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Fogo... que fogo...
Sempre que cavalgava, passeando por
seu haras, Gisele sentia que vivia uma aventura incontável,
podia ter a sensação clara de que a vida
era plena, sua liberdade podia ser medida pelos ventos
que levantavam seus cabelos, e tinha um sorriso sempre
estampado nos lábios.
Desde de que se formara em veterinária,
sua vida se resumira em criar cavalos, ensiná-los,
vaciná-los e cavalgar neles. Sempre lhe perguntavam
sobre sua vida afetiva, mas nada lhe havia chamado atenção
até hoje, seus poucos namorados, apesar de muito
linda que era, podiam ser contados nos dedos de uma
única mão. Às vezes, se perguntava
dos por quês?!? mas nada de espontâneo lhe
vinha à mente, então logo se distraia
e esquecia que nunca havia sentido aquela paixão
que suas amigas falavam.
Gisele era a mais alta das irmãs,
e sempre se destacara por sua gentileza e dedicação
às causas perdidas. Sua sensibilidade lhe dava
ares de princesa e a doçura de sua voz preenchia
a casa quando cantava, era como um passarinho.
Então um dia, quando foi à
cidade para comprar ração para seus cavalos,
encontrou-se com sua amiga de infância, Sueli,
que tomava café em um bar da esquina:
- Que saudade!- e um forte abraço
pode sentir – Como é bom vê-la tão
queimada pelo sol, a volta à fazenda lhe fez
bem!
- Sueli! Há quanto tempo, o que
tem feito de bom?
- Nada de especial, amiga, estou desempregada
e sem muito futuro para vislumbrar, tenho minha mãe
doente em casa e por aqui tenho que ficar!
– os olhos brilharam de repente, e quase pode se
perceber uma lágrima se esgueirando no canto
dos olhos azuis – Não estou pedindo nada,
por favor!
- Ora, amiga! – Gisele abraçou-a
carinhosamente - Para que servem as amigas, senão
poder ajudar? Mas é que preciso de alguém
que me ajude com os cavalos pequenos, se ainda gosta
de cavalos, poderíamos pensar no assunto. Posso
sentar-me?
- Lógico, querida, o que quer
tomar? Suco de limão, como sempre?
- Ainda se lembra? Faz tempo, não
é mesmo? Mas vamos falar de negócios,
você ainda tem jeito com os animais, como antes,
tenho que cuidar de quatro potrinhos, tenho muito serviço
e preciso dividi-lo com alguém, quer?
- Tem certeza? E seu pai, não
vai se importar, afinal nunca foi com minha cara!
- Papai faleceu há mais de dois
anos, agora estou na fazenda com minha irmã casada,
mas tenho uma casa só para mim. Quer?
- Lógico que vou aceitar, poder
dividir meu dia a dia com você será fantástico!
Minha vida não tem sido um mar de rosas, mas
ainda adoro bichos, amo a natureza... você! Obrigada!
- Que tal irmos para lá agora,
vim comprar ração e tenho voltar logo.
Vamos?
Assim passaram os meses, e Gisele sempre
às voltas com o haras e o olhar observador de
Sueli, que tudo aprendia com rapidez e cuidado. Passavam
horas conversando, cada qual contado sobre os anos em
que haviam se distanciado.
- Nossa que chuva! – comentou Gisele,
fechando os olhos ao ver o raio caindo – Este temporal
veio para valer!
- Ainda sente medo, não é
mesmo?
- Muito medo, Sueli, queria sumir nestas
horas.
- Que nada, vem aqui pertinho de mim
– e segurou as mãos da amiga – Estou
aqui com você, nada de mal vai-lhe acontecer.
- Que bom tê-la aqui, sinto-me
mais segura. – e se recostou no colo da amiga,
e se esqueceu do temporal, sentindo apenas aquela mão
macia deslizando por seus cabelos longos – Fica
aqui esta noite?
- Preciso ligar para casa, senão
ficarão preocupados – e pegou o telefone
ao lado – Não se preocupe, estou aqui.
A noite se tornou pequena, e cada uma
se envolveu mais na história da outra, se encontrando
os olhares muitas vezes, o toque da mão na perna
da outra, os carinhos desperdiçados tantas vezes,
e sem saberem como, um beijo depois de um longo silêncio.
Que beijo quente, como um vulcão acionado pelas
mãos delicadas, elas se tocaram, se amaram, se
misturaram no torpor das carícias mais íntimas.
Não houveram dúvidas, apenas a surpresa
estampada nos olhares brilhantes, e uma nuvem de paixão
pairou no ar, envolvendo-as. Amor de tanto tempo, amor
curtido e desesperado, amor urgente, suturando feridas
e solidões, amainando as perdas e conferindo
as alegrias divididas. Amanheceu.
Os corpos misturados na cama em
desalinho, as roupas espalhadas, o cheiro da noite se
esvaindo com o brilho do sol que aparecia tímido,
e um beijo selou o amor que poderia durar uma eternidade,
porque antes do amor havia amizade.







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