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Quem É Essa Figura Insólita Chamada Crossdresser?
Que é essa figura insólita, sombria e miasmática, chamada crossdresser? Quem é esse personagem tragicômico, que dia após dia se arrasta nas sombras do seu palco-armário, evitando de todas as formas submeter-se ao olhar público, ao mesmo tempo em que busca por ele avidamente, como um mendigo faminto de exposição, reconhecimento e legitimação?
Acima de tudo: - como legitimar alguém que se recusa a existir?
Comecemos pelo próprio vocábulo "crossdresser", que literalmente se traduz como "aquele ou aquela que se traveste", ou seja, que se veste com roupas culturalmente definidas como de uso do gênero oposto ao seu". Ora, "crossdresser" nada mais é do que um mero eufemismo de "travesti", termo carregado de pesadíssimo estigma cultural, que designa um personagem fortemente repelido pela atrasadíssima sociedade patriarcal brasileira.
No discurso oficial das "famílias", tal repulsa se dá em virtude dos vínculos do travesti com prostituição, contravenção e comportamento espalhafatoso e histérico em público. Mas a verdadeira natureza desta repulsa tem outras origens. De um lado, é um dos frutos malditos da formação machista da nossa sociedade, onde o "ser macho" é o valor mais alto de todos, devendo ser preservado a qualquer custo. Do outro lado, o preconceito contra o travesti tem sua matriz no pior de todos os estigmas sociais que existe: - a pobreza. Travesti é tradicionalmente pessoa pobre, oriunda de camadas na base da pirâmide social, que raramente tem acesso à educação formal de melhor nível e que, pelo terrível preconceito contra a sua condição de transgênero, tem enormes dificuldades de encontrar colocação no mercado de trabalho, o que o leva quase sempre a ter que optar e permanecer na prostituição como forma de ganhar o próprio sustento.
Embora estude o tema há bastante tempo, ainda não consegui alinhavar de modo minimamente consistente quais seriam as grandes (ou mesmo pequenas) demandas e aspirações de um suposto segmento "crossdresser" no Brasil. Todas as vezes que tenho tentado fazer isso acabo sendo fortemente repelida em minhas pretensões de traçar um perfil minimamente consistente do que seria um crossdresser brasileiro. O argumento mais comum contrário à identificação de traços comuns no "crossdresser" brasileiro é que "cada uma é uma", "cada uma tem suas próprias peculiaridades", "cada caso é um caso" e o terrível, espúrio e esdrúxulo argumento de que "é impossível classificar ou generalizar o que quer que seja".
Tenho ouvido muitas e muitas vezes que o único traço comum que possuímos, como pessoas transgêneras, é o desejo de nos vestir e nos comportar como mulheres genéticas. Entretanto, qualquer pessoa com um mínimo de sensatez irá reconhecer que esse traço em nada nos diferencia das travestis, das transexuais, das drag queens ou mesmo das transformistas performáticas. Em outras palavras, se esse for o "único" traço comum identificador do crossdresser como "categoria distinta dentro do universo GLSTB como, repito, afirma a expressiva maioria dos CDs, torna-se altamente arrogante qualquer tentativa nossa de nos firmar como categoria autônoma e independente dentro da classe transgênera.
Por outro lado, qualquer olho e ouvido "mais atento" reconhecerá claramente que as verdadeiras diferenças que distinguem um "crossdresser" de um "travesti" são essencialmente de natureza econômica, social e cultural. Nesse sentido, ao nos afirmar como categoria autônoma, estaremos apenas confirmando a continuidade do sistema de "classes sócio-econômicas" dentro do universo da transgeneridade.
Existirá um outro sentido, uma outra "leitura" do que é um "crossdresser" fora essa que acabo de expor? Pela sua condição econômica, travesti não pode se dar ao luxo de permanecer no armário: - tem que fazer pista. Tem que se montar e se expor à violência e ao ridículo público, diariamente. Não pode se dar ao luxo de se vestir apenas "de vez em quando", refugiando-se na sombra do armário, cultivando a transgeneridade como "fetiche secreto", por sinal bastante oneroso, ao alcance de muito poucos, sempre temendo ser "descoberto", pela mulher, pelos amigos, pelos clientes.
No meio de travestis, não existe "figuras públicas" importantes que "têm de manter em total sigilo a sua imagem pública de machos ilibados". Travesti é invariavelmente pobre; não tem nenhuma "importância" ou expressão pública, nem econômica, nem política, nem cultural. É escória social em todos os sentidos.
Crossdresser não é travesti. Não pode ser nem se identificar com "essa gente".
"Crossdresser" é um termo perfeito para abrigar pessoas de "outros níveis" e que, entretanto, sofrem da mesma "agonia íntima" com relação à sua própria identidade de gênero, a mesma inquietude que ataca qualquer travesti.
Haverá uma outra leitura possível do que seja "crossdresser" no Brasil?
Aqui a questão fica ainda mais complexa, pois dificilmente saberemos. A grande maioria das chamadas crossdressers não se manifesta nunca. E sua não-manifestação torna impossível a tarefa de identificar aspirações, necessidades, desejos e/ou ideais comuns a essa "suposta" categoria.
Diante de tamanha alienação, começo a acreditar que o maior traço comum da "classe crossdresser" é se auto-preservar em todos os sentidos. Ou seja, o que a grande maioria quer é permanecer no armário, protegida, resguardada em suas "imagens públicas" sem jamais correr o risco de ser identificada como travesti (mesmo porque - como nós - o grande público também não faz a mínima idéia do que seja crossdresser. Para o povão, criado no machismo, tudo não passa de bicha...).
Numa sociedade como a nossa, ser reconhecido como TRAVESTI pode significar a ruína pessoal. Nem é bom pensar! Crossdresser é travesti, cujo nível social, econômico e político NÃO RECOMENDA DEFINITIVAMENTE A SUA EXPOSIÇÃO PÚBLICA. É por isso que uma cd chega na porta da casa de outra cd e não sobe a escada. E é também por isso que outra cd pede o seu desligamento sumário de um clube virtual quando se vê convidada a participar mais, a deixar as sombras do anonimato e conviver mais de perto com suas irmãs.
Estima-se que perto de um por cento da população de machos, na faixa dos 18 aos 75 anos, pratique alguma forma de travestismo. Numa cidade do tamanho de Porto Alegre, isso corresponde a cerca de 4.000 pessoas, em cifras aproximadas. De acordo com as últimas estatísticas, cerca de 1/3 dessas pessoas têm acesso à Internet, ou seja, 1.400 pessoas. O número de associadas do maior clube brasileiro de crossdressers não chega a 20 pessoas.
O que é crossdressing? Quem somos nós? Representamos quem? Quais são as nossas aspirações? Gostaríamos de defender exatamente o que? Na ausência de um "breviário de intenções" que represente o crossdresser como "categoria", não vejo como ser levado adiante algo que possa ser chamado de "causa crossdresser".
Assim, continua sendo muito precário falar de um "segmento crossdresser brasileiro". Que forma de exposição ou ação pública pode ser esperada de um segmento social cujas componentes têm medo de arranharem sua imagem pública com o simples ato de subir uma escada, em sapo, para se encontrar com outras cds? Mais ainda, o que se pode esperar de um segmento, em termos de representatividade e legitimação pública, quando seus membros têm horror de qualquer tipo de exposição pública?
Os grandes responsáveis pela falta de identidade e de afirmação dos CDs são os próprios CDs que, pelos mais variados motivos do mundo, não se assumem como CDs.
Até quando nós crossdressers continuaremos "a reboque" das demandas e conquistas, justas e necessárias, dos demais subgrupos transgêneros? Até quando teremos de carregar uma "estrela tatuada no braço", dentro do nosso próprio "campo de concentração"?







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