Promessas da vida

Solange franziu a testa quando viu o ônibus estacionar, não era exatamente isto que esperava, pensava que viajaria em um da daqueles de dois andares, com toda comodidade do mundo, mas o que via era sua realidade. Caminhou com passos firmes, puxando sua mala pela alça dura, escutou o ranger das rodinhas no cimento frio da rodoviária e se lembrou com amargura do dia anterior.

Entregou a passagem já preenchida ao motorista e viu sua mala sendo colocada no bagageiro já lotado. Seriam três dias longos, mas quem sabe assim com o corpo cansado conseguisse dormir, e esquecer.

Sua poltrona era do lado da janela, e se deixou ficar olhando o movimento lá fora, o escuro dava às pessoas um tom acinzentado, e o burburinho que ouvia era indescritível. Tentou relaxar, mas as pessoas que entravam falavam alto, numa conversa feliz, longe daquilo que ela sentia.

Solange olhou então a cadeira vazia ao seu lado, esperava que permanecesse assim, pois não aguentaria ter alguém ao seu lado, puxando conversa ou bisbilhotando sua vida, e ficou feliz, por segundos, até que uma moça se sentou e logo tomou todo o espaço, abriu a bolsa que trazia e foi tirando um jogo. Não falou uma só palavra, nem sequer a olhou, apenas se acomodou e começou a apertar os botões, como se o mundo não existisse.

Silenciosamente o ônibus partiu, deixando apenas seu rastro de fumaça e sua vaga. Solange, intrigada, às vezes olhava a vizinha com o canto dos olhos, não conseguia entender aquelas feições tão sérias em um rosto tão delicado. Seus cabelos curtos e negros deixavam mostras do brilho nos pequenos cachos que formavam, sua boca carnuda eram de um vermelho forte, mas não havia um batom contornando-o, e seus olhos castanhos apenas viam o jogo a sua frente.

O silêncio, o balançar, a preocupação com a estranha foi-lhe dando um torpor e, em pouco tempo, Solange adormecia.

Acordou, o que parecia de um sonho, e percebeu que estava recostada na moça, que também adormecida se encontrava. Voltou ao seu lugar bem devagar com medo de acordá-la, e morrendo de vergonha virou-se para a janela.

- Está tudo bem.- ouviu bem baixinho - Dormia como um anjo! - Des..... desculpa-me. - foi o que conseguiu dizer, sentindo-se vermelha - Creio que esteja muito cansada!

Silêncio! Um silêncio que a penetrava como o olhar que sentiu em sua nuca. Sabia que estava sendo observada, mas não conseguia se mover.

Sentia como se o mundo a sua volta tivesse se aberto em um grande buraco. - O que fazer?!? - se perguntava. Então virou-se determinada a por um fim neste incômodo, e encontrou o olhar mais doce que já conhecera.

- Está tudo bem! - ouviu, e a mão aveludada tocou seu rosto e um calor invadiu su'alma e aceitou o abraço estranho que a aninhou.

- Desculpa-me, não estou acostumada a dormir sentada - conseguiu murmurar - e se desmanchou em lágrimas, até que um soluço baixinho a moveu.

- Fale comigo, deixa-me apenas lhe ouvir, temos muito tempo, todos dormem...

- Estou completamente perdida... - e como um vulcão, suas palavras foram saindo, sua tristeza se desmanchando, o abandono e a dor tomaram vozes emprestadas, falava como a um confessor, mal se ouvia, mas sabia que transformava sua história ao relatar cada fato, às vezes sem nexo, por outras vezes tão doídas que parecia ter o peito apertado.

- Estou completamente perdida! - Não está mais sozinha... se acalme!

Solange não conseguia compreender como tudo aquilo ocorrera, deixara que o movimento do ônibus a embalasse, assim como seu pesar e voltara a dormir. Uma estranha... era com isto que estava sonhando.

O sol estava a pino quando o ônibus parou, tentou se lembrar onde estava, tivera um pesadelo, olhou rapidamente para ter certeza de que estava sozinha, e respirou aliviada ao ver a cadeira vazia. Que loucura! Passou as mãos pelos cabelos sedosos, esfregou os olhos como a apagar a noite e percebeu que tinha um cobertor em suas pernas acomodado. Não se lembrava de tê-lo pego, mas...

Levantou-se cautelosamente, e percebeu que haviam poucas pessoas, desceu e foi procurar um banheiro, depois precisava de um café bem forte.

Está bem? - ouviu como um tambor em sua mente.

Virou-se, como em câmara lenta, e de novo aquele olhar penetrante, um frio percorreu-lhe a espinha, não tinha idéia de como enfrentar aquilo, esquivou-se do olhar.

- Por quê!?! Está fugindo de si mesma? - Eu lhe conheço? - Não, mas eu sim. Conheci sua dor... Não tenha medo, sou apenas uma estranha que não a incomodará, fui apenas o ouvido... Está tudo bem!

- Desculpa-me, de minha grosseria. Está tudo bem, só não sei como encará-la, depois de expor fatos tão pessoais. - Aceite um café... está forte e bem quente! - Obrigada, estou precisando.

A viagem prosseguiu, mas não se viu mais o jogo, nem mesmo a tristeza de Solange, que falava pausadamente, sorria e conversava.

Outra noite chegou, e com ela o silêncio, o frio veio se acomodar, e aos poucos as pessoas adormeciam. Solange procurou pelo travesseiro, encolheu as pernas e se acomodou, fechou os olhos e sorriu ao se lembrar do dia diferente que passara naquela viagem; o cobertor macio não aquecia muito, quando sentiu aquela mão quente passar em suas pernas, ficou imóvel, e sua mão segurou firme a outra decidida, e aquele toque esquentou suas coxas, e a convicção venceu o inesperado, o calor da voz doce penetrou em seu ouvido: - Apenas sinta!

Sua respiração estava já descompassada, atraída pela magia , deixou-se entregar naquele louco jogo de sedução. A mão firme caminhava pelo seu corpo, fazendo rodopios, seus pêlos se levantavam e seus seios se entumeceram, tudo estava escuro a sua volta, tudo era silêncio e desejo. Naquele jogo alucinante, Solange se entregara completamente, sentiu que todas as suas barreiras estavam quebradas, e suspirou quando foi tocada no bico do seio.

- Psiu... - ouviu baixinho - tente se controlar. - Não pare... por favor! - então percebeu que já estava completamente entregue. - Sinta... - e o hálito dela chegou tão próximo que um clarão espocou em sua mente. - Não posso... pare! - mas seu corpo negava suas palavras, e os lábios foram calados pelo beijo mais terno que já sentira.

Só o movimento das mãos, a descoberta da euforia, a volúpia do desejo, a leveza do toque podiam ser ouvidos compassivamente com a respiração.

Então a mão certeira tocou sua intimidade úmida e quente e os lábios dela mergulharam em sua boca suplicante e as línguas se entrelaçaram em jogos eróticos, todo seu corpo ardia de paixão, e gemeu.

- Psiu... estamos num ônibus... - Não pare... por favor... não pare... - conseguiu dizer, e sentiu o âmago de todo seu desejo ser tocado. - Estou aqui... apenas fale baixinho para não acordar todo mundo.

Mas Solange sentia que queria mais, e mais... se pudesse, desceria do ônibus para estar só com ela e deixar-se entregar a tamanha satisfação. Puxou a coberta para cima, cobrindo seu corpo já seminu, e tomou coragem e investiu todo seu capricho e delicadeza no toque daquele corpo perfeito. Deslizou os dedos entre seus cachos, e sentiu sua nuca se arrepiar, os lábios se uniram novamente e o beijo aprofundou-se numa maravilhosa fusão de mentes e corpos. Deslizou seu braço por detrás de suas costas e a puxou levemente para si. Sem interromper o beijo, Solange se levantou do banco e sentou-se entre seus joelhos, comprimindo-se contra o corpo dela que ardia, envolvendo-lhe o pescoço com os braços. Um suspiro abafado escapou-lhe da garganta quando ela interrompeu o beijo e mordeu-lhe no lóbulo da orelha e na pele sensível do pescoço.

Suas mãos ávidas puxaram o vestido curto, afastando carinhosamente a calcinha e massageando-lhe como num ritual, até sentir a umidade feminina em seus dedos.

- Beija-me - ouviu - beija-me!

Agora... - mas seus lábios contornaram os seios dela, e mordiscaram os mamilos entumecidos e só depois aquele beijo foi selado.

Descompassados seus corações batiam, queriam que a noite fosse eterna, mas o vento frio ainda soprava pelas frestas da janela, então se aninharam, buscando o afago e as carícias mais singelas, e adormeceram.

O ônibus devia estar parado há muito tempo quando Solange abriu os olhos, percebeu sua blusa ainda desabotoada, e o corpo dela descansava coberto ao seu lado.

- Ei! Acorde, todos já desceram do ônibus. - Ah! Vem cá. - e a puxou docemente.

- Não, por favor, pode entrar alguém. - Se entrar nós ouviremos... - e levantou o corpo um pouco para ver se enxergava alguém.

- E se... - e sentiu as mãos dela insinuarem por baixo da blusa, empurrou o sutiã para o lado e cobriu-lhe o seio com a palma da mão, fazendo círculos vagarosos e ávidos que a deixaram fora de si.

Às cegas, Solange buscou-lhe os lábios novamente, e os beijos se tornaram mais quentes e eróticos, imprudentemente as mãos dela passavam por baixo de sua roupa, despertando-lhe mil sensações há muito adormecidas.

Sem fôlego, ela mergulhou a língua no calor de sua boca provocando-lhe um gemido que fez com que todo seu corpo vibrasse. Solange sabia que era perigoso demais, levou a mão em seu tórax, num sinal inequívoco para que ela parasse. Ela deu um suspiro e reclinou-se para trás, de olhos fechados, como se lutando para fazer o desejo recuar de um limite de onde não havia volta.

Naquele instante o motorista reapareceu na porta do ônibus, e elas se entreolharam sorrindo, diante da mensagem clara que viam nos olhos uma da outra. "Depois... depois!"

O dia todo foi de olhares e toques sutis, pequenas conversas e muitos desejos ardentes.

Podia lhe fazer uma pergunta? - Solange arriscou.

- Lógico!

-Não sei seu nome, mesmo que tenha tido oportunidade, não falou.

-Dá-me um nome, deixa-me esquecer quem sou... Aceita-me assim... Sem muitas perguntas!

- Sheila... está bem?

-Só se falar aqui bem pertinho de meu ouvido. - e sorriu. - Vem... vem...

- Não posso, tenho medo de perder o controle.

- Ninguém nos conhece mesmo! - e foi se aproximando já com as mãos em sua cintura - Arrisca.

- Não, por favor. - e se afastou com medo de cometer uma loucura, sabia que aquele toque era sábio. - Não posso, já anoitecerá.

- Vamos servir um sonífero?!? - e soltou uma gargalhada gostosa - Até para o motorista...

Mas a noite demorou para chegar, parecia uma eternidade aquele sol no horizonte, Sheila tamborilava seus dedos e sorria, mas Solange estava ansiosa demais, ficava observando as pessoas ao seu lado, se estavam com sono, se conversavam e se irritava com tudo. Desceram em todas as paradas e roubavam beijos fogosos nos banheiros que encontravam, até que a noite veio, o silêncio cristalino pode ser de novo ouvido, e as mãos se tocaram ansiosas e gentis.

O primeiro beijo da noite foi com lânguida ternura, mas no momento em que as mãos de Sheila tocaram seus seios, e acariciaram seu corpo Solange sentiu o calor contra a pele e sua respiração ficou suspensa por um instante. Aquilo era prazer!

A ponta dos dedos de Sheila desceram pelo ventre até a virilha. Lá traçaram um círculo vagaroso e sugestivo. Solange gemeu baixinho e interrompeu o beijo.

- Sabe o que está fazendo comigo?

- Acho que está fazendo o mesmo comigo!

- Gosto de você, é uma guerreira, e uma mulher terna e carinhosa ao mesmo tempo!

Devagar, Sheila se reclinou mais e tomou-lhe os lábios lentamente. Solange absorveu o calor que irradiava de seu corpo, então sentiu que ela lhe cobria os seios, acariciando-lhe, e seu toque criou uma poderosa onda de desejo.

Sheila afastou-lhe a perna direita e passou a acariciar-lhe a parte de dentro da coxa. Ela se abriu ao toque, e estremecia a cada vez que as pontas de seus dedos, suaves como plumas, se aproximavam do local onde pulsava de desejo.

A cada momento, o beijo de Sheila crescia em intensidade, as línguas se entrelaçavam com mais urgência. Solange queria mais. Queria tudo.

- Você é perfeita!

- Oh, Sheila, estou enlouquecendo. - murmurou.

- Então somos duas!

- Por favor não pare! - e sentiu a força dela separando-lhe os joelhos, e um momento depois suas mãos a possuíam, investindo lento, gozando a tensão espasmódica de seus músculos internos.

Não havia modo de ficar melhor, mas ficou! Ela foi à loucura, erguendo-se para encontrar os movimentos mais fortes, mais rápidos e mais profundos. Era maravilhoso. Fundindo-se num momento ardente e intenso, antes de mergulhar num silêncio cheio de paz e afeto.

- Está viva? - ouviu baixinho - Está bem?!?

- Você é uma mulher incrível! Fez com que eu me sentisse bem de novo.

Então Solange arqueou-se sobre ela e a tomou com ternura, rastreando-lhe todos os desejos e fizeram amor, sem os preliminares de antes. O clímax foi o mesmo, todavia: explosivo e poderoso.

- Que futuro temos?!? - pegou-se perguntando· Não pense nisto Solange, só temos o hoje, o amanhã não nos pertence.

O ônibus chegara ao destino quando despertaram, o sol forte ardia na pele, se olharam, e o burburinho das pessoas que se levantavam parecia um turbilhão em suas mentes.

- Onde nos encontraremos? - Vá sem medo, deve ter alguém lhe esperando! - Mas.. - não conseguia dizer mais nada - Sheila, preciso... - Não diga mais nada, só não se esqueça que pode ser feliz... - Faça-me esta promessa. - Prometo. - conseguiu dizer. - Vá! Adeus.

E desceu sem olhar para trás, carregou consigo apenas a promessa de vida, que descobriu que estava viva e poderia ser feliz!

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Nota 10 pra vc.. Excelente,

Nota 10 pra vc..
Excelente, profundo, com sentimentos reais..
Continue assim..
Parabéns pelo conto!!

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