a margem do que seria ideal e isso leva a toda essa vulnerabilidade que deixa as adolescentes e as adultas propensas a riscos, inclusive, de automutilação, ao próprio HIV, quantas e quantas não usam o preservativo, elas se autopunem, eu conheço muitas meninas que dizem isso, que passaram por uma fase na qual era melhor morrer então ela falava “para que eu vou usar camisinha?” eu mesmo fui assim, eu não me protegi nessa fase, para mim a vida não tinha valor. E agente vai vivendo até constituir essa identidade mulher, a trans ela não aprende a ser mulher desde criança, eu digo de forma geral, a gente vai aprendendo durante a vida e muito difícil para gente, chegando nesse contexto de adulta a gente se depara com maior dificuldade que tem a mulher transexual adulta que é o não reconhecimento como mulher, imaginem vocês de repente dormirem e amanhã vocês acordarem e estão com um pênis e aí todo mundo diz para você “você é homem”. Eu não sei para as lésbicas como seria isso, mas para a maioria das mulheres heterossexuais imagina o trauma que elas teriam, e a gente tem que carregar isso para a vida inteira. Agora, não é só a questão do pênis, como para mim, por exemplo, o maior problema, a maioria das mulheres transexuais tem esse problema imenso da não identificação com o órgão sexual, mas isso não é tudo, tem toda essa questão que foi falada aqui de manhã, tem plástica, nosso corpo não condiz com que à gente é e, principalmente a sociedade não nos reconhece como a gente é, isso dificulta nossa vida inteira, em todos os sentidos, tanto no nosso campo pessoal, por exemplo, em um relacionamento, eu tinha um namorado heterossexual e contei para ele, depois de 4 dias, que eu era transexual, isso não é uma prova de que ele era heterossexual, mas ele estava consciente de estar com uma mulher, ele é um homem heterossexual e ele me assumiu durante muito tempo, mas o preconceito foi tanto, pela sociedade, que ele teve que abrir mão disso, pois ele não conseguia mais trabalhar no interior, ou seja, os homens que se relacionam com as travestis e transexuais, eu vou falar aqui de transexual, dificilmente eles são reconhecidos como heterossexuais, apesar de eles se sentirem assim, para eles é confortável dizer que são homens heterossexuais e a partir do momento que a sociedade não nos reconhece como mulher, como eles fazem para provar que são heterossexuais, e se a gente sofre preconceito sendo assim, imaginem uma pessoa que é heterossexual sofrendo preconceito por uma coisa que não é, e quem sofre é a gente, são as mulheres, pois a nós temos muita dificuldade de nos relacionarmos.

Elencando mais essas dificuldades, quais são agora as maiores dificuldades para a gente nessa luta? A gente tem um processo de busca corporal através de hormônio, cirurgia plástica, tudo por nossa conta, a gente não tem um protocolo e nem um auxílio do governo, onde a gente vá buscar essa ajuda, a gente tomo hormônio, a gente não sabe, a gente aprende com a amiga, busca na internet, algumas, como eu, por exemplo, faço um tratamento com uma endócrino, é particular e ela se recusa a prescrever qualquer coisa, pois ela disse que isso é antinatural e ela pode ser cobrada por isso pelo CRM, tem a coisa da hormonioterapia, das cirurgias plásticas, do uso do silicone industrial, que é usado desenfreadamente, também, as pessoas colocam o silicone, depois tem problemas para retirar isso, os hospitais se recusam a mexer.”

 

Facilitadora – Lilia Rossi

“Nós estamos falando aqui de travestis e transexuais, não é. Deixa só eu fazer um ‘a parte’ aqui Carla, essa dificuldade que você coloca das trans é efetiva, realmente não tem um apoio, não tem uma política efetiva, sobretudo em termos de saúde, que possa amparar, mas recentemente teve um grande avanço, com a inclusão das trans dentro de um plano nacional, uma política nacional para a promoção da saúde da mulher e isso é um ganho do movimento que nunca pode deixar de ser reforçado.

Na linha do que o Alexandre estava falando, a gente tem que incorporar e estar publicizando, estar compartilhando esses avanços, porque isso foi um avanço dentro de uma política ministerial, de política pública do MS, você incorporar, reconhecer e incorporar esse segmento de transexual e colocá-lo como visível e ator e com suas necessidades em termos de saúde, isso foi um passo histórico.”

Convidada – Carla Machado

“Com certeza, tem também esse dado que ela está trazendo, que eu ia trazer para vocês.

A gente foi incluída no programa de saúde da mulher recentemente, então a gente é reconhecida de fato em algum lugar lá do governo federal como mulher e a gente agora tem mais essa arma para poder lutar pelos nossos direitos, por todos os nossos direitos que podem se apoiar, de repente, nesse reconhecimento.

Fechando essas dificuldades a gente tem, principalmente, também, o constrangimento que a gente passa todos os dias com relação ao nosso nome, sexo, nome de registro e sexo de documento, o preço da cirurgia, que aqui no Brasil gira em torno de 20, 25 mil reais, mais os laudos e aí tem todo esse mercado negro em volta, outro dia eu fui fazer uma consulta com o médico, não vou dizer quem porque senão vai virar um processo aqui, só digo que é assim, é considerado o melhor médico do Brasil, e ele já me deu na hora o endereço de 2 pessoas para me darem os laudos, seria um endócrino e uma psicóloga, ou psiquiatra e eu liguei e eles me falaram “é uma consulta que você tem que passar, custa mil reais cada consulta” e você já tem o laudo com uma consulta e é o melhor médico do Brasil, em termos plásticos.

E aí uma questão também que eu queria levar e a questão para a mudança desse paradigma a gente precisava, também, se fazer parceira da mídia, porque a mídia é uma das principais inimigas da gente, principalmente das trans, levando conceitos errados para o povo, dificultando a nossa vida, principalmente quando eles tratam à gente, mulheres transexuais, como masculino, tratam como ele “O” transexual. Tem uma dificuldade enorme de conceito, de entender qual é a nossa identidade.

E também a violência policial, tanto para travestis quanto para transexuais, porque na verdade a gente está no mesmo barco, eu sempre digo que, para a sociedade, eu sou uma travesti, ou pior, a gente é tudo “viado”, para grande parte da sociedade e aquele que está vestido de mulher é marginal, é criminosos, rouba e trabalha pelado, e todo mundo acaba entrando no mesmo barco.

Bom, fechando, então, a gente agradece esse espaço, onde está começando a se unir, lutando pelo respeito aos nossos direitos, eu queria agradecer vocês, por dar esse espaço para a gente para lutar contra esse preconceito que dia a dia nos machuca, nos fere, nos tortura, exclui e que nos mata também. E que a gente vai lutar contra ele e vamos conseguir. Obrigada!”

Sônia Correia – Pesquisadora associada da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS)

O tema de Gênero, Identidade e Sexualidade tem 3 dimensões. A primeira dimensão é a vivência, a segunda dimensão é a política, da política sexual e a terceira é a dimensão teórica.

Na dimensão política, a identidade não diz respeito só à política sexual, pois aquela é organizada o redor de identidades como a nacional, regional, lingüísticas, étnicas, raciais etc., que são consideradas essenciais e imutáveis. É o chamado essencialismo, e uma idéia progressista de identidade tem que contestar sistematicamente essa noção de que existe uma essência do começo ao fim da vida de uma pessoa do começo ao fim da vida de uma cultura, do começo ao fim da história de uma determinada sociedade.

A dimensão teórica que lida com o trinômio, gênero, identidade e sexualidade se faz importante visto exatamente o questionamento contínuo e sistemático da idéia de que essas identidades, ou sexo, ou gênero, são de natureza essencial, que tiveram seu marco, nos anos 40, com a obra de Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo”, para a qual o ser mulher é uma construção, um aprendizado, mesmo para quem biologicamente nasceu mulher e coincide na sua identidade de gênero.

Mesmo com isso, a partir dos anos 70 ainda há uma visão binária no que diz respeito às questões de gênero, se limitando ao homem e a mulher, sem levar em consideração o que há entre esses dois extremos, sem pensar gênero conjuntamente com sexualidade. Entendo sexo e gênero como sinônimos.

Para Richard Parker, na elaboração de um sistema teórico é necessário levar em consideração i) o sistema de gênero que determina a identidade masculina e feminina, 2) o sistema da sexualidade que são as normas, os discursos, as práticas que disciplinam a sexualidade, a biomedicina, demografia, economia, as leis. E o sistema erótico, que é o sistema do desejo e que essas 3 coisas se combinam, se confundem e se contradizem.

Há também a chamada teoria Queer, desenvolvida a partir da visibilidade das transexuais, transgêneros, travestis e intersexos, cuja representante mais conhecida no Brasil é Judith Buttler, que escreveu em 1990 um livro chamado “Problema de Gênero”, na qual há a problematização do sistema binário, não só de masculino e feminino, mas também a de que o próprio sexo é uma construção, a própria idéia de sexo, de anatomia definindo uma identidade, não é biológica, e sim é uma construção. E a partir desses estudos e do movimento trans americano e europeu que vai se forjar o conceito de identidade de gênero.

Fausto Sterling, embriologista e bióloga molecular, afirma que “O corpo é um sistema que simultaneamente produz e é produzido pelos significados sociais, assim como todo e qualquer outro organismo resulta da ação combina e simultânea da natureza e das condições de sobrevivência (nurture)” e ainda, “A questão é saber como os significados que se originam fora do corpo se incorporam tanto em nível consciente quanto inconsciente? A psique é um locus crítico, um lugar no qual são feitas as traduções entre o corpo (materialidade) e mente (significado), como as Nações Unidas de corpos e experiências”.

Tal elucubração teórica, tem como pano de fundo a visão lançada por Rubin em 1975, a visão de um mundo andrógino, no qual a identidade sexual, o corpo de cada um, o seu desejo não vai determinar aquilo que a pessoa é, aquilo que a pessoa faz, o que pode fazer e com quem ela pode ter uma relação amorosa e sexual.

A transcrição da fala se encontra abaixo:

“Bom, tudo mundo está cansado? Com sono já, tudo mundo alerta?

Veja só, o Rodrigo, quando me convidou para essa mesa, que como eu já disse antes é um prazer estar aqui hoje, e ele insistiu muito e ele passou lá na ABIA para pegar uma coisa e ele disse “ah! Nós estamos morrendo de curiosidade para ouvir você falar de teoria de gênero e de identidade de gênero”.

E eu quero dizer para vocês que eu sempre fico muito nervosa quando me pedem para fazer isso porque teoria de sexualidade e de gênero e de identidade é uma coisa complexa, tem bibliotecas inteiras escritas sobre o assunto eu sempre fico nervosa porque eu sei que eu não vou dar conta disso tudo, nem que fosse um dia inteiro eu daria conta, e eu sempre fico com o temor de que eu não seja capaz de traduzir, na medida do possível, em uma intervenção curta, as coisas mais importantes que essa teoria traz. Então, para mim isso é sempre um enorme desafio e agradeço o desafio, mas eu gosto de começar dizendo que é mesmo um desafio, é um desafio para mim e eu acho que também é um desafio para vocês.

Eu quero começar esse pequeno exercício, que eu já estou dizendo de antemão que vai ser limitado, restrito, muito aquém de tudo que está aí no mundo para a gente saber sobre o assunto, é dizendo que o tema de sexualidade, gênero e identidade tem, a meu ver, 3 dimensões, ou 3 faces.

Uma dimensão é a dimensão da vivência, da vida, da experiência, como a gente viu no vídeo de manhã, como a Carla falou agora, como qualquer uma de nós, como mulher, como homem, como lésbica pode falar dessa experiência e essa é uma dimensão necessariamente fundamental.

Outra dimensão é a dimensão política, daquilo que eu chamo de política sexual, esse espaço que junta sexualidade e política, identidade sexual e política, que é uma coisa bastante nova na história humana, tem mais ou menos um 150 anos, mas muito intensificada nas últimas 3 décadas, depois do famoso “sexo, drogas & rock n’roll dos anos 60, nós falamos um pouquinho da política, das caixinhas, da fragmentação, a política da identidade, a dificuldade de encontrar a agenda comum e esse é um tema que a gente tem que continuar falando dele.

Mas também tem a famosa dimensão teórica e o meu desafio aqui vai ser tratar desse, que eu devo dizer que é muito importante. Mas eu não vou começar por aí, eu vou começar exatamente pela política. Lembrando a todo mundo que o tema da identidade é um tema muito importante para isso que eu chamo de política sexual, que é a política do feminismo, dos gays, das lésbicas, transgêneros, intersexo, todo mundo que está aqui na sala, mas muita gente que está aqui fora, mas é importante lembrar que a identidade não é um tema só da política sexual, vários autores nos lembram que a política contemporânea, e eu estou falando aqui da Política, com P maiúsculo, aquela política de estado ela é hoje organizada ao redor das identidades, identidades nacionais, identidades regionais, identidades lingüísticas, identidades étnicas, identidades raciais.

A gente tende a pensar, nesse mundo da gente, nesse mundo da política sexual, quando a gente fala de identidade, essa é uma chave progressista é “do bem”, esse é um equívoco porque na política grande que também se organiza ao redor da identidade ela está atravessada por posições conservadoras e repressivas e eu acho que o grande exemplo é o outro tema que a gente falou de manhã, o tema da identidade religiosa é fundamental a gente lembrar, que isso que a gente chama de “fundamentalismo”, eu boto entre aspas, pois eu chamo de dogmatismo religioso, extremismo religioso, depois eu posso explicar porque, pois eu não tenho tempo agora, se organiza ao redor da identidade, de certa identidade religiosa, seja o fundamentalismo cristão norte-americano, seja o extremismo islamita é uma identidade religiosa.

E eu acho importante falar disso porque nessas propostas conservadoras sobre identidade, o que é que está lá no fundo, na alma dessas propostas é um apego inabalável à noção de que as identidades são essenciais imutáveis, “eu sou cristão, cristão serei, a minha comunidade é cristã é isso é a verdade única, homem eu sou, homem eu serei, mulher eu sou, mulher eu serei”. É isso que a gente chama de essencialismo e eu penso que uma perspectiva progressista do tema da identidade, gênero, sexualidade é uma perspectiva que contesta sistematicamente essa noção essencialista, a idéia de que existe uma essência do começo ao fim da vida de uma pessoa, do começo ao fim da vida de uma cultura, do começo ao fim da história de uma determinada sociedade.

E daí eu acho a importância da teoria, porque nesse breve relato que eu vou fazer para vocês, a gente vai ver que o traço mais marcante da teoria que lida com esse trinômio gênero, identidade, sexualidade é exatamente o questionamento contínuo e sistemático da idéia de que essas identidades, ou sexo, ou gênero, é de natureza essencial. Isso não significa, de modo algum, que nós mesmos no campo da política sexual, não sejamos freqüentemente atraídos por fórmulas essencialistas e isso é facilmente explicável porque o essencialismo tem um apelo muito fácil, ele é facilmente inteligível, a gente entende facilmente, ele é binário, entre outras coisas e é muito difícil abalar, e o pensamento essencialista não está só no mundo, nas instituições, está dentro da gente, nós fomos constituídos a partir desse pensamento.

Para falar da contestação do essencialismo, a historia larga, a historia que tem a ver com o que a gente chama de a ciência do sexo, a gente podia voltar a Darwin, no séc. XIX, a Freud, a invenção da homossexualidade na Alemanha, eu não vou fazer isso porque não dá tempo, mas vários autores e autoras e eu também marcamos como um primeiro momento dessa inflexão do questionamento da idéia de uma essência biológica do masculino e do feminino uma mulher Simone de Beauvoir, escreveu uma obra conhecida “O Segundo Sexo”, publicado exatamente há 60 anos atrás, onde entre muitas coisas ela diz “não se nasce mulher, torna-se mulher”. O ser mulher é uma construção, um aprendizado, mesmo para que biologicamente nasceu mulher e coincide na sua identidade de gênero, também é um aprendizado. Ela também questionou todas as tradições anteriores que diziam que a anatomia era o destino.

Esse insite, essa visão iluminada que a Beauvoir teve nos anos 40, ficou meio paralisada durante alguns anos, mas seria um objeto de um estudo teórico mais completo a partir dos anos 60, quando outros autores vão buscar a Beauvoir e vão buscar outras fontes e começam a escrever, como eu disse hoje tem bibliotecas inteiras escritas sobre o assunto, os mais conhecidos no Brasil são Michel Foucault, “A História da Sexualidade”, uma autora norte-americana, que lamentavelmente não está traduzida, mas que eu gosto muito que se chama “Gael Rubin”, Joahn Scott, entre outros, são os autores desse tempo e eu acho que essas teorias foram fundamentais para inspirar a proliferação do movimento de identidades sexual que se seguiram depois, porque você precisava de um instrumental teórico para questionar o essencialismo que dizia que você só podia ser homem ou mulher, sem esse instrumental teórico a gente não teria legitimidade política. E muito se produziu desde então.

Em relação a isso, eu acho que é imprescindível dizer que correntes teóricas que lidam com essas questões são muitas e nem sempre compatíveis, nem sempre estão de acordo uma com as outras, de novo há muita coisa para falar sobre isso mas eu queria dizer que, particularmente, no campo feminista, desde os anos 70, o conceito de gênero foi incorporado predominantemente em uma perspectiva limitada, tem a limitadíssima de achar que gênero é mulher, é um sinônimo, mas mesmo quando é um pouquinho melhor é uma perspectiva binária, em dois sentidos, gênero quer dizer homem e mulher e não há nada entre uma coisa e outra, mas binário também porque pensa o corpo, a biologia como uma espécie de massa de modelar natural, sobre a qual a cultura vem e modela e impõe certa identidade masculina ou feminina.E isso ainda é muito forte no pensar do movimento feminista nacional e eu diria também internacional.

O apego ao binarismo a meu ver tem 2 origens, a primeira delas é que o essencialismo biológico é muito recalcitrante, é difícil de desestabilizar, a gente está sempre caindo nele, a gente está sempre voltando para o essencialismo, mas eu acho que o outro é porque as pessoas ou não conhecem ou não leram ou não valorizaram alguns dos autores do primeiro momento da teoria, que de fato pensaram gênero junto com sexualidade e não gênero só como identidade masculino ou feminino.

Uma dessas autoras é Gail Rubin, o primeiro texto dela é de 1965 (...) faz 30 anos, a minha filha não era nem nascida e ela vai fazer 30, então tem uma geração inteira de teoria aí que não foi traduzida, que não foi compartilhada e que é importante trazer de volta e eu vou trazer uma citação da Rubin porque eu acho que ela é super atual, tem 30 anos mas é de uma atualidade incrível.

No texto ela questiona uma fantasia das feministas dos anos 70, é a minha geração, a gente tinha uma teoria na época de que o matriarcado, para contestar a idéia de patriarcado, fez uma fantasia do matriarcado, e ela disse o seguinte “pessoalmente, eu acho a visão do matriarcado desgostosa e inadequada. É uma visão que preserva o gênero e a divisão dos sexos, nos não somos apenas oprimidas como mulheres, somos oprimidas por termos que ser mulheres ou homens, pessoalmente eu penso que o movimento feminista deve sonhar com algo mais do que a eliminação da opressão sobre as mulheres, deve sonhar com a eliminação das sexualidades obrigatórias, o sonha mais fascinante que eu tenho é de uma sociedade andrógina e sem gênero, mas não sem sexualidade, na qual a anatomia de cada um ou cada uma será irrelevante para o que cada um ou cada uma faz, é ou com que faz amor”.

Eu tive o privilégio de ler esse texto em 1980, já havia se passado 5 anos (Gyle Rubin – o tráfico das mulheres – uma nota sobre a economia do sexo) eu tenho e se vocês quiserem, eu posso distribuir a tradução apócrifa, não autorizada. Que a Gyle Rubin não saiba, pois ela ficou muito brava quando ela soube que a gente tinha traduzido. É um artigo de 30 páginas, não é difícil de ler, é um texto maravilhoso, ela dialoga com Marx, com Engels, com Freud, Levi Strauss, com Lacan, com todos os teóricos, ela é um gênio.

Bom, isso foi nos anos 70, 10 anos mais tarde a mesma Rubin se deu conta de que, embora o texto original dela fosse um texto radical, estava sendo interpretado de maneira limitada e binária, então ela escreveu um segundo texto que se chama “Pensando o sexo”, no qual ela diz que lamentavelmente o conceito que ela tinha criado de sistema sexo-gênero estava produzindo uma confusão, porque as pessoas estavam usando o sexo, confundindo com gênero, ela fala da fusão do sexo com o gênero. Nesse texto ela diz que “gênero e sexualidade, embora se sobreponham, se confundam, são esferas muito distintas da vida social, do desejo e da experiência sexual” ela também elabora muito bem sobre o que ela chama de a lógica do sistema de sexualidade, inspirada em Foucault e fala da hierarquia que o sistema da sexualidade tem, enquanto o sistema de gênero tem o binário, a hierarquia da sexualidade o que é? São as condutas sexuais que vão das legítimas as abjetas. A conduta legítima é o casamento, é o sexo no casamento para a procriação e no quarto do casal. A conduta mais abjeta é pedofilia e antes da pedofilia é o homossexual masculino que faz sexo por prostituição. Então ela fala da hierarquia da sexualidade.

Alguns anos mais tarde, Richard Parker, companheiro do Vagner, meu parceiro de trabalho, escrevendo no Brasil, vai se apoiar em Rubin, em Foucault para elaborar um sistema teórico que eu acho da maior validade. No seu livro “estudo sobre a homossexualidade no Brasil”, Richard usa um sistema tríplice, no qual ele fala do sistema de gênero, que é o sistema que determina a identidade masculina ou feminina, o sistema da sexualidade, e aí ele usa Foucault, que explica o quais são os sistemas da sexualidade, são as normas, os discursos, as práticas que disciplinam a sexualidade, a biomedicina, demografia, economia, as lei. E o Richard introduz um terceiro elemento que eu acho fundamental que ele chama de sistema erótico, que é o sistema do desejo e que essas 3 coisas se combinam, se confundem e se contradizem, e ele está olhando a cultura brasileira.

Em seguida, na Europa e nos EUA, ganha visibilidade à voz, os corpos de transgêneros, intersexuais, travestis e isso vai alterar de novo o perfil do pensar sobre a questão e vai abrir o campo do que hoje é conhecido como teoria Queer, já ouviram falar disso, a teoria Queer? A pessoa mais conhecida da teoria Queer é uma filosofa americana chamada Judith Buttler que escreveu em 1990 um livro que está traduzido para o português, chamado “Problema de Gênero”, na qual ela vai problematizar o sistema binário, não só de masculino e feminino, mas ela vai problematizar como cultura e biologia e vai dizer que o próprio sexo é uma construção, a própria idéia de sexo, de anatomia definindo uma identidade, não é biológica, é uma construção e são os estudo de Buttler e o movimento transexual ou intersexo nos EUA e na Europa que vai criar a idéia de identidade de gênero, ou seja, que pode haver uma discordância entre o corpo biológico e a identidade percebida de uma pessoa e o seu campo de desejo.

Quatro anos mais tarde, Judith Buttler vai publicar um segundo livro que se chama “Corpos que Importam”, tem também um livro que é menos conhecido no Brasil, não está traduzido, muito importante, porque nesse livro ela diz o seguinte “depois de tudo o que eu escrevi, depois do que todo mundo escreveu, fica parecendo que os corpos não tem importância...”, porque no problema de gênero, além de questionar o binário, Judith vai ser muito insistente na idéia que o gênero é um ato performativo, ele não é um ato essencial, ele é uma performance permanente que é recriada. Então ela é acusada de que abandonou a biologia, que os corpos não importam. Então ela vai escrever um novo livro onde ela vai de novo trazer a interação entre a importância do corpo da corporalidade.

Tudo bem que os discursos são importantes, que as normas são importantes, que a domesticação social é importante, mas a gente não pode deixar de lado o corpo e isso vai abrir mais um campo teórico, com outras autoras e aí tem uma autora e eu vou mostrar uma coisa para vocês, além dela, tem uma autora mais recente que se chama Ana Fausto Sterling é alemã mas vive nos EUA e eu gosto muito dela e ela é minha leitura predileta nesse momento não só porque ela é brilhante mas por uma outra razão.

Enquanto todos os autores que eu estava falando anteriormente são filósofos, sociólogos, historiadores, Ana Fausto Sterling é bióloga, ela estuda embriologia, ela trabalha no campo da biologia molecular. Portanto, ela opera em um lugar que é a maior fonte de essencialismo biológico, que é a teoria biológica, então ela vive na intersecção desses dois mundos e o que ela diz é muito poderoso, exatamente porque ela tem o conhecimento da biologia.

Eu poderia citar muitas passagens do livro que ela escreveu mas eu vou trazer 2 definições que estão no PowerPoint, mas antes disso dizer que Fausto Sterling lembra, a partir de suas pesquisas como embriologista e bióloga molecular que homem e mulher, mesmo do ponto de vista biológico são apenas 2 extremos em um espectro muito mais vasto de identidades, experiências e mesmo marcações biológicas. Ela também diz que o corpo humano é muito complexo, ele não admite explicações simples tipo “eu sou determinado pelo meu gene, pelo cromossomo x ou y” ela diz que o corpo humano é muito mais complexo e eu vou mostrar para vocês as 2 afirmações dela já estão aqui na tela, dá para ler, ou não?

“Inspirada na Judith Buttler e na Gross, Fausto Sterling diz o seguinte “o corpo é um sistema que simultaneamente produz e é produzido pelos significados sociais, assim como todo e qualquer outro organismo resulta da ação combinada e simultânea da natureza e das condições de sobrevivência desse organismo, então nesse sentido, os seres humanos não são diferentes dos outros organismos biológicos. A questão é saber como os significados se originam fora do corpo, se incorporam tanto em nível consciente quanto inconsciente. A psique, diz ela, é um lugar crítico, o lugar no qual são feitas as traduções entre o corpo, a materialidade e a mente, o significado. A psique é como se fosse uma Nações Unidas dos corpos e das experiências”.

E aí eu trouxe para vocês uma imagem do Basquiat, que eu acho que ilustra um pouco essa afirmação da Buttler. E ela usa para visualizar essa complexidade, dessa idéia de que o corpo trouxe, que a gente trouxe o corpo de volta, mas é necessário não tratar a relação entre corpo, experiência, desejo e mente de uma forma simples, ela trouxe o que se chama de tira de mobius, que é ‘o que está dentro está fora e o que está fora, está dentro e vice e versa’. Um pouco a idéia entre a biologia e cultura, entre condicionamento, experiência biológica. É isso, tem um momento que está fora, mas no momento seguinte está dentro, de novo volta e de novo vai para dentro.

Eu vou terminar aqui com a tira de mobius.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Por que isso tudo? Por que que serve essa elucubração teórica complexa, isso é só coisa de acadêmico que fica sentado em um laboratório? De gente que gosta de ir para reuniões acadêmicas, compartilhar suas idéias magníficas? Eu acho que não, eu acho que essa teoria, no pano de fundo dessa teoria está à visão lançada por Rubin em 1975, a visão de um mundo andrógino, no qual a identidade sexual, o corpo de cada um, o seu desejo não vai determinar aquilo que a pessoa é, aquilo que a pessoa faz, o que pode fazer e com quem ela pode ter uma relação amorosa e sexual.”

 

Após a última explanação, foi aberto espaço para a discussão, abaixo seguem transcritas as perguntas e colocações das participantes e convidados. Foram aberto blocos de 3 perguntas e/ou colocações sucintas, alternadas com as respostas dos convidados.

 

Alessandra Guerra – “Primeiro para Carla, queria saber como que o movimento de transexuais encara essa questão de parte de algumas feministas, inclusive de feministas lésbicas, de não considerarem as mulheres transexuais como mulheres legítimas, inclusive tem aquela discussão da conferência nacional por dividir 50% para o gênero feminino ou dividir por segmentos como LGBT em parte de delegados. E também para Sônia, com toda essa discussão de gênero e identidade como que se encara essa coisa, que a gente viu no vídeo, de normalmente, não é uma regra, mas a gente vê sendo mais comum, das mulheres transexuais quererem reproduzir aquela historia do machismo de querer ser mulher e ficar em casa cuidando dos filhos e de ser submissa ao marido, como se encara isso e, eu queria saber também como se dá esse processo de ratificação dos princípios de Yogyakarta pelos países. Se já existe algum que ratificou, se precisa criar projeto de lei para fazer isso, e se isso não deveria ser uma prioridade do movimento já que é tão completo os princípios para que a gente vá com tudo para aprovar alguma proposta parecida na conferência nacional?”

 

Celise – “Na verdade com as colocações que foram feitas, para mim foram feitas como se fosse provocação, então eu fiz um apanhado de algumas coisinhas e serei bem sucinta. Foi feita a pergunta de como é que se comporta o movimento, acho que foi você para mim que sou até iniciante no movimento, nordeste. Eu tive como referência quando eu comecei, Gorete Gomes. Um amigo chegou para mim e disse ‘olha, procura a Gorete que ela vai te orientar a ser lésbica de fato’. Eu depois tive a outra referência que foi a Yone, ai eu disse ‘Nossa! São os extremos!’, porque é a questão da Liga e da Articulação, então, nós do nordeste, fomos os que mais sofremos, porque se a gente for analisar a gente ficou na linha divisória. Então, vem uma pergunta para o Alexandre, qual é o posicionamento da ABGLT com relação a essa questão, porque eu sou sincera, eu particularmente a minha posição, enquanto Maranhão a gente está tentando puxar o encontro de lésbicas do nordeste agora e vai ser convidado a ABL e LBL, porque para mim, eu sempre tive essa concepção, para mim somos lésbicas, assim como tem lésbicas negras, lésbicas brancas, flamenguistas, várias. Eu queria saber de você isso e queria dizer para o menino que a minha aceitação foi difícil, eu tive muita dificuldade, hoje eu tenho orgulho de ser e dizer, então na parada eu me beijo, eu me casei, eu fiz o contrato de convivência, vou casar no terreiro, porque ainda é a religião que aceita a gente, e por questão religiosa, sendo abençoado para mim está bom.

Eu queria falar que no Maranhão a gente já tem a preocupação da “melhor idade”, a gente tem um grupo que atende uma média de 30 lésbicas com média de idade de 50, 60 anos, a mais velha se não me engano tem 62 anos, a gente já está trabalhando, elas próprias se escondem então tem uma série de coisas, eu vou falar muita coisa e o tempo é curto.

A violência é muito grande no Nordeste, aliás no Brasil todo, mas na parada do ano passado a minha companheira foi agredida por quatro lésbicas, eu não entendi o porquê, depois a gente perguntou o porquê é porque ela tinha casado, aí piorou. O problema é que quando a gente fez o casamento, deu muita mídia e eu não esperava, a cidade inteira parou para o casamento, duas mulheres conseguiram, vão se casar, então estava aquele bando de reportagem, minha família não pode entrar nem no cartório, porque não tinha espaço. Eu até trouxe o filme para estar passando depois, se der tempo. Foi feita a cobertura completo do casamento e foi feita uma enquete nesse mesmo dia, então, eu queria estar te perguntando o seguinte, por que não se fazer um filme com final feliz das lésbicas, porque a grande maioria dos finais são tristes, ou alguém morre, ou se suicida, eu fico boquiaberta, porque eu falo que lésbica tem que ser é feliz. Obrigada.”

Jane Pantel – “Estou aqui encantada com essa filosofia sexual, estou tonta, juro. A minha primeira observação vai para o Alexandre, quando ele fala do machismo na ABGLT. Eu fui uma das fundadoras da ABGLT, naquela época era um pouco diferente, mas eu acho que o que funcionou muito bem dentro da ABGLT, quando eu fui secretária geral junto com o Claudio Nascimento, é acabar com essa história de presidente, fazer de forma colegiada, com as representações dos 2 gêneros, ou dos 3, eu estou na dúvida, Sonia, você é a culpada, então, acho que isso é uma forma de empoderar, de abrir espaço, funcionou bem durante o período de 4 anos que eram secretarias, era um colegiado. A forma primeira de avaliação da ABGLT é essa, acabar com essa coisa de presidencialismo, um único só, falando por todos, eu acho que poder dividido é poder melhorado é poder para todos.

A outra é que eu vejo que a conferência nacional foi um avanço, mas ela está atropelando os momento onde nós temos que fazer nossas discussões, afinar nossos discursos que é o SENALE, o EBGLT, esse são os nossos momentos para realmente estarmos legitimando um discurso único para uma Conferência Nacional e a Conferência veio no momento errado, ela poderia ter sido feita depois desses encontros aonde nós pudéssemos estarmos fechando um discurso, nos fortalecendo, porque a gente está percebendo isso, talvez você tenha tido essa percepção, já há algum tempo, já eu tive essa percepção a pouco tempo. Nós estamos fragilizados e o governo vai fazer sim a gente de peteca se continuarmos insistindo nessa segmentação. Não é o momento de segmentar, é o momento de cimentar. Essa é a minha observação para você, para depois comentar.

Para o Vagner agora, quando a Azimar falou da amiga da filha dela, eu acho que o discurso normal é assim mesmo, “nossa, não tem vergonha de ser lésbica nessa idade” eu acho que esse é o discurso normal de nossa sociedade, essa é a nossa cultura e cabe a nós lideranças e aprendizes de lideranças estarmos acabando com isso. Eu acho que é esse o nosso papel, é pegar essa molecada nova toda que está surgindo e tentar mostrar que o caminho político não deve ser esse. Também não estou dizendo aqui que eu sou a dona da verdade, mas é mostrar um caminho mais justo, com mais eqüidade.

Minha terceira observação vai para a Carla, eu acho que toda essa discussão das trans, quando elas se acoplaram ao Movimento GLBTT é que nós temos essa visão de não segmentar os preconceitos, mas também a gente sofre na pele todo esse preconceito, então nós temos esse acolhimento, nós entendemos, nós temos essa visão acolhedora de como é difícil esses preconceitos e aí também fazendo uma citação da Maite, “o preconceito que mais dói e o que a gente sofre.

E para a Sonia, quando ela fala de políticas sexuais e teoria Queer, eu gostaria que ela comentasse, que também vai de encontro à fala da Carla sobre a homens que se transformam em mulheres, MTF e que são lésbicas e também sobre FTM que engravidam, eu acho quem isso tem bastante a ver com a teoria Queer e eu queria que você comentasse. Obrigada.”

Carla Machado – “Comentando essa questão do movimento de lésbicas que não reconhecem a nossa luta, eu não sei, o nosso posicionamento enquanto transexuais é nós somos mulheres e lutamos para sermos reconhecidas de fato como mulher. Este é um espaço que está nos acolhendo, nós fomos contempladas como a Lilia lembrou pelo programa de saúde da mulher oficialmente esse ano.

Eu acho que se alguém quer ficar de fora, como aconteceu o episódio da Bárbara, que até foi expulsa de um encontro lésbico, se alguma rede quer estar de fora e o livre arbítrio dessa rede, o nosso posicionamento é esse e a nossa luta é essa. A gente não pode responder por eles.

Com relação a essa questão da mulher transexual estereotipada, isso de fato existe, essa busca de muitas mulheres transexuais por terem aquele comportamento de mulher da casa, que cuida do marido e que vai contra a luta feminista, mas a gente está em um momento de empoderamento dessa questão, o nosso discurso vai de encontro com o discurso das feministas enquanto rede, agora a gente tem que empoderar a nossa rede, tem que conhecer toda essa questão, a gente vai passar para o conhecimento das transexuais que inclusive não estão nessa luta política, nós temos 10 pessoas em rede nacional no movimento de transexuais.

As transexuais, como bem sabem, elas têm uma forte queda a se ausentar, a se esconder, elas não querem saber de luta política, justamente para se invisibilizar, agora, a gente trazendo para o movimento de mulheres, quem sabe a gente consegue trazer mais mulheres. Porque a grande questão foi, durante todo o tempo, quando a gente tenta trazer mulheres transexuais elas dizem “não, espaço de gay não é o meu espaço, eu não quero ficar lutando junto com gay, eu não sou gay”. E agora a gente vai conseguir trazer mais gente para empoderar e discutir também essa questão, o que é ser mulher e de repente o que é a luta feminista.”

 

Vagner de Almeida – A minha vai ser muito rapidinha, a sua sobre trabalhar finais felizes. Como é difícil dentro de toda essa construção de sexualidade, gênero, nós conseguirmos sempre fazer um happy end, pois se você analisar os finais felizes são tão raros no mundo de hoje.

Eu queria falar uma coisa muito rápida, eu divido o Rio de Janeiro em duas partes, antes do túnel e depois do túnel. Antes do túnel é Copacabana, Ipanema, Barra, a zona sul e a zona oeste e lá, a baixada fluminense e etc. e tal. A violência contra a mulher lésbica nesses locais é tão grande. Carla eu quero até te pedir desculpa achando que as travestis e transgêneros são as que estão em um nível muito mais baixo de violência. Só que a lésbica tem menos visibilidade nos dias de hoje do que as próprias travestis. O movimento de travestis está muito mais forte do que o movimento lésbico. Então é bom entender isso quando eu estou falando da violência contra mulher lésbica, ela é muito forte, não está sendo relatada, o DDH deve ter mil histórias para contar sobre isso. A mulher lésbica não está sendo documentada como deveria ser, como a travesti está sendo, como o gay. Isso até eu queria falar com você, foi o meu ponto onde eu quis mostrar à lésbica sendo torturada, assassinada na baixada fluminense, estou falando da área onde eu trabalho. Então eu acho importante esse ponto ser trazido à tona. Vocês todos tem dado uma visão tão ampla sobre esse assunto que eu estou muito feliz hoje de estar participando disso aqui. Muito obrigado Yone, obrigada equipe, estou aqui por causa de vocês.

Carla Machado – Sobre essa questão do preconceito, um ponto que eu esqueci de falar. Acho que isso ficou contemplado na fala da Lilia e na fala da Jane. A gente não tem que quantificar preconceito, que segmento, principalmente porque a gente não tem que ficar quebrando isso, todo mundo sofre preconceito. Existe sim uma violência institucionalizada, com índices maiores ou menores dependendo dessa situação desse segmento, mas a gente não tem que quantificar preconceito. Isso aqui no Brasil é de um jeito, na África do Sul é de outro jeito. As lésbicas, o maior número de violência na África do Sul é de estupro contra as lésbicas.

Sonia Corrêa – Antes de responder as duas perguntas que foram para mim, eu queria fazer um pequeno comentário sobre esse tema do preconceito e concordando com que a Maite disse de manhã, eu acho que a política de identidade sexual é vital para a política sexual, a gente não pode abandoná-la exatamente porque existe o essencialismo, porque existe a heteronormatividade, a homofobia, mas eu acho que ela tem um lado perverso e nós temos que chamar a atenção para o lado perverso. Um dos lados perversos é aquilo que a gente estava falando da fragmentação, as caixinhas e certo essencialismo que renasce na política identitária. É como se lésbicas, gays, trans, feministas, mulheres, não tivessem humanidade comum, como se fossem espécies diferentes. E eu acho que a outra perversão da política identitária, quando ela assume esses lados complicados, é uma certa disputa de vitimização, a competição pela vitimização, “quem é mais vitimizado?” e eu acho que são problemas sobre os quais a gente tem que falar e desconstruir também.

Com relação a tua pergunta, Alessandra, eu acho que a Carla já respondeu um pouquinho, olhando mais do ponto de vista teórico eu acho que a questão da transexualidade ela é paradoxal, porque de um lado ela desestabiliza o sistema binário, inclusive do ponto de vista biológico e nesse sentido eu acho fantástico que as pessoas digam “eu tenho um corpo que não combina comigo” porque isso questiona o essencialismo biológico que é uma ideologia tão poderosa. De outro lado é verdade que como dizia Carla muitas mulheres trans, mas que também homens, ao fazerem essa mudança se ajustam ao modelo binário clássico com as suas desigualdades e até mesmo violências implícitas na relação. E eu acho importante a gente falar desse paradoxo, mas eu acho que a gente deve compreender também que o que as culturas oferecem como alternativa para os seres humanos é o sistema binário, nós não vivemos a fantasia de uma sociedade andrógina onde o corpo e sexo de cada um não importa, uma pessoa só tem lugar, identidade, status se estiver em um lugar ou no outro. Eu falava com você sobre a cirurgia de adequação sexual, no Irã que é uma teocracia islâmica autoriza facilmente uma cirurgia de mudança de sexo, o que não permite é a ambigüidade, se você quiser permanecer ambíguo, isso é proibido por lei.

Da mesma forma, há um campo sobre o qual a gente não discute no Brasil que eu acho que é uma enorme ausência, que é o campo da intersexualidade. Se as pessoas que são intersexo, que querem continuar sendo intersexo, que querem manter a sua ambigüidade sexual e que são de fato impedidas por todas instituições e pela cultura. Eu diria que é o grande silêncio da política sexual hoje é o das pessoas intersexo e eu acho que esse é um desafio que a gente tem.

Com relação à Yogyakarta, talvez eu tenha passado muito rápido de manhã, os princípios não são um documento acordado pelas Nações Unidas, tem muita legitimidade por causa de quem assina e nesse sentido tem um poder de persuasão. Além disso, tem sido utilizado por alguns governos, por exemplo, o governo da Holanda usa hoje os Princípios de Yogyakarta como parâmetro para guiar a sua cooperação internacional na área de direitos sexuais. Está sendo adotado como parâmetro pelo parlamento canadense, na Colômbia um parlamentar progressista quer fazer dos Princípios de Yogyakarta uma base de legislação nacional. Então o documento está sendo utilizando como referência por vários países para delineamento de suas políticas domésticas ou internacionais e por alguns parlamentos no sentido de que quando vão produzir uma legislação sobre identidade de gênero e orientação sexual que tomem os Princípios de Yogyakarta como referência. Eu acho que no caso brasileiro a idéia é de que na conferência qualquer proposta de legislação que surja da conferência tenha como referência as definições dos Princípios de Yogyakarta, para não inventar a roda quando ela não precisa ser inventada.

 

Alexandre Böer – Só para contribuir, a questão não era para mim, mas é justamente o que está se fazendo e o governo está assumindo os princípios para si, ainda não passou no parlamento, por isso é fundamental que a gente possa defendê-los na conferência. É como uma proposta de incorporar os princípios como um todo e daí a gente avança de uma forma mais rápida e a mesma coisa está sendo feita no âmbito do MERCOSUL, então temos parlamentares ou pessoas que estão ligadas aos governos que também estão incorporando de alguma forma o documento e a idéia é que seja um documento para todo o MERCOSUL, isso também pode estar impulsionando mais uma vez uma nova reapresentação em um futuro próximo de um documento junto a ONU, talvez o próprio Yogyakarta.

Sobre a ABGLT, na verdade, ela cresceu muito nos últimos anos, tem um reconhecimento como a maior rede da América latina e a gente tem desenvolvido um papel muito importante de articulador com outros movimentos.

A ABGLT é composta por pessoas jurídicas que são sócias da ABGLT e as redes que são parceiras da ABGLT então tem uma diferença entre ser associado e ser uma instituição parceira, como ANTRA, ABL, CNT, já a LBL não é uma instituição parceira, que isso fique claro nesse momento, e no sentido de trabalhar a gente avançou nas duas ultimas gestões conseguimos realizar congressos, que é uma coisa muito importante porque podemos aprofundar temas, discutir teses e definir estratégias como a aproximação com o movimento feminista, hoje a defesa do aborto é uma coisa que está incorporada na ABGLT como uma questão importante e estratégica. Há duas gestões passadas éramos uma rede, mas não tínhamos diretrizes políticas para se lutar, hoje a gente tem, acho que isso é um grande avanço. Acho que as coisas discutidas aqui hoje elas estão incorporadas, se eu vou me filiar a ABGLT eu já sei que eu vou necessariamente lutar em relação ao direito ao aborto. A gente tem isso como definição.

Em relação às mulheres, o que a gente tem se preocupado nos últimos tempos, é justamente pelo afastamento das mulheres da ABGLT porque no início tinha um cenário e no decorrer por as pessoas acharem que não tinham um espaço reconhecido, um espaço para lutar, acabou havendo um afastamento de grande parte das mulheres da ABGLT e esse coletivo que hoje está e há algum tempo vem trabalhando, a Yone, por exemplo, tem um papel fundamental no sentido de reaproximar, de buscar que as pessoas voltem para a ABGLT, os grupos de lésbicas ou os grupos mistos que retornem para a ABGLT para a gente poder, pois se não temos grupos de mulheres suficientes acaba que a gente não consegue empoderar essas mulheres que acabam ficando em segundo plano.

A estratégia que a gente tem tentado fazer que a gente reaproxime ou que chame cada vez mais grupos de mulheres para a ABGLT para que seja mais democrática do ponte de vista de gênero e identidade de gênero e também empoderá-las e se faz isso não só no discurso mas também com a prática, quando a gente lutou, todo mundo conhece o projeto Somos nacional que começou lá com a Lilia, dentro do programa nacional, de apoiar a necessidade que se tinha de se estruturar melhoro movimento gay que estava nas capitais mas não no interior. O projeto Somos potencializou isso, essa reorganização do movimento, ou provocar que se auto-organizasse, encontrasse lideranças dispostas a arregaçar as mangas e trabalhar e hoje também se tem o projeto Somos Lés que é um projeto impulsionado pela ABGLT, desenvolvido por outras organizações, mas justamente com o mesmo sentido de empoderamento das mulheres para que possam se auto organizar e o desejo é que elas participem da ABGLT nesse sentido.

Eu vou mais longe pois acho que esse reconhecimento do machismo enquanto ABGLT é importante porque só assim a gente pode avançar nas outras formas que foram faladas, como é a estrutura da ILGA que acaba sendo binária também, porque é uma secretaria geral de mulheres, do gênero feminino, ou no gênero masculino, não tem lugar para os intersexos, daí qual é o problema, você não tem voz também, como o movimento não é organizado a gente acaba patrulhando e não dando voz é o que acaba acontecendo na conferência nacional pois a gente colocou 50% mais um no mínimo a gente tem que ter maioria feminina e no masculino o restante, mas a gente acaba reproduzindo a questão binária.

Se a gente vai tentar equilibrar a questão das diferentes identidades, hoje no Brasil a gente tem uma diversidade muito grande porque a gente tem em lugares e estados que não tem nenhuma transexual militante, então como é que em uma conferência que você tem 10 delegados, você vai poder dizer que são 2 transexuais, 2 travestis, você está sendo injusto com as diferentes realidades. Então por isso a escolha pelo feminino.

 

Luana Marley – Uma das coisas que me incomoda, eu não consigo imaginar trabalhar a questão da orientação sexual e a questão da identidade de gênero e especificamente a questão de lesbianidade, eu não consigo imaginar trabalhar essas questões sem um projeto político feminista. Gostaria de começar por aí.

Eu queria fazer uma apontamento com relação ao que o Vagner tinha comentado. A questão do preconceito e da discriminação, na realidade, qual é a causa maior, qual a causa menor, quem é mais discriminado, quem é menos. Eu acho muito perigoso isso no sentido de que o movimento é muito viciado na questão de trabalhar as prioridades, às vezes quando ele vai trabalhar as prioridades e ele coloca como causa maior, causa menor, os mais discriminados, os menos discriminados ele acaba trabalhando essas outras prioridades em uma agenda muito secundária e conseqüentemente acaba nem trabalhando o que seria a prioridade. É nesse sentido que eu acho extremamente perigoso mensurar das discriminações, pensar em hierarquia de causas e a pergunta é existe a causa maior? E o fato de a gente estar trabalhando com essas questões, inclusive com as estruturantes sociais, questão de raça e etnia, questão de classe, questão da mulher.

Outra questão que me chamou a atenção é sobre a questão dos estereótipos, a partir das falas de vocês e do que aconteceu também com a Barbara no Seminário Nacional e é incrível como nós lésbicas somos estereotipadas tanto politicamente e aí entra essa questão da divisão das redes etc., como somos estereotipadas fisicamente, porque para todo mundo a lésbica é a “machuda”, é a “caminhoneira” e também em relação à perspectiva geracional e aí eu coloco a questão das lésbicas idosas, que a gente tem aquele imaginário que lésbicas idosas não se beijam, não amam, não trepam e isso também é muito complicado.

Mas em compensação, também, tem as lésbicas jovens que muita gente acha que uma mulher jovem, adolescente beijando na boca é apenas moda e são outros estereótipos também e é muito complicado para a gente estar trabalhando isso.

A outra questão que eu queria colocar, uma coisa que eu tenho sentido falta e a questão da produção de conhecimento e uma construção “de... para... com...”, no caso, baseando-se na minha especificidade, lésbica. Eu sinto falta de uma produção de conhecimento nosso, de estarmos não só produzindo, mas difundindo, isso aí é muito grave. E nesse sentido eu pergunto por que que em uma discussão que a gente está pontuando a questão da identidade de gênero que também é importante para nós mulheres lésbicas como também estamos falando aqui de movimento gay, movimento LGBT, por que não tem uma lésbica, enquanto identidade política nessa mesa? É essa a questão também, isso me incomoda muito essa questão da lesbianidade e dos estereótipos, eu acredito muito na construção “de... para... com...”, tanto enquanto lésbica, enquanto jovem, enquanto feminista.

 

Ana Carla Lemos – Olá gente, são muitas questões para a gente colocar nesses espaços e com um tempo muito curto mesmo. Então uma das coisas que eu queria pontuar é em relação às alianças dos movimentos. Infelizmente a gente tem cada vez mais fragmentadas as letrinhas e até dentro das letrinhas tem as fragmentações, como ABL, LBL, então assim, eu acho que a gente está vivendo um momento impar que é a primeira construção municipal, estadual e federal, então eu acho que esse é o momento de a gente marcar uma reunião com as lideranças dessas redes na conferência nacional LGBT para a gente pensar o movimento LGBT integrado nacionalmente. Pensando nisso, no que a gente está fazendo fragmentado cada vez mais temos ficado mais distantes e nos estados onde tem nascido movimento quer ser mais fortalecido a gente tem perdido muito com isso.

Tem outra coisa que eu queria falar para a ABGLT que a ABGLT é uma instituição de ONGs mas o nome dela é Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, então porque as pessoas que estão formando grupo que não tem CNPJ, que não tem estatuto, que ainda está nascendo eu acho que tem que abrir esse espaço dentro d ABGLT para a gente poder estar se agregando como movimento que também precisa desse fortalecimento.

Outra coisa sobre o projeto Aliadas, sabe que em todos os estados tem uma frente e como é feito esse fortalecimento dessas lideranças que estão no estado, porque eu sou vice coordenadora lá de Pernambuco, faz oito meses e a gente não teve uma reunião, um contato e eu não sou grupo que faça parte da ABGLT, até porque o grupo que eu estou formando não é um grupo institucionalizado. Então a gente não tem contato, a gente não foi fortalecido ainda para poder estar lá representando a ABGLT e essa frente, então como é a gente pensa a mobilização de recurso, de pessoas para poder estar fazendo isso em um aspecto maior.

E na questão do movimento, voltando, eu acho que a gente tem que respeitar muito as gerações, pois pelo o que eu consigo ver só a 3 anos no movimento LGBT a gente consegue perceber que quando a gente vai chegar no movimento você tem um diferencial porque você é nova as pessoas não te dão espaço, as pessoas não agregam, e eu também sinto muito isso no movimento feminista. A gente chega em um fórum aí estão lá as “bambambã” e só elas podem falar, se você chegar lá na frente e falar, fica todo mundo espantado. As pessoas não tem o hábito de agregar e termina desagregando, porque eu digo que eu sou militante porque tenho muita garra, porque você sempre termina sendo “escanteado” pelos dinossauros. É muito difícil você permanecer, só por amor à causa.

Isso tem gerado violência psicológica nas pessoas, você vê que tem muita gente no movimento LGBT com problemas e tem crises, sofre pressões institucionais. A gente está trabalhando em um evento querendo unificar mas a gente mesmo termina se maltratando. Então eu acho que cada vez mais a gente tem que ter essa agenda em comum com o movimento feminista, ABGLT, ABL, LBL, eu acho que tem que haver essa reunião urgente, acho que a gente tem que dialogar, perder o nosso orgulho e formar uma instituição só, porque eu acho que a gente tem os mesmos ideais, construir direitos, garantias dos direitos humanos para todo mundo, então eu acho que isso é prioridade.

E outra coisa sobre a visibilidade lésbica e as transgêneros, Vagner, eu acho que no Rio de Janeiro a gente tem um diferencial porque a ABIA tem trabalhado muito com essa questão, vocês tem produzido vários vídeos, eu conheço alguns vídeos de vocês, e acho que tem essa coisa do estereotipo das travestis de periferia, das travestis que se prostituem, que são cabeleireiras, que tem essa profissão, porque as pessoas só olham essa coisa assim, eu acho que a gente tem que mostrar outra realidade dessas pessoas, pois a gente tem travesti enfermeira, só que tem um nível diferente dessa outra que a gente mostra de periferia, então aqui no Rio a gente tem a especificidade de que estão dando visibilidade para isso e aí quando fala na visibilidade das lésbicas eu não acho que umas têm mais visibilidade e outras têm menos. A gente tem que criar visibilidade para todo mundo. Essa visibilidade, as travestis estão tendo mais visibilidade eu acho que a gente está junto tentando construir, por exemplo, lá em Pernambuco a gente não tinha uma instituição de travestis e agora nós estamos montando junto com o fórum LGBT junto com o movimento gay Leão do Norte, a AMO Trans, então é muito legal a gente juntar essas letras e construir a garantia de direito de todas as pessoas.

Paula – Eu concordo com a colega quando falou das dificuldades da gente poder se relacionar com os outros movimentos tem aqui uma companheira que saiu do projeto legal que era coordenadora do antigo centro de referência e assim que eu entrei nesse projeto meu grande impacto foi ver assim uma grande desilusão porque com a questão do Brasil sem Homofobia vão ser abertos aqui no Rio de Janeiro 10 centros de homofobia. E foi dito por um dinossauro do movimento locado aqui no Rio que isso deveria ser uma coisa prioritariamente do poder público, assim, eu acho que a ONG não pode ficar isenta disso, justamente por estar em uma posição de coringa, ela não fica limitada a uma política de governo, nem uma política de estado, por mais que tenham questões que atravessem isso.

Essa foi minha primeira grande decepção, mas é uma decepção que provoca movimentos.

Eu falei uma questão macro política e eu queria entrar em uma questão micro política, você falou a questão dos essencialismos, como eu falei eu sou psicóloga, então eu tenho uma militância dentro dos essencialismos da psicologia, e isso me veio à questão do desejo e eu fiquei pensando sobre Foucault, sobre Deleuze quando eles colocam a questão do desejo não enquanto falta, o desejo da psicanálise, o coloca falou da castração, porque coloca a gente sempre na posição de devedor, desejo enquanto falta, aquilo que você vai procurar que não tem na vida. Estou falando no âmbito de uma psicologia muito localizada na psicanálise, já partindo para uma concepção de um desejo movente, um desejo que produz.

Então a gente pode falar em produção de subjetividade, pode falar em poder, ao invés de ficar discutindo identidade, que eu acho que é um certo equívoco, eu entendo a positivação, a afirmação de uma singularidade.

Mas também acho que você lutar por essa questão de identidade é correr atrás daquilo que te aprisiona. Afirmar o pensamento da diferença, vamos pegar as nossas semelhanças e para chegar no congresso nacional e ter uma univocidade política que consiga abarcar as diferenças municipais e de cada letrinha.

Incluir esse pensamento da diferença para evitar esses debates do tipo quem sofre mais e sim unificar e lutar em um coletivo em busca de cidadania, discutindo a igualdade na diferença, ou seja, a noção de singularidade. Aí eu fiquei pensando também assim, como fortalecer o movimento para provocar um debate de reconhecimento enquanto instituição familiar que envolve problemas na concepção do direito, pensando naqueles já estabelecidos na carta magna.

O direito se apóia muito no discurso biológico que é essencialista, então vai se colocar uma família enquanto homem e mulher, para a gente pensar em lutar pela cidadania e não apenas pensar na criminalização.

Outro incomodo meu que eu tenho é com o movimento, eu entendo assim o dispositivo de se criminalizar, mas existe um outro projeto que volta e meia mexe e depois para que o movimento não dá muita atenção que envolve a questão da parentalidade e da conjugalidade que seria uma questão mais estratégica, porque no momento em que consegue conquistar certos direitos de ser reconhecido como uma instituição familiar, assim, eu acho que não tem nem mais porque você lutar por uma criminalização.

Daí a gente vai lutar pela não discriminação, daí vem à lei Maria da Penha, a lei do racismo, e daí vem à lei da questão da homofobia e você vai viver em uma sociedade segmentada, compartimentada e você vai ficar com medo de esbarrar na diferença do outro, o que é muito complicado, eu acho que dá para a gente lutar por coisas de uma perspectiva mais da educação porque a prisão está aí e a gente sabe que não adianta para muita coisa. Eu parto de uma perspectiva de uma abolicionismo penal. É uma provocação para a mesa, se alguém quiser comentar algo sobre isso. Obrigada.

 

Vagner de Almeida – Levantaram uma questão muito interessante porque a mesa não tem uma lésbica, isso é importante falar, principalmente na mesa que foi criada para que nós, os convidados, falarmos, seria identidade de gênero, discriminação e conflito de violência. Eu acho que qualquer pessoa pode falar isso, lésbica, gay, homo, trans. Uma coisa que eu acho muito interessante aqui hoje somos 2, 3 ou 4 homens aqui dentro, só.

Quando eu falei que nós devemos nos unir e repensar as agendas juntas, eu não acho que essa mesa precisaria ter uma lésbica para discutir o que nós estamos discutindo, porque isso aqui é uma conversa informal, todo mundo está expondo suas idéias, então eu acho que todos nós aqui estamos discutindo a mesma coisa.

E uma outra agenda que foi levantada sobre os filmes que a ABIA produz sobre a visibilidade de populações excluídas, pobres, eu acho que essas populações como das lésbicas negras, pobres também, como as brancas e podres de periferia. Essas pessoas tem que ter visibilidade sim. Estamos aqui dentro hoje com um monte de pessoas intelectualizadas, algumas pessoas muito bem informadas, outras surfando em cima das informações, mas lá fora a realidade é outra, todo esse nosso discurso aqui dentro hoje, na verdade não alcança a população que está lá fora, então nós devemos repensar também como nos dirigimos em público, quais são as agendas e as palavras que nós estamos trazendo para as populações que nós estamos querendo alcançar.

Uma outra coisa foi quando nossa colega falou sobre agenda secundária aí eu te faço uma pergunta “qual é a agenda primária?”. Se estamos falando em uma agenda secundária, então é interessante ressaltar o que é uma agenda primária.

Há muito o que se falar aqui dentro gente, na verdade a sociedade, a mídia, nos castram. Foi falado sobre como a mulher lésbica é colocada perante a mídia e isso é uma castração para o movimento e em cima disso os direitos humanos.

 

Carla Machado – A Lívia já tinha me pedido para conceituar a questão de transgênero e já foi colocado duas vezes aí. Só para contextualizar vocês qual o discurso atual do movimento.

A palavra transgênero deixou de ser usada para designar travestis e transexuais. Em um certo momento as transexuais se viram com certas demandas diferentes das travestis então a gente ganhou nessas separações um outro T separado, são travestis e transexuais.

Existe agora uma nova ala do movimento de diversidade sexual que é o das pessoas transgêneros que é um outro grupo de trans que seriam de pessoas que transitam entre os dois gêneros, mas essa não é a melhor conceituação, na prática são aquelas pessoas que assumem uma identidade masculina de dia e a noite outra e vice e versa, Drag Queen, Crossdresser.

E lembrando também a questão do binarismo, as travestis, existe ainda uma deficiência da conceituação dessa identidade mas o que a gente percebe é que quando ele fala do feminino e do masculino, as travestis elas não se colocam nesse binarismo, não se colocam nem no gênero masculino nem no feminino. Enquanto as transexuais conseguem se colocar nesse binarismo.

 

Sonia Correa – Uma pergunta lacaniana “o que é uma lésbica?” é fácil dizer o que é um homem e o que é uma mulher porque é visível. O que é uma lésbica? É o desejo por outra mulher? É ter experimentado uma relação com outra mulher? É uma pergunta que tem que ser elaborada, ou é uma identidade política de ser lésbica? Eu só estou abrindo a questão porque eu acho que ela é importante. Se você vai para outros contextos internacionais, países aonde a identidade são construídas na história e na tradição por parâmetros radicalmente diferentes de lésbicas, gays e transgêneros, encontra identidades que já estavam lá há 500 anos, não é coisa moderna ou pós-moderna e tem uma enorme tensão entre as categorias ocidentais e as categorias que lá estavam. Então eu acho que a gente tem que estar sempre atento para o essencialismo, de buscar a idéia da singularidade, mas ser capaz de se questionar sobre as nossas próprias categorias.

 

Alexandre Böer – porque que se abandonou o projeto da Marta e focou-se na criminalização? Porque foi uma estratégia do movimento muito bem pensada, porque primeiro o projeto da Marta ficou anos na gaveta, inclusive hoje o projeto como estava colocado ele é muito ruim por isso ele não é mais prioritário, precisa ser modificado, porque através da jurisprudência já se conseguiu uniões estáveis e avanços, inclusive adoção, o que é proibido pelo projeto, retrocedendo nas conquistas.

O projeto também não tem consenso no congresso pois sempre haverá fundamentalistas nos negando o direito, já o projeto de criminalização, mesmo encontrando resistências, não há quem defenda a violência. Portanto, estrategicamente é mais fácil passar o projeto da criminalização do que um projeto de direito....

Trecho inaudível

O projeto não foi abandonado, só não é prioritário.

E em relação à questão da ABGLT, foi falado do projeto Aliadas e também porque que a ABGLT não agrega indivíduos. Na verdade é por uma questão institucional.

Em relação ao projeto aliadas é um projeto como qualquer outro que tem dificuldades de financiamento, o governo federal cada vez mais repassa a responsabilidade para os estados e municípios. Então estamos passando por essa dificuldade, fica muito difícil num país fazer reuniões presenciais para poder ajudar a organizar. Então esse é um desafio, tem que se buscar novas fontes para a gente alavancar isso e trabalhar muito com o poder local e que elas possam andar em linha própria nesse sentido.

Em relação aos indivíduos é por uma questão estrutural mesmo, tem indivíduos que são parceiros mas não institucionalmente porque a gente tenta primeiro localizar lideranças e fazer com que esses grupos se institucionalizem. E essa é uma diferença de outras redes que são feitas de indivíduos, pois com instituições você tem uma capacidade melhor de produzir e gerir projetos.

 

Após essa fala a mesa foi encerrada.

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