Travestismo e conhecimento mágico-religioso

Barbara G. Walker*

Há cerca de 10.000 anos, quando os homens começaram a buscar uma parcela do conhecimento mágico-religioso, até então domínio exclusivo das mulheres, seu objetivo original foi se fazerem parecer com mulheres de tal forma que os espíritos os considerassem aceitáveis. O método mais comumente usado para isso foi vestir roupas de mulher.



O crossdressing foi uma prática ritual muito comum na maioria das religiões antigas. Tacitus descreveu os sacerdotes de certas tribos germânicas como muliebri ornatu, isto é, homens vestidos de mulher. Os sacerdotes escandinavos que comandavam os rituais do nascer e do por-do-sol em honra do Haddingjar (Gêmeos Celestes) foram homens cujo ofício demandava que eles usassem roupas e penteados femininos. Mesmo Thor, o deus do trovão na mitologia nórdica, só recebeu o seu martelo mágico e foi ungido de poderes depois que vestiu as roupas e adereços da deusa Freya e fingiu ser uma noiva.



Na Argólia (antiga região da Grécia), durante a celebração da "Hubritska", os homens se transformavam em mulheres usando vestidos e véus femininos, de forma que pudessem assumir temporariamente os poderes mágicos femininos, numa clara violação de uma interdição específica: – o domínio exclusivo da mulher nas artes mágicas e nas práticas religiosas. A “Hubritska” era uma “Festa da Devassidão”, onde o travestismo e as orgias eram presença constante.

Os sacerdotes cretenses de Leukippe, a Mãe Égua-branca, sempre usavam vestidos femininos. O mesmo faziam os sacerdotes de Héracles, em memória do serviço do seu deus (em trajes femininos) à deusa Omphale, personificação do omphalos. O filósofo judaico Moisés Maimonides disse que os homens no seu tempo vestiam roupas de mulher para invocar a ajuda da deusa Vênus.



Os gallae, sacerdotes romanos da “Magna Mater” (Cibele), vestiam-se como mulheres e extirpavam seus genitais masculinos em sangrentos rituais públicos. O travestismo era também um fato corriqueiro nos ritos romanos de Lupercalia e os Idos do Janeiro. Esse costume prevaleceu até a época de Santo Agostinho, que exconjurou completamente todos os homens que se vestiam com trajes do vestuário feminino na festa de Janus. Ele disse que tais homens jamais poderiam alcançar a salvação, mesmo se eles se tornassem bons Cristãos. Antes da sua conversão ao cristianismo, consta que São Jerônimo, o ardoroso monge eremita, tradutor da vulgata latina da bíblia, participou de rituais de travestismo, embora os seus biógrafos tentassem encobrir o fato dizendo ele tinha usado roupas de mulher por engano.



O cristianismo condenou todas as formas de travestismo, alegando tratar-se de formas rituais de adoração ao diabo, por causa do fato dos homens adquirirem poder através de conexões com as mulheres, pouco importando se isto ocorria através de uma relação sexual ou o simples uso de uma máscara ritual.

Apesar de Agostinho e outros pais da igreja cristã, o trasvestismo ritual continuou a existir. Há relatos de homens vestidos com roupas de mulher em festivais religiosos em Amasya (hoje localizada ao norte da Turquia) antes do século quinto e, novamente – ou ainda – nas “calendas” de Janeiro, antes século dez. Balsamon escreveu que, antes do século doze, até o clero participava de rituais pagãos na nave central das igrejas, usando máscaras e trajes femininos. Gregory de Tours, o bispo do Auvergne na época Merovíngia, foi forçado a abandonar a sua igreja por uma “multidão de demônios", cujo líder vestia-se como uma mulher e ocupou o trono Episcopal. O inquisidor Jean Bodin afirmou que as bruxas masculinas e femininas de fato modificavam o seu sexo trocando de roupas uns com os outros.



Como já foi dito anteriormente, o travestismo masculino teve suas raízes no antigo desejo do homem de se apropriar dos “poderes mágicos atribuídos à mulher". No Celebes, os rituais religiosos permaneceram nas mãos de mulheres, assistidas por uma ordem de sacerdotes homens que usavam roupas femininas e eram chamados tjalabai, “mulheres imitativas.” A mesma palavra foi aplicada na Arábia ao manto que os homens copiaram das mulheres, o djallaba.



Entre os Batak do norte o xamã é sempre mulher, e o ofício é hereditário na linhagem feminina, porque nunca houve nenhuma prática de travestismo. Em Bornéu, os magos devem usar roupa de mulher. Considerados os maiorais, eram aqueles xamãs que podiam “modificar o seu sexo” e se tornar femininos, tomando maridos e vivendo como esposas homossexuais.



Da mesma forma, os índios norte-americanos viam o Berdache como um homem com dotes mágicos-medicinais. O Berdache fazia seus votos à Deusa da Lua, durante um sonho, no qual ele se tornava feminino. Assim ele era aceito pela tribo, como a mulher que ele quis ser, e lhe era permitido usar a roupas femininas e participar das corporações de ofícios ligados à mulher e dos rituais de dança femininos da tribo. Mircea Eliade diz, “a transformação Ritual e simbólica em mulher é provavelmente explicada por uma ideologia derivada do matriarcado arcaico.”



Um estudioso da Malásia disse que ser “mais do que provável que o manangismo (xamanismo) tenha sido originalmente uma profissão exclusiva das mulheres, a que os homens só foram admitidos muito gradualmente, no princípio apenas na medida em que pudessem se transformar em mulheres o máximo possível”. O manang ou xamã veste roupas femininas depois da iniciação e permanece um travesti por toda a vida. Um Dyak manang ainda usa somente roupas de mulher e segue ocupações femininas. “Este travestismo, com todas as modificações que ele envolve, é aceito depois que uma ordem sobrenatural foi recebida três vezes em sonhos: recusar-se seria equivalente a buscar a morte. Esta combinação de elementos mostra traços claros de uma magia feminina e de uma mitologia matriarcal, que deve ter dominado outrora o xamanismo do Dyak do Mar; quase todos os espíritos são invocados pelo manang sob o nome genérico de Ini (Grande Mãe).”



O culto a Krishna, como ainda é praticado na Índia, exige o travestismo ritual dos membros homens, que adoram o princípio feminino identificando-se como Gopis de Krishna. Eles usam a roupa e ornamentos de mulheres e até observam “um período menstrual”, retirando-se por alguns dias a cada mês. Segundo a sua doutrina teológica, “para Deus, todas as almas são femininas”.

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Fonte:

WALKER, Barbara G. The Woman’s Encyclopedia of Myths and Secrets

USA : Harper & Row, 1983

 

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