A solidão do t-lover
Tempos atrás, conversando por email com uma amiga transexual (hoje ela é uma mulher completa) por quem tenho muito carinho, ela disse que gostaria de ler algo nesta coluna sobre o “relacionamento interpessoal entre os T-Lovers" e “a vida solitária de um T-Lover iniciante”. Ela relacionou esses temas como assuntos separados, mas acredito que eles estão umbilicalmente interligados.
A vida de um t-lover iniciante é realmente solitária e continua sendo mesmo quando ele adquire mais experiência nesse mundo. Por ter preferências pelas quais a sociedade (sua família, seus colegas de trabalho, seu circulo de amigos) ainda torce o nariz, é muito comum que o t-lover iniciante se feche em sua redoma protetora e assuma uma identidade secreta que permita a realização de suas fantasias. Assim, é difícil imaginar que ele confidencie a amigos ou familiares seu envolvimento no mundo trans. A confusão envolvendo Ronaldinho Fenômeno e algumas travestis durante um programa malsucedido ainda serve de alerta.
Mas sou testemunha de como a internet pode ajudar a romper esse casulo, até porque foi por meio da internet que consegui não só conhecer algumas das mais lindas t-gatas brasileiras como iniciar um lento, mas seguro processo de aprendizado que me aproximou de várias pessoas que hoje freqüentam meu circulo de amizades. Se, por um lado, eu nunca tive coragem de revelar aos meus amigos o que fazia entre quatro paredes com uma t-gata, por outro fiz novos amigos que sabem o que faço na cama. Se, nos grupos de discussão usamos apelidos que preservam nossa identidade, nas conversas de bar nos chamamos por nossos nomes.
Há alguns anos, um grupo de pessoas passou a se reunir em um bar do centro de São Paulo, freqüentado por travestis, e deu um passo importante para que pessoas que eram identificadas apenas por um apelido pudessem finalmente se encontrar pessoalmente, tomar cerveja junto com suas musas e conversar sobre qualquer coisa. Descobri que naquela roda havia webdesigners, jornalistas, advogados, estudantes, gente jovem e gente madura. Essas reuniões chegaram a ser freqüentadas por acadêmicos que viram naquele grupo um bom tema para uma tese de mestrado ou doutorado. Pelo menos no caso de uma pesquisa – para a qual servimos de personagens – não fiquei satisfeito com o resultado final. Pude sentir pelas conclusões tiradas que continuávamos estranhos para o meio acadêmico, que não nos encaixávamos em nenhuma das personas que os professores-doutores já haviam estipulado para nós. Nós, esses ratos de laboratório, não passávamos de homossexuais que não admitiam o rótulo.
Dessas reuniões pioneiras, em que nos apresentamos uns aos outros, surgiu uma amizade entre alguns membros que continuou em outros locais. Hoje, nos comunicamos por email, nos falamos por telefone e nos encontramos em outros locais. Essa amizade, que parecia impossível de existir no passado, foi impulsionada pela internet. Esses amigos, em sua maioria, são casados, noivos ou têm namoradas. Quando nos encontramos falamos sobre tudo, não apenas sobre t-gatas. A solidão inicial, que nos enfraquecia, foi substituída por uma gostosa amizade que a cada dia nos aproxima mais. Antes de nos conhecermos éramos apenas t-lovers; hoje somos amigos que, por acaso, são também t-lovers.
Senhor Pinto
Meu email: senhorpinto2000@yahoo.com.br
Meu grupo de discussão: http://br.groups.yahoo.com/group/as_bonecas_que_amamos/
Minha paixão: Mulheres e T-Gatas
"Não deixe de realizar suas fantasias, mas nunca esqueça das medidas de segurança que nos protegem."






Parabéns pela coluna
É sempre muito bom ter acesso a relatos como estes. Estes relatos são aqueles que nos auxiliam a entender processos mais amplos que abordam as vivências das masculinidades e feminilidades contemporâneas.
Gostaria de contribuir, como pesquisador, que a análise dos dados de campo envolve interpretações e exercícios e que, por mais que passemos tempo e frequentemos reuniões, a complexidade de certos grupos não é simplesmente conhecida nos dois anos de um mestrado ou em quatro anos de um doutorado. Temos acesso, no meu ponto de vista, a uma faísca do que pudemos ver, perceber, interpretar....
Para contribuir ao debate, trago uma citação de James Clifford (a experiência etnográfica). É importante contextualizar, uma vez que nas sociedades complexas não falamos de selvagens, mas de grupos que compartilham da mesma cultura que nós.
Citando Codrington:
"quando um europeu vive dois ou três anos entre os selvagens, ele está totalmente convencido de que sabe tudo sobre eles; quando fica dez anos, ou quase, entre eles, se for um homem observador, ele vai achar que sabe muito pouco e aí sim ele está começando a aprender" (1891).
Abraços e parabéns!
Respostas ao meu texto
Fico contente em ver que meu texto teve três boas participações de leitores (com uma leitora especial, claro). Obrigado pelas suas opiniões, que são sempre importantes para mim. Quanto à sua sugestão, Maitê, vou tentar abordá-la na próxima coluna: porque muitos clientes de travestis são homens que já possuem relacionamentos estáveis, seja com mulher, noiva ou namorada. Acho que esse vai dar pano para manga. Mas o importante é a discussão.
Obrigado a todos!
A união incomoda
A união dos tlovers incomoda a lados diferentes.
De um lado os manipuladores das tgatas através de seus sites, foruns e blogs, que veem seu poder de controlá-las ser colocado em risco, de outro lado acho que incomoda a uma parcela das tgatas que se veem colocadas em posição de risco perantre a clientela já que nem sempre as informações podem ser abonadoras de suas condutas.
No fundo é sempre uma disputa por poder que leva a quebrar a união dos grupos de tlovers.
Ví isso muito claramente acontecer aquí no Rio, o que começou de uma forma sadia acabou em pancadaria, daí é melhor continuar no anonimato e cada um calcular seus riscos.
Se fala pouco noutro
Se fala pouco noutro problema grave que os T-lovers enfrentam:
- a intermedição dos blogs de trans. Blogs que na maioria pertencem a safados e exploradores que censuram os T-lovers e cobram das trans para recomenda-las e fazer propaganda delas.
Os T-lovers precisam de um local proprio, neutro, para troca de informações e experiencias. Chega das cafagestagens tipo os sampatretas da vida!
A união é o caminho
Participei de um encontro já destes.. inclusive tendo o Senhor Pinto como meu "condutor" ehehehe
Participo também do grupo AS BONECAS QUE AMAMOS.
A interção é super salutar. T-lover sozinho sofre violência, entra em roubada e ainda não tem dica... Enfim.. o caminho é sim a união....
Agora já deixo uma idéia que gostaria de ver abordada com seu conhecimento amigo... de uma frase sua mesmo.. do texto acima, e que diz: - "A maioria dos amigos T-lovers são casados, noivos ou têm namoradas."
Então me conta.... porque a maioria que procura as T-girls já tem algum relacionamento? Cadê os solteiros? Porque quase sempre a T-girl é relacionada com sexo fácil e coisas do tipo. A abordagem dos T-lovers que está neste caminho... ou a mostragem feita pelas T-girls?
Me ajuda a refletir isto?
Beijoss e parabéns sempre... uma honra te-lo aqui...
E me conta mais.. já aproveitando o gancho?
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